Zanine, o arquiteto sem diploma que inventou a flor do Cerrado

O baiano radicado em Brasília criou os arranjos de flores secas, nosso mais popular souvenir

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atualizado 20/03/2019 22:19

Zanine saía de Kombi pelo Cerrado. Parava, descia e ia catando flores e pedaços de pau torto. Em casa, punha-os para secar, mergulhava-os em água de tinta e fazia buquês. Nasciam assim os arranjos de flores secas do Cerrado, nosso mais popular souvenir. Era o começo dos anos 1960, começo de Brasília, portanto. “Zanine foi o primeiro a descobrir o belo no Cerrado. Eu mesmo descobri com ele como o Cerrado era bonito”, me disse 10 anos atrás o arquiteto Cydno Silveira, aluno de Zanine nas aulas de maquete do curso de arquitetura da UnB.

Dona Maria Apolinária era quem ajudava Sozanine, era assim que ela o chamava, a fazer os buquês de flores secas do Cerrado na chácara perto de Goiás. Quando ele chegava com a Kombi cheia de mato, ela sabia que tinha de pôr tudo para secar ao Sol, depois ajudá-lo a dar banho de tinta nas flores e nas folhagens e levá-las de volta ao Sol para que Sozanine fizesse os buquês.

JP Rodrigues/Metrópoles
Dona Apolinária começou a montar sozinha os ramalhetes com flores do Cerrado, após Zanine ir embora de Brasília

 

Depois que Zanine foi embora de Brasília, por força do golpe militar de 1964, dona Apolinária perdeu o emprego de ajudante de jardineiro de flor seca do Cerrado e foi trabalhar no que apareceu. Até que um dia se lembrou dos buquês e começou ela mesma a colher, secar, tintar, secar e montar os ramalhetes.

Dona Apolinária morava em Planaltina quando me contou essa história, 10 anos atrás. Nunca me esqueci de ela me dizer que o melhor remédio para a tristeza era sair sozinha, cedinho, para colher as flores do Cerrado e só voltar de noitinha, quando a sombra da dor já havia ido embora. Durante muitos anos, ela teve barraca de flor do Cerrado na Feira da Torre.

Aluno de Zanine nas aulas de maquete no curso de arquitetura da UnB, Cydno se tornou amigo do arquiteto e admirador de sua intensa atividade criativa. “Zanine não parava. Entendia de agricultura, de paisagismo, tinha uma floricultura na W3 Sul, fazia móveis, fez jardins para a UnB. Tinha uma obsessão quase patológica por querer aproveitar tudo. Ele não jogava nada fora. Fazia banco, arranjo de flores, casas, cultivava tomate…”.

O inquieto Zanine veio para Brasília, no início dos anos 1960, a convite de Darcy Ribeiro. Com o golpe de 1964, foi perseguido e pediu asilo na embaixada da então Iugoslávia (comunista!). Mas não saiu do Brasil. Meio clandestino, continuou a transformar coisas em outras coisas, com especial paixão pela madeira, com a qual moldou casas encantadoras, algumas em Brasília.

Já de volta da vida semiclandestina, inventou de ministrar oficinas de fabricação de canoas para antigos canoeiros de Nova Viçosa (BA), projeto ecológico-utópico que teve o apoio de Oscar Niemeyer, Chico Buarque e Dorival Caymmi. Por esse tempo, começo dos anos 1980, Zanine ajudou na construção da mítica casa de Frans Krajcberg, no alto de um pé de pequi.

Até que chegou a perseguição corporativa. O Crea, Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura, tentou impedir Zanine de continuar exercendo a arte de inventar casas. Foi então que apareceu um anjo da guarda, de nome Lucio Costa, que sugeriu ao IAB, Instituto de Arquitetos do Brasil, a concessão do título de arquiteto honoris causa a Zanine. Foi resolvido o problema. Zanine seguiu fazendo móveis, esculturas, jardins, casas, a dar alma à madeira.

Neste 2019, comemoram-se os 100 anos de nascimento de Zanine, que morreu em 2001. Um dos seis filhos do arquiteto, o designer Zanini de Zanine fez um uma instalação em homenagem ao pai. Está na Hill House, no Casa Park, até 25 de maio, ao lado de exposições de fotografias de José Roberto Bassul e Márcio Borsoi.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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