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Ciência

Cães vira-latas não têm "saúde de ferro" e podem ficar muito doentes

Além de doenças genéticas, a lenda da "saúde de ferro" dos cachorros vira-latas pode ser afetada por condições infecciosas e metabólicas

27/06/2026 02:00
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Unsplash
Imagem colorida mostra cachorro vira lata - Metrópoles

Se você já conviveu com um cachorro sem raça definida (SRD) – ou os famosos vira-latas –, com certeza já escutou alguma frase como essa: “Meu vira-lata tem ‘saúde de ferro’, não fica doente por nada”. No entanto, há cada vez mais casos de cães SRD com doenças anteriormente mais associadas aos animais de raça. Mas afinal, o que tem diminuído a resistência deles?

Para entender a situação, é necessário compreender o porquê da fama de “saúde de ferro”. Segundo especialistas entrevistados pelo Metrópoles, devido a maior variabilidade genética dos vira-latas, eles têm tendência a apresentar menos mutações associadas a doenças. No entanto, o fato não quer dizer que todos os filhotes estão imunes à condições médicas. 

“Às vezes, se a mãe tem algum problema genético de displasia e o pai não tem, ainda assim, algum dos filhotes pode carregar essa informação genética. Não é uma certeza que os vira-latas sempre terão uma saúde de ferro e não terão problemas genéticos”, exemplifica a doutora em saúde animal Kássia Vieira, professora de medicina veterinária da Universidade Católica de Brasília (UCB).

Segundo Kássia, além de condições genéticas, os vira-latas também podem desenvolver ao longo da vida doenças infecciosas e metabólicas, que também comprometem a qualidade e o bem-estar deles. 

“Não são todas as doenças que os vira-latas vão ter com menos frequência. Quando o cachorro é SRD, existe uma diversidade genética de várias raças e, em algumas ocasiões, o animal pode carregar uma informação ‘ruim’ de uma raça e de outra, se tornando mais propenso a ter doenças”, explica Kássia.

O médico veterinário Fernando Resende afirma que existem estudos científicos evidenciando que cães de raça e vira-latas podem compartilhar muitas das mesmas variantes genéticas associadas a doenças.

“Quando olhamos para problemas de saúde ao longo da vida, a diferença entre cães de raça e sem raça definida não é tão simples quanto se imaginava. Portanto, não é correto dizer que todo cão de raça é frágil e todo vira-lata é resistente”, ressalta o especialista, que também é professor de medicina veterinária no Centro Universitário Uniceplac, em Brasília.

Mesmo com a saúde de ferro, vira-latas não devem ter a saúde negligenciada

O que muitas vezes é levado como brincadeira, pode acabar virando negligência. Por acreditarem fielmente na resistência de seus vira-latas, muitos tutores deixam de observar possíveis sinais de que o animal não está bem ou até deixam o cão “se curar sozinho” de alguma ocorrência que tenha sofrido. A atitude é perigosa e pode trazer consequências indesejáveis para o futuro do pet. 

“Quando o tutor acredita que o vira-lata aguenta tudo, ele pode atrasar a vacinação, vermifugação, controle de ectoparasitas, consultas preventivas, exames de rotina e até a investigação de sintomas importantes. Muitos problemas, como doenças cardíacas, renais, hormonais, articulares, odontológicas e infecciosas, podem evoluir de forma silenciosa”, alerta Resende.

Ao contrário de nós, os cães não sabem se comunicar de forma tão eficiente quando estão doentes. Se o tutor não estiver atento aos sinais, a descoberta de alguma condição considerável pode ocorrer apenas quando ela estiver mais avançada, diminuindo as chances de sobrevivência.

De acordo com os especialistas, as principais medidas para evitar prejuízos à saúde dos vira-latas são:

  • Manter a vacinação em dia;
  • Controlar vermes, pulgas e carrapatos;
  • Fornecer alimentação adequada;
  • Estar atento ao peso do animal;
  • Realizar atividades físicas compatível com a idade do cão e porte;
  • Sempre manter higiene do animal;
  • Fazer consultas e exames periodicamente, em especial em cães adultos e idosos.

“Qualquer mudança de comportamento, apetite, urina, fezes, peso, disposição, respiração ou locomoção deve ser avaliada. Vira-latas podem ser muito resistentes, mas não são invencíveis. A melhor forma de preservar essa boa saúde é não confiar na lenda, e sim na prevenção”, conclui o médico veterinário.