Agora é papo reto: ditadura, nunca mais

É hora de guardar o Narciso que há em cada um de nós. Filha da democracia, Brasília não pode ser cúmplice de um novo golpe

Conceição Freitas/Metrópoles

atualizado 26/02/2020 22:39

Tem uma camiseta, feita pela Verdurão, com a seguinte frase: “Moro em Brasília e nunca vi um presidente”. Os brasilienses fora de Brasília inescapavelmente ouvem (ou ouviram, hoje tudo mudou) a pergunta: “Você já viu o presidente?”.

Estou aqui há 35 anos e nunca vi um presidente. E foram seis, sete com o atual. Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma. Nem nas poucas vezes que, como repórter, fui ao Palácio do Planalto, nem nessas vezes vi um presidente em sua condição presidencial.

Brasília, a cidade dos cidadãos comuns, é tão distante do presidente da República como qualquer outra. A capital do país, porém, esconde muito bem, nas escalas monumentais, as autoridades. Ficam todas protegidas do povo.

Aqui estão também as sedes das Forças Armadas e dos ministérios, em edifícios discretamente distribuídos pelo Distrito Federal e no imponente e belíssimo – é preciso reconhecer – conjunto arquitetônico do QG do Exército, no Setor Militar Urbano, obra do comunista Oscar Niemeyer. Pois o que é este país senão o resultado de superpostas contradições de nascença?

Se há um golpe em marcha, e tudo faz crer que há, é daqui, da cidade construída por humanistas, democratas e comunistas, que sairá o sinal aterrorizante. Da mesma cidade que abrigou, com conforto, proteção e cumplicidade (mas com resistência) o golpe de 1964.

Em Brasília, ninguém faz nada escondido. Tudo é aberto, todos se conhecem, todos os segredos são contados um a um por uma burguesia que sabe da vida de todos. Na cidade que deu 70% dos votos ao candidato eleito, tudo o que nos resta é juntar os cacos dos democratas, nos proteger uns aos outros e encontrar modos inteligentes de minar o arroubo autoritário.

Não dá mais pra brincar de selfies, memes, gifs, videozinhos lindos, viagens maravilhosas, pets bonitinhos, comidas fantásticas, paisagens idílicas, tiradas sensacionais, frases de autoajuda. Guardemos o Narciso que há em cada um de nós para hora menos grave. Agora é papo reto, hora de agir até onde o braço de cada um alcança, como disse a Lúcia Leão.

Brasília não tem entrada nem saída, como disse Clarice. Aqui estamos todos na luta invisível com o inimigo. Nessa hora, a capital de Lucio, Oscar e Juscelino pode ser a maior inimiga da democracia, por esconder nos imensos vazios, nos seus palácios de mármore ocupados pelos demofóbicos (como disse a Graça Ramos), pelos omissos e pelos covardes, a vontade devoradora de tomar o país para si e deixar todos, os que votaram nele e os que não votaram, sob graves riscos.

Escrevo essa crônica no dia 27 de fevereiro, dia do aniversário de 118 anos de Lucio Costa, humanista que inventou esta cidade e que teve de vir a ela, no tempo da ditadura, para tentar libertar seu genro, Eduardo Sobral, que havia sido preso pelos militares. Executivo da Petrobras, o marido de Maria Elisa Costa era defensor da soberania nacional. Lucio voltou para o Rio sem conseguir libertar o genro. A ditadura não tem nenhum princípio humano. São os homens entregues à própria selvageria.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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