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Ilca Maria Estevão

CFDA anuncia projetos de combate ao racismo institucional na moda

O Conselho de Designers de Moda da América criará programas de emprego, orientação e estágio para talentos negros

Ilca Maria Estevão10/06/2020 12:00, atualizado 10/06/2020 13:20
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Frazer Harrison/Getty Images for New York Fashion Week: The Shows via Getty Images
Desfile Pyer Moss

O debate antirracismo reacendeu no mundo inteiro em meio aos protestos que pedem justiça por George Floyd. Na moda, as manifestações levantaram reflexões e posicionamentos de estilistas e marcas. O Conselho de Designers de Moda da América aumentou seus esforços em prol da diversidade e, na última quinta-feira (04/06), anunciou iniciativas imediatas para ajudar a combater o racismo institucional na indústria fashion. Entre elas, oportunidades profissionais e educacionais voltadas para pessoas negras.

Vem comigo saber os detalhes!

O pacote de medidas foi anunciado em um comunicado assinado pelo estilista Tom Ford, chairman do conselho, e pelo presidente e CEO Steven Kolb. Os projetos foram desenvolvidos pelo Conselho de Designers de Moda da América (CFDA, na sigla original) durante uma reunião no dia 2 de junho. Na última quinta-feira (04/06), a organização divulgou as novidades pelo Instagram e informou aos membros por e-mail.

“Ter uma voz clara e se manifestar contra a injustiça racial, o fanatismo e o ódio é o primeiro passo, mas isso não é suficiente”, comunica o texto. “Nosso mundo e nossa indústria estão sofrendo muito e não basta dizer simplesmente que somos solidários com aqueles que são discriminados. Precisamos fazer alguma coisa”, informa um trecho do comunicado.
Tom Ford no Met Gala
O Conselho de Designers de Moda da América (CFDA) anunciou algumas iniciativas que tomará para ajudar a combater o racismo institucional na moda. O comunicado foi assinado por Tom Ford, chairman do conselho, e pelo presidente e CEO Steven Kolb
Comunicado do CFDA com iniciativas contra o racismo estrutural na indústria da moda
As medidas foram decididas em uma reunião no dia 2 de junho e anunciadas na última quinta-feira (04/06)

Os novos programas intensificam ainda mais os esforços do CFDA na causa da igualdade racial, pauta que já era defendida pelo conselho. A organização, que dá suporte à indústria fashion dos Estados Unidos e organiza a Semana de Moda de Nova York, listou novas ações imediatas:

  1. A criação de um programa interno de emprego para colocar talentos negros “em todos os setores do negócio da moda e para ajudar a alcançar uma indústria racialmente equilibrada”. A ideia é identificar esses profissionais criativos e fazer a ponte entre eles e as empresas que desejam contratar.
  2. Programas de orientação e estágio, voltados para estudantes negros recém-formados, visando empresas estabelecidas no mercado de moda.
  3. Um programa de treinamento em Diversidade e Inclusão para todos os membros.
  4. Doações e angariação de fundos para organizações de caridade que trabalhem a igualdade, com foco na comunidade negra. Entre elas, a NAACP e a Campanha Zero.
Desfile da Pyer Moss
O CFDA pretende criar um programa interno de emprego para fazer a ponte entre jovens talentos negros e empresas de moda, além de programas de orientação e estágio, um programa de treinamento de inclusão para os membros do conselho e doações para fundos em prol da igualdade racial

Por meio das iniciativas, o CFDA também desafia os varejistas a trabalherem com marcas que tenham representatividade de talentos negros. As novidades não serão apenas de dentro para fora. A organização pretende ainda avaliar sua própria estrutura corporativa para garantir que exista um equilíbrio racial na força de trabalho interna.

As propostas são animadoras, mas é importante lembrar que os Estados Unidos enfrentam uma onda de desemprego por causa da pandemia. Steven Kolb contou ao WWD que reconhece a fragilidade atual do mercado. Por outro lado, garante que os programas de empregamento atuarão a todo vapor assim que tiverem sinais de novas oportunidades.

“Quais são os empregos que realmente estarão disponíveis? A turbulência econômica em que estamos inseridos, em termos de desemprego e questões orçamentárias das empresas, será um desafio. Mas isso não é um impedimento ou algo que vai nos parar”, assegurou.

Kolb defende ainda que a pauta da diversidade é uma realidade presente em programas já existentes, incluindo prêmios e mentorias. Quanto às novas iniciativas, a organização montou um time de cinco funcionários para ajudar a colocá-las em funcionamento. “Isso é algo em que trabalharemos durante todo o verão e certamente esperamos ter isso ativamente ativo no outono”, adiantou.

O CFDA desafia os varejistas a comercializarem marcas que trabalhem a representatividade em suas estruturas
protesto contra o racismo e a truculência policial, depois da morte de George Floyd
As novidades anunciadas pelo conselho são uma resposta aos protestos antirracismo que tomaram os Estados Unidos e algumas cidades do mundo. Ao mesmo tempo, a pandemia ainda afeta empregos e a economia. Cumprir as iniciativas será um desafio em meio a esse cenário
Diversidade no próprio CFDA

De maneira geral, a indústria da moda é criticada há anos pela falta de modelos negros nas passarelas, assim como a falta de apoio a designers pretos. Sem falar na falta de profissionais negros em cargos corporativos de destaque, um meio majoritariamente ocupado por homens brancos.

Desde que assumiu o cargo de charmain do CFDA, em junho de 2019, Tom Ford vem implementando ações para atualizar a moda norte-americana. Uma das mais comentadas foi a redução de dias da Semana de Moda de Nova York. Apesar das ações em prol da diversidade, ainda há o que melhorar no conselho.

Entre o número geral de membros associados, há somente 19 declarados negros, enquanto o conselho tem um total de 477; ou seja, uma parcela de apenas 4%. No ano passado, o núcleo administrativo (board of directors) ganhou três membros negros: Virgil Abloh, Kerby Jean-Raymond e Carly Cushnie.

Virgil Abloh já era um membro do CFDA e entrou para o conselho administrativo da organização em 2019
Kerby e Anna Wintour
Kerby Jean-Raymond é outro estilista negro que agora faz parte da mesa de diretores
Estilista Carly Cushnie
Carly Cushnie também entrou para o conselho de diretores em 2019
Diretores de diversidade

No último ano, etiquetas como Prada e Gucci investiram em cargos internos de diversidade e inclusão após enfrentarem duras críticas por acusações de racismo. Em ambos os casos, por produtos com detalhes que remetem à prática do blackface.

A Chanel é outra grife que investiu no cargo de chefe de diversidade em 2019. Enquanto isso, a Valentino chamou atenção no desfile de alta-costura primavera/verão 2019 por dar protagonismo às modelos negras.

O próprio CFDA chegou a lançar um estudo sobre como a pauta da inclusão pode ajudar as empresas a atenderem melhor às necessidades dos clientes. O briefing foi feito em parceria com a empresa PVH Corp., dona de marcas como Calvin Klein e Tommy Hilfiger.


Colaborou Hebert Madeira