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Com um rádio amador nas mãos, o médico tentava orientar, a distância, um enfermeiro sobre como tratar lesões e reconhecer sintomas de doenças que acometiam a população indígena em lugares remotos do Amazonas. Essa era a realidade de locais como o município de São Gabriel da Cachoeira, fronteira com a Colômbia, antes da chegada dos profissionais cubanos que atuavam pelo programa Mais MédicosSão Gabriel da Cachoeira é o local mais indígena do Brasil. Sua população é composta por 70% de povos tradicionais de diferentes comunidades ocupando os seus 109,185 km² de extensão.

Após declarações do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), o governo cubano decretou o fim da parceria firmada com o programa Mais Médicos e a falta de assistência voltou a ser uma realidade. Profissionais que atendiam populações indígenas no Brasil fazem apelo ao Ministério da Saúde pela continuidade do serviço nessas áreas.

“Jogaram a gente no lixo, como se fôssemos copos descartáveis. Não tínhamos FGTS, décimo terceiro, e do dia para a noite ficamos sem qualquer possibilidade de trabalhar”, relata Carlos Alberto Del Llano (na foto em destaque com indígenas), 48 anos, há mais de 5 no Brasil trabalhando em comunidades indígenas.

A chegada de médicos como Carlos transformou a realidade de São Gabriel da Cachoeira, levando atenção básica de saúde a quem nunca antes havia visto um doutor. Durante 3 anos e 8 meses, ele enfrentou viagens de dois dias em um bote sem qualquer cobertura para chegar às aldeias mais remotas.

 

“O bote ia lotado, a gente pegava sol, pegava chuva. Não tinha remédio para dar às pessoas, nem instrumentos para trabalhar. Mesmo assim, fazíamos o nosso melhor e queremos continuar fazendo”, diz Carlos.

Equipe também de emergências
A princípio, esses médicos deveriam oferecer atenção básica de saúde, mas eles atendiam também emergências. Carlos conheceu de perto um Brasil desigual. Ele relata o momento em que recebeu como paciente um índio que havia sido esfaqueado e tinha parte do intestino exposta. Para chegar ao hospital mais próximo, o rapaz viajou dois dias de barco.

Na semana seguinte, um soldado que atuava na fronteira teve problemas de hemorróidas. “Quando falei que precisaria deslocá-lo, o capitão conseguiu um avião com UTI para buscá-lo. Conheci dois Brasis muito diferentes e um deles é muito pobre e negligenciado”, afirma.

Após trabalhar no Amazonas, Carlos foi transferido para Minas Gerais, onde permaneceu durante mais de 1 ano, também para trabalhar com população indígena, até que a parceria com Cuba foi encerrada.

Arquivo Pessoal

A acolhida ao médico cubano Carlos Alberto em São Gabriel da Cachoeira

 

Os médicos que atendem populações indígenas fizeram especialização de três anos na Universidade Federal de São Paulo. “O governo vai ter que formar novos especialistas e nós queremos continuar trabalhando. Não faz sentido”, lamenta.

Já salvei muitas vidas. Como da noite para o dia sou alguém não confiável? Que não consegue trabalhar?"
Carlos Alberto Del llano

O Brasil pagava R$ 11.500 para o governo cubano. Desse valor, R$ 2.976 ficavam com o médico. “Em Cuba, eu receberia R$ 200 como médico”, relata Carlos, que se casou no Brasil e tem três filhos.

Médicos cubanos que atuavam em comunidades indígenas, entre eles Carlos Alberto, escreveram uma carta que destinam aos responsáveis por esse setor no Ministério da Saúde:

“Ao sr.ministro da Saúde e à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), que tem a responsabilidade de executar as ações do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (Sasi-SUS):

O Sasi-SUS foi criado pela Lei 9836/1999 (Lei Arouca), para organizar ações e serviços de saúde voltados ao atendimento das populações indígenas. É orientada para ser um espaço etnocultural dinâmico, geográfico, populacional e administrativo bem delimitado.

Ele é responsável pela realização de atividades no território indígena, visando medidas racionalizadas e qualificadas de atenção à saúde, promovendo a reordenação da rede e das práticas sanitárias, e desenvolvendo atividades administrativo-gerenciais.

Historicamente, foi marcado pela ausência de profissionais médicos, em especial na Amazônia Legal. Esta realidade foi se transformando após o início do Programa Mais Médicos (PMM), onde foram incorporados 339 médicos nos DSEI, o que significa um crescimento de 79% em relação ao quantitativo de médicos que trabalhavam neste órgão em agosto de 2013.

O Ministério da Saúde dedicou muito esforço, capacitou profissionais com longa data de experiência em áreas indígenas, usou tempo e dinheiro na formação de especialistas em Saúde Indígena, sabendo que essa especialidade só tem validade neste país. Foi formada uma turma que sente no coração a dor das populações indígenas de todo o território brasileiro.

Mandar embora hoje esses profissionais que amam seu trabalho e têm o foco baseado na cultura de cada povo, etnia e comunidade, que conhecem a morbimortalidade a epidemiologia e até a língua de cada comunidade, vai ser um retrocesso na atenção a SASI-SUS.

Muitos desses médicos misturaram-se aos  indígenas, que sentem muito a desconstrução de uma atenção tão específica como a atenção ao índio. O governo tardará no mínimo 3 anos e inúmeros recursos para formar novamente especialistas em saúde indígena. Vai ter que fazer um grande investimento que poderia ser usado para melhorar o estoque de remédios, a parte instrumental, para dar condições nos polos base, no transporte aéreo, fluvial e terrestre.

Nós sabemos que o foco do novo governo pode não ser atenção especial aos povos originários de Brasil, mas ainda há oportunidade de fazer algo nesse sentido. Os médicos brasileiros e cubanos que trabalham em saúde indígena solicitam a oportunidade de continuar o trabalho com um possível edital destinado a esse povo carente ou homologação dos que ainda têm vontade de permanecer e lutar por a SASI-SUS.

Nós sabemos que o fim será fazer a prova para revalidar nossos diplomas, porém, até conseguirmos, solicitamos tempo para continuar trabalhando como especialistas e residentes na especialização em saúde indígena, para levar até eles o que aprendemos e o que fazíamos até agora. O nível de saúde para essa parte do povo melhorou consideravelmente.

Médicos cubanos eram perseguidos e punidos por fazer essa prova de revalidação do diploma, por isso hoje não têm CRM. Não estamos pedindo para ficar em confortáveis salas de atendimentos em grandes cidades, estamos solicitando seguir nosso esforços e profissionalismo em lugares onde 90% dos médicos não desejam trabalhar. Eles tiveram a oportunidade e desistiram.

A gente não vai desistir.  O povo indígena com certeza aprova, fica de sua parte a solução.

Médicos dos  DSEI Brasil”

Desassistidos
Cerca de 642 mil índios correm o risco de ficar sem acesso a cuidados de saúde, segundo dados do monitoramento do Mais Médicos feito pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Dados apontam, ainda, que 90% dos participantes do Mais Médicos eram de Cuba – de 321 médicos que atuavam nessas áreas, 289 têm tal nacionalidade.

Há 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) espalhados pelo Brasil.  O Mais Médicos aumentou em 79% o número de médicos em atividade nessas localidades. De acordo com levantamento do Ministério da Saúde, são 818 mil indígenas no país, dos quais 758 mil vivem em 5.366 aldeias.

A reportagem procurou a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde, mas não recebeu retorno a respeito de como ficará a situação da saúde indígena com a saída dos médicos cubanos até a publicação desta matéria.