A perdição dos homens que comem ouro e a riqueza dos Yanomami

Em "A queda do céu", o xamã Davi Kopenawa nos oferece o espelho de nosso desejo de acumular. É a nossa "paixão pela mercadoria"

Stephanie Arcas/MetrópolesStephanie Arcas/Metrópoles

atualizado 10/10/2019 7:22

Então o índio perguntou:

— O que fazem os brancos com todo esse ouro? Por acaso, eles o comem?

O índio era Davi Kopenawa; o lugar, Paris, e os interlocutores eram os participantes de um fórum sobre os povos da Amazônia brasileira, em 1990.

A pergunta serve de epígrafe de um dos mais importantes capítulos de “A queda do céu“, livro no qual o autor conta o que é ser um xamã yanomami, relata o percurso de um índio que se recusou a imitar o branco e como somos vistos por eles.

Tudo para o índio é pleno de significado, um modo, talvez, de espantar o vazio ao qual somos condenados. Nada é à toa. Entre o Yanomami e a natureza, há uma cadeia ininterrupta de sentidos. A civilização quebrou essa teia de significados.

Chama-se “Paixão pela mercadoria”, o capítulo mais importante do livro:

“No começo, a terra dos antigos brancos era parecida com a nossa. Lá, eram tão poucos quanto nós agora na floresta. Mas seu pensamento foi se perdendo cada vez mais numa trilha escura e emaranhada”. Nesse perdido, “derrubaram toda a floresta de sua terra para fazer roças cada vez maiores. Mas já não se satisfaziam mais com isso. Puseram-se a desejar o metal mais sólido e mais cortante… Aí começaram a arrancar os minérios do solo com voracidade. Construíram fábricas para cozê-los e fabricar mercadorias em grande quantidade. Então, seu pensamento cravou-se nelas e eles se apaixonaram por esses objetos como se fossem belas mulheres.”

Assim nasceu, diz Davi Kopenawa, “o povo da mercadoria”, nós. “Por quererem possuir todas as mercadorias, foram tomados de um desejo desmedido. Seu pensamento se esfumaçou e foi invadido pela noite. Fechou-se para todas as outras coisas. Foi com essas palavras da mercadoria que os brancos se puseram a cortar todas as árvores, a maltratar a terra e a sujar os rios.”

O que a civilização fez na própria terra quer fazer na terra dos índios.

As mercadorias não morrem, diz o xamã yanomami, no livro que escreveu com o antropólogo francês Bruce Albert, que há mais de 40 anos acompanha os Yanomami. “Os humanos adoecem, envelhecem e morrem com facilidade. Já o metal dos facões, dos machados e das facas fica coberto de ferrugem e sujeira de cupim, mas não desaparece tão depressa!” (Facões, machados, facas são os objetos industrializados de que os índios mais necessitam para abrir clareiras, fazer roçado…)

Índio não tem senso de propriedade, pelo menos os que ainda não foram contaminados pela civilização. “As mercadorias não morrem. É por isso que não as juntamos durante nossa vida e nunca deixamos de dá-las a quem pede. Se não as déssemos, continuariam existindo após nossa morte, mofando sozinhas, largadas no chão de nossas casas.”

Há vida em tudo, na cosmogonia indígena. Se morro, meu facão é a extensão de mim e vai trazer tristeza aos meus. Também por isso, o índio não acumula. “Já que somos mortais, achamos feio agarrar-se demais aos objetos que podemos vir a ter. Não queremos morrer grudados a eles por avareza.”

Para nós que cultivamos a boa leitura, soam ingênuos o pensamento e as palavras de Davi Kopenawa. É só a capa do facão. Do lado de dentro do embrulho, há uma profundidade onde o pé não alcança, da qual fomos apartados desde que viramos acumuladores.

Entre os brancos, quando morre um pai, os filhos ficam ansiosos pela repartição do patrimônio — as mercadorias de que fala o yanomami. Quando morre um índio, tudo o que lhe pertencia é queimado. “Achamos ruim ficar com os pertences de um morto. Nos causa pesar. Nossos verdadeiros bens são as coisas da floresta: suas águas, seus peixes, sua caça, suas árvores e frutos.”

Se um yanomami ganha um facão de um branco, e se outro yanomami dele precisa, o presente vai mudar de mão. “Nenhum de nós deseja suas mercadorias só para empilhá-las em casa e vê-las ficando velhas e empoeiradas! Ao contrário, não paramos de trocá-las entre nós, para que nunca se detenham em suas jornadas. Só os brancos que são sovinas e fazem as pessoas sofrerem no trabalho para estender suas cidades e juntar mercadorias, nós não!”

É tudo tão claro e simples, que deve soar tosco para os mais enredados no mundo das mercadorias. É uma trama difícil de se desfazer. Davi Kopenawa ri de nós (índio sabe rir dos brancos!). Compara nosso apego aos bens materiais a uma namorada ou um namorado. [Os brancos] São de fato apaixonados por elas (pelas mercadorias)! Dormem pensando nelas, como quem dorme com a lembrança saudosa de uma bela mulher. Elas ocupam seu pensamento por muito tempo, até vir o sono. E depois ainda sonham com seu carro, sua casa, seu dinheiro, até os seus outros bens — os que já possuem e os que desejam ainda possuir.”

Publicado primeiramente em francês, em 2010, “A queda do céu” foi finalmente traduzido para o português, pela Companhia das Letras. Davi Kopenawa é o xamã-narrador, e Bruce Albert, o etnólogo-escritor. Leitura que nos leva de volta à origem de todos nós, humanos, e nos lembra do quanto perdemos desde que decidimos pela civilização.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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