Estradas-parques, uma ideia bonita que virou um caos rodoviário

Inspiradas nas parkways americanas, elas surgiram para humanizar o trânsito e para nos oferecer o Cerrado nas idas e vindas de todos os dias

Editoria de Arte/MetrópolesEditoria de Arte/Metrópoles

atualizado 13/01/2020 17:02

Não há nome mais bonito para uma rodovia: estrada-parque. Assim se batizou a mais nova estação do metrô. É a tradução de parkway, as vias norte-americanas criadas no final do século 19, com paisagens líricas, sem trânsito de veículos pesados e com pistas separadas para pedestres, ciclistas, cavaleiros e carruagens. Existem várias versões das parkways mundo afora, todas elas margeadas por cenários idílicos ou quase.

Cidade rodoviária, Brasília precisava de vias à altura do Cerrado que a envolvia e dos gramados que a entrelaçavam. Então, Lucio Costa pensou em parkways projetadas para o trânsito rápido e desimpedido, mas sem a crueza das rodovias. Tinha de ter uma paisagem bucólica para o descanso dos olhos. O Cerrado recém-ocupado era a composição perfeita. E, como nas estações dos metrôs mais antigos do mundo, que as estradas-parques tivessem a identidade do lugar por onde passavam.

Sugiram então estradas-parques com nomes ligados à toponímia da cidade. Desde as designações mais antigas, como Estrada-Parque Cabeça de Veado e Estrada-Parque Tamanduá, até uma homenagem ao fundador, a Estrada-Parque Juscelino Kubitschek, todas elas reduzidas a siglas, ao modo brasiliense de complicar as coisas. A EPJK é a continuação da Ponte JK em direção aos condomínios do Jardim Botânico.

A mais famosa e caótica das estradas-parques já foi uma das mais belas. Até os anos 1990, a Estrada-Parque Taguatinga, a EPTG, era margeada por galerias de eucaliptos gigantes e tinha um canteiro central gramado e em, alguns pontos, arborizado. A Estrada-Parque Paranoá tem a mais bela paisagem – o lago visto de cima. A Avenida das Nações também se chama Estrada-Parque das Nações – e é quase toda bordejada pelo espelho d’água que abraça o Plano Piloto.

A mais importante e mais longa de todas as estradas-parques é um anel viário que contorna a Bacia do Paranoá, pelo divisor de águas – é a Estrada-Parque Contorno. Por ela, se faz a travessia da barragem – de um lado, o espelho d’água, do outro, o precipício ao fundo os chapadões.

Também denominada DF-001, a EPCT é um marco estratégico do projeto rodoviário de Juscelino. Dela partem as rodovias federais que interligam o Brasil, as BRs 010, 020, 030, 040, 050, 060, 070 e 080.

A Contorno passa pelo Recanto das Emas, Riacho Fundo, Núcleo Bandeirante, Candangolândia, Paranoá, Gama, Santa Maria, Lago Sul, Lago Norte, Samambaia, contorna o Parque Nacional de Brasília e, já cansada, chega a Taguatinga, onde passa a se chamar Pistão Norte e Pistão Sul.

As estradas-parques de Brasília seriam trilhas de asfalto entre cerrados não fosse a insanidade da engenharia de trânsito, da ideia equivocada de mobilidade urbana e da especulação imobiliária.

• Gramática brasiliense – A ortografia oficial de Brasília prefere “estrada parque”, sem hífen, contrariando o novo acordo ortográfico que adota o tracinho entre palavras compostas, quando o primeiro elemento for substantivo, adjetivo, verbo ou numeral.

Estrada Parque Contorno (EPCT) – DF-001
Estrada Parque Indústria e Abastecimento (EPIA) – DF-003
Estrada Parque das Nações (EPNA) – DF-004
Estrada Parque Paranoá (EPPR) – DF-005
Estrada Parque Centro de Atividades (EPCA) – DF-006
Estrada Parque Torto (EPTT) – DF-007
Estrada Parque Universidade de Brasília (EPUB) – DF-008
Estrada Parque Península Norte (EPPN) – DF-009
Estrada Parque Abastecimento e Armazenagem (EPAA) – DF-010
Estrada Parque Indústrias Gráficas (EPIG) – DF-011
Estrada Parque Tamanduá (EPTM) – DF-015
Estrada Parque Dom Bosco (EPDB) – DF-025
Estrada Parque Juscelino Kubitschek (EPJK) – DF-027
Estrada Parque Cabeça do Veado (EPCV) – DF-035
Estrada Parque Aeroporto (EPAR) – DF-047
Estrada Parque Guará (EPGU) – DF-051
Estrada Parque Vargem Bonita (EPVB) – DF-055
Estrada Parque Ipê (EPIP) – DF-065
Estrada Parque Núcleo Bandeirante (EPNB) – DF-075
Estrada Parque Vicente Pires (EPVP) – DF-079
Estrada Parque Interbairros (EPIB) – DF-081
Estrada Parque Taguatinga (EPTG) – DF-085
Estrada Parque Vale (EPVL) – DF-087
Estrada Parque Ceilândia (EPCL) – DF-095
Estrada Parque Acampamento (EPAC) – DF-097

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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