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Conceição Freitas

O que escreveram os dois Joões, o Rosa e o Cabral, sobre Brasília

Os dois diplomatas visitaram a capital em construção e, entre o encanto e a desilusão, perceberam que a utopia nascia na contradição

09/01/2020 11:00, atualizado 09/01/2020 20:47
Esplanada dos Ministérios em construção. Brasília, 1958. Foto: Marcel Gautherot/IMS
O que escreveram os dois Joões, o Rosa e o Cabral, sobre Brasília

Dois Joões, diplomatas, literatos, deixaram poemas, carta e conto sobre a nova capital que viram nascer. João Guimarães Rosa (1908-1967) e João Cabral de Melo Neto (1920-1999) navegaram entre o encanto por tão belo feito brasileiro, uma nova capital construída pelo gênio moderno, e as contradições da utopia.

O mais velho dos Joões, o Rosa, visitou as obras da nova capital pelo menos duas vezes: em janeiro e em junho de 1958. Em carta aos pais, ele contou a aventura de ser candango por uns dias:

“No começo de junho, estive em Brasília, pela segunda vez, lá passei uns dias. O clima, na nova capital, é simplesmente maravilhoso, tanto no inverno quanto no verão. E os trabalhos de construção se adiantam, num ritmo e entusiasmo inacreditáveis: parece coisa de russos ou de norte-americanos. Desta vez, não vi tantos bichos e aves, como da outra, em janeiro passado — quando as perdizes saíam assustadas, quase de debaixo da gente, e iam retas no ar, em voo baixo, como bolas peludas, bulhentas, frementes, e viam-se os jacus fugindo no meio do mato, com estardalhaço; também veados, seriemas, e tudo. Mas eu acordava cada manhã para assistir ao nascer do sol, e ver um enorme tucano, colorido, belíssimo, que vinha, pelo relógio, às 6 hs.15’, comer frutinhas, durante dez minutos, na copa alta de uma árvore pegada à casa, uma “tucaneira”, como por lá dizem. As chegadas e saídas desse tucano foram uma das cenas mais bonitas inesquecíveis da minha vida”.

Guimarães Rosa

Três anos depois, Rosa escreveu um conto, As margens da alegria, publicado no jornal O Globo, edição de 1º de julho de 1961. O narrador conta as percepções de um menino numa viagem “inventada no feliz”. Tudo é encanto, desde “as nuvens de amontoada amabilidade” que vê da janelinha do avião. “O menino fremia no acorçoo, alegre de se rir para si, confortavelzinho, com um jeito de folha a cair”.

Quando o voo findava, o menino viu Brasília. “A grande cidade apenas começava a fazer-se, num semi-ermo, no chapadão: a mágica monotonia, os diluídos ares”.

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O pequeno visitante foi levado à Granja do Ipê (onde morou Israel Pinheiro, entre o Núcleo Bandeirante e o Riacho Fundo). Anotou intimamente tudo o que via — a poeira, o veado campeiro, a canela de ema, a siriema, o buriti e “essa paisagem de muita largura, que o sol grande alargava”.

O menino seguia vendo todas as coisas pela primeira vez: “Sustentava-se delas sua incessante alegria, sob espécie sonhosa, bebida, em novos aumentos de amor. E em sua memória ficavam, no perfeito puro, castelos já armados. Tudo, para a seu tempo ser dadamente descoberto, fizera-se primeiro estranho e desconhecido”.

No almoço, o menino ouvia o tio, a tia, os engenheiros. “Esta grande cidade ia ser a mais levantada do mundo”. Na sobremesa, marmelada “da terra, que se cortava bonita, o perfume em açúcar e carne de flor”. O menino provava do doce até hoje feito pelos negros do Quilombo Mesquita, a 40 km do Plano Piloto.

O menino que Rosa inventou percebeu que em Brasília tudo morria muito rapidamente para que tudo nascesse na mesma velocidade:
“Tudo perdia a eternidade e a certeza; num lufo, num átimo, da gente as mais belas coisas se roubavam. Como podiam? Por que tão de repente? Soubesse que ia acontecer assim, ao menos teria olhado mais o peru aquele. O peru-seu desaparecer no espaço. Só no grão nulo de um minuto, o menino recebia em si um miligrama de morte.

Já o buscavam: — “Vamos aonde a grande cidade vai ser, o lago…”

Encantado com o cerrado, triste com a morte de um peru na casa onde estava hospedado, o menino percebe a destruição da paisagem original e da vida que nela havia:

“Mal podia com o que agora lhe mostravam, na circuntristeza: o um horizonte, homens no trabalho de terraplenagem, os caminhões de cascalho, as vagas árvores, um ribeirão de águas cinzentas, o velame-do-campo apenas uma planta desbotada, o encantamento morto e sem pássaros, o ar cheio de poeira. Sua fadiga, de impedida emoção, formava um medo secreto: descobria o possível de outras adversidades, no mundo maquinal, no hostil espaço; e que entre o contentamento e a desilusão, na balança infidelíssima, quase nada medeia. Abaixava a cabecinha.”

O outro João, o Cabral, também deitou no branco palavras encantadas sobre a nova capital. Deixou cinco poemas inspirados na nova capital, sem contar outros sobre o engenheiro e poeta Joaquim Cardozo e sobre arquitetura. No poema “Mesma mineira em Brasília”, ele revela os dois Brasis de uma mesma cidade:

“No cimento duro, de aço e de cimento,
Brasília enxertou-se, e guarda vivo,
esse poroso quase carnal de alvenaria
da casa de fazenda do Brasil antigo”.

O Brasil colonial, das casas grandes, se transformava em Brasil moderno sem perder o pé da arquitetura dos tempos escravocratas. Um país que se moderniza, mas não se despreende do traço original de sua formação. Como se Brasília fosse uma pessoa que leva consigo toda a carga do vivido e, mesmo que tente se libertar com uma nova arquitetura de vida, estará sempre presa à sua arquitetura vernacular. Uma utopia contaminada de passado.

Ou, no dizer poético do professor Roniere Menezes, da Universidade Federal de Minas Gerais, “

uma esperança desconfiada

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” dos dois Joões diante do espanto-Brasília.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.