O mundo nasce na Amazônia e nele sobrevivem personagens incríveis

Uma índia que observa tudo e ri de tudo e um índio que faz uma cartilha bilíngue, tukano-português, num barco no Rio Negro

Conceicão Freitas/MetrópolesConceicão Freitas/Metrópoles

atualizado 08/10/2019 10:29

Três noites, dois dias e nove horas ilhada num barco pequeno, com outros cento e poucos passageiros, subindo o Rio Negro até São Gabriel da Cachoeira, 850 km a oeste de Manaus. O Brasil não conhece o Brasil, como cantava a inesquecível Elis. Nem eu, que sou dessas paragens, consigo apreender a grandeza do país onde nasci. Tirando eu, única negra, uma moça de pele clara e cabelo chapinha que estava num camarote e dois ou três outros passageiros das redes, toda a população insulada por 68 horas dentro de um prédio flutuante de três andares, toda ela é indígena ou cabocla.

Olho para cada uma dessas pessoas, e a timidez desconfiada que recebo de volta me faz perceber que estamos todos meio deslocados neste Brasil, que não se reconhece nem preto, nem índio, nem mestiço. Mulheres de traços suaves, miúdas, de cabelos longos e lisos. Crianças silenciosas, embora se movimentem como passarinhos – saltam de lugar em lugar como se o mundo fosse novo a cada novo minuto. Homens que mais ouvem do que falam.

Um desses passava horas sentado num balcão estreito, escrevendo em um caderno escolar. Desenhava letras como velhos japoneses desenham ideogramas. Bosco Marinho Tukano é professor de tukano e português numa escola de São Gabriel da Cachoeira. Está compondo uma cartinha bilíngue, tukano-português. Todas as palavras virão com ilustração. Bosco me pergunta, com um sorriso ao mesmo tempo ingênuo e malicioso, que imagem colocar na palavra “pekadu”, foneticamente reproduzida em tucano, porque, na língua dos índios dessa etnia, essa palavra não existe.

Pergunta se sou “mestrada” e se posso ajudar numa dúvida: que sinal usar para determinados sons que existem na língua tukana, mas não existem na língua portuguesa? “Tenho de procurar um linguista”, ele mesmo responde. Ao que prometo tentar colocá-lo em contato com algum professor de Brasília.

Quando cheguei ao barco, procurei armar minha rede mais perto de alguém que me parecesse mais amistoso. Parei diante de uma indígena sozinha, já acomodada. Perguntei se podia ficar por ali, ao que ela respondeu com um sorriso educado, não mais que isso, mas já estava bom demais. Passadas não mais de quatro horas de silenciosa observação, Elza Firmo, filha de tukano com baré, já me deixava entender que eu podia me aproximar dela.

Nas quase 70 horas que passamos juntas, rede colada com rede, ela não me fez nenhuma pergunta. E respondeu com quase avareza às muitas perguntas que fiz. Com uma avarenta solicitude. Soube que é casada, tem três filhos adultos, uma neta, mora em Manaus e nasceu numa comunidade próxima da cidade de São Gabriel da Cachoeira. Foi trabalhar em Manaus muito jovem. E não gostava de ser identificada como indígena; hoje, já não se importa mais. “Somos todos filhos de Deus.” Percebi que ela estranhou o meu cabelo. Expliquei que era filha de negro com índia. Duas brasileiras do Norte tentando encontrar identidades comuns.

A silenciosa Elza observava tudo de um jeito a mim imperceptível. “Olha o prato dele, parece o Pico da Neblina”, ela comentou, baixinho, com o riso ingênuo malicioso dos índios. O passageiro, também indígena, tinha uma montanha de comida diante de si, e o Pico da Neblina, ponto culminante do Brasil, fica no município de São Gabriel.

Tinha razão o índio glutão. A comida do barco é trivial e saborosa: arroz, feijão com legumes (tipicamente nortista), peixe frito, carne cozida, frango assado, carne, vatapá, farofa, salada. No café da manhã: sanduíche de mortadela, bolos, macaxeira, cará, tapioca (com gosto de tapioca), mingau de tapioca. Refeições livres e inclusas na passagem (R$ 380).

A mãe de minha nova amiga entrou no barco numa das três paradas, em Santa Isabel. Dona Amélia, índia tukana, é igual à filha: silenciosa, observadora, ingenuamente maliciosa e levemente afetiva. Tudo nelas soa verdadeiro, nada soa falso.

Exceto por uma ou outra audição, não se ouvia nenhuma música, até que o mundo veio abaixo. Um pastor fez uma preleção sobre o pecado, a salvação, Deus e o inferno (bem ali, flutuando no paraíso). Ele não gostou quando saí do salão: “Qualquer um tem o direito de não querer participar”, mas creio que me condenou ao degredo. Ouvi algo como “as almas que não se converterem padecerão na eternidade”. Soube depois que essas intervenções antiecumênicas não costumam acontecer. Foi um pedido do pastor-passageiro.

Se alguém duvida de que há um mistério sob o qual estamos sujeitos, pegue o barco e suba o Rio Negro. “É uma das paisagens mais lindas do mundo”, disse-se um espanhol que, aposentado, percorre os rios do planeta. Já esteve no Rio Congo, o de O Coração das Trevas, de Joseph Conrad.

Bordejando a densa floresta, o Negro é um rio de fundo arenoso e pedregoso. Antes das chuvas de dezembro, no período da seca, ele perde volume e surgem pedras, praias de areias luminosas e ilhas que parecem ter se desgrudado da floresta maciça. Em algumas delas, veem-se raízes expostas, secas, como se Deus tivesse arrancado com as mãos um pedaço da selva. Surgem ossos descarnados formando esculturas mágicas entre a floresta e o rio. A Amazônia ainda é o lugar do nascimento do mundo.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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