Bonitos e feios, a luta é pela civilização. Não é um concurso de beleza

Entrar no jogo da boniteza x feiura é se igualar aos que estão nos empurrando para a barbárie. E usar emojis de cocô é um recurso fedorento

Chesnot/Getty ImagesChesnot/Getty Images

atualizado 08/09/2019 13:48

Beleza e feiura não são virtudes morais, como muitos parecem acreditar piamente, à direita e à esquerda. Muitas das reações às ofensas de Bolsonaro e Guedes à Brigitte Macron foram tão ignóbeis quanto o que disseram esses dois. Teve quem fizesse meme com a foto da mulher do ministro da Fazenda para mostrar que ela também não se enquadra num padrão de beleza ocidental e branco. Ou quem comparasse, com a lupa dos padrões estéticos, Haddad e aquele que venceu a eleição.

Calma, calma, calma.

É nítido e claro que Haddad é um homem bonito e que aquele outro não responde à beleza clássica, mas eles não disputaram concurso de Mister Brasil.

Não se trata de rabugice. Não sou exatamente uma pessoa mal-humorada, ranheta. Trata-se de tentar trazer a luta democrática de volta a seu honroso lugar, que nos distingue imensamente da genética fundamentalista.

O nazismo, não se esqueçam, se ancorava esteticamente no padrão clássico de beleza. Sobre isso, vale ver ou rever Arquitetura da Destruição, documentário de Peter Cohen, que mostra como o delírio de transformar a Alemanha num lugar “puro”, negando as fraturas humanas, incorporou os padrões estéticos da Antiguidade Clássica. Todos teríamos de ser estátuas gregas ambulantes. Ou era belo e perfeito, branco e saudável, heterossexual e forte, ou estava condenado ao campo de concentração.

Essa gente que tomou o poder (e seus apoiadores fanáticos) renega a condição humana. Não querem saber quem são, quem somos, recusam-se a conhecer a pequeneza que há em cada um de nós, nossas fraquezas, nossos desejos inconfessáveis, nossa feiura.

Não será indo para o território deles que venceremos essa luta que, como muitos já disseram, é da civilização contra a barbárie. É preciso deixar bem claro aos que ainda estão confusos, os que ainda não perceberam o grave erro que cometeram (sim, amigos, somos pusilânimes, todos, todos, em algum momento ou em muitos momentos da vida), é preciso deixar clara a diferença entre os que honram (ou pelo menos tentam) honrar a vida e os alucinados que querem destruir do lado de fora o que não conseguem lidar do lado de dentro.

São fantasmas do humano que um dia talvez tenham sido. Não têm nada a perder porque sabem o quanto estão pútridos; estão mortos e sabem disso. Daí o desejo de acabar com tudo o que remotamente lhes acene para a própria desgraça.

Virou moda, na luta da civilização contra a barbárie, postar emojis de cocô como recurso gráfico para desqualificar todo aquele que não é explicitamente aliado dos valores de igualdade e diversidade. É uma referência à facada, ou fake-facada, seja o que for. É um recurso escatológico, baixo, irrelevante, desinteressante, pobre, fedorento. Não será com tolete de bosta que os civilizados vencerão os abjetos (haja adjetivo pra dar conta dessa gente).

A luta da civilização contra a barbárie é também uma luta contra o bárbaro que existe dentro de nós por mais que a gente olhe no espelho e se orgulhe (com toda razão): eu não ajudei, por ação ou omissão, a eleger isso daí.

Mas muita gente bonita não percebeu a gravidade da escolha. E ainda dá tempo de se redimir do erro antes que a feiura destrua tudo o de belo que há no Brasil e nos brasileiros.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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