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É o bicho!

Quais remédios simples não podem ser usados por collies e vira-latas

Uma mutação genética que ocorre em raças de pastoreio e cães mestiços transforma remédios comuns em uma sentença de morte

21/06/2026 02:00
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Magnific
border collie na grama

A mutação genética no gene MDR1, que acomete raças de pastoreio como collies e pastores, além de cães vira-latas, desliga o sistema de segurança do cérebro dos animais e pode causar a morte rápida por intoxicação após o uso de medicamentos comuns.

O médico veterinário Wellyson Barbosa faz um alerta sobre a importância de realizar o teste genético preventivo antes de medicar esses pets em casa, destacando que remédios seguros para a maioria dos cães são altamente fatais para os portadores dessa alteração.

Embora a Ivermectina seja o princípio ativo mais famoso associado a essa condição, o perigo real envolve uma lista extensa de remédios do dia a dia, como anti-inflamatórios, xaropes, calmantes e remédios humanos.

Na rotina clínica, felizmente, não é comum presenciar esse tipo de intoxicação de forma grave, pois os profissionais já adotam cuidados preventivos. “Quando os cães são das raças que podem ter a mutação e não têm o teste genético, são prescritas medicações pensando em minimizar os riscos de uma intoxicação e é recomendado que seja realizado o teste, como forma de segurança”, explica o veterinário Wellyson Barbosa. O grande desafio, contudo, está na automedicação feita em casa pelos tutores, onde o risco se torna iminente.

O “porteiro” que falta e a herança oculta nos vira-latas

O cérebro do cachorro tem uma barreira de proteção que funciona como um sistema de segurança. Nela, existe uma proteína que trabalha como um “porteiro”. Se uma substância perigosa tenta entrar no cérebro, esse porteiro barra a entrada e a joga de volta para a corrente sanguínea.  “Nos cães com mutação MDR1/ABCB1, esse mecanismo está ausente ou não funciona de maneira adequada”, esclarece o especialista. Sem o “porteiro”, os remédios penetram no sistema nervoso central e se acumulam em concentrações perigosas.

Raças de pastoreio compartilham uma origem genética comum e, conforme criadores realizavam cruzamentos selecionados para preservar características físicas e comportamentais, a mutação acabou sendo perpetuada. Entre os animais mais afetados estão o collie, border collie, pastor australiano, pastor de shetland, old english eheepdog, mcnab, pastor branco suíço, wäller e alguns galgos.

Os famosos vira-latas que carregam traços ou parentesco com essas raças também podem herdar a alteração. “As características físicas podem levantar suspeitas, mas não permitem diagnóstico da mutação, que só é possível realizando o teste genético”, alerta o médico veterinário. 

Cachorro sendo medicado em casa
Medicamentos comuns da rotina humana e veterinária, que parecem inofensivos, acumulam-se direto no cérebro de cães com a mutação MDR1 e geram envenenamento grave.

A lista proibida da caixinha de remédios 

Além da clássica Ivermectina, remédios de uso rotineiro têm alto potencial de intoxicação, como a doramectina, moxidectina e selamectina. Na farmácia humana, o perigo surge em itens comuns como a loperamida (antidiarreico), além de tranquilizantes como a acepromazina e analgésicos como o butorfanol. Até quimioterápicos (vincristina, vinblastina, doxorrubicina) e imunossupressores entram na lista proibida.

“Dependendo do princípio ativo, formulação e dose absorvida, produtos tópicos também podem representar perigo. Isso inclui algumas pipetas antiparasitárias e produtos veterinários concentrados”, comenta Wellyson.

O cronômetro da intoxicação

Quando o cão consome uma substância proibida, os sintomas neurológicos costumam surgir em poucas horas. A intoxicação começa de forma sutil com apatia, sonolência profunda e dificuldade para caminhar. Rapidamente, o quadro evolui para tremores musculares, pupilas dilatadas, salivação excessiva e até cegueira temporária ou desorientação. Nos casos mais graves, o acúmulo de toxinas no cérebro leva a convulsões violentas e ao estado de coma.

Como não existe um antídoto para cortar o efeito da maioria desses remédios, o atendimento precisa ser imediato. “Caso ocorra de ter reação, é feito tratamento de suporte para minimizar os sinais clínicos e estabilizar o paciente”, pontua o veterinário. Se o tutor perceber o erro imediatamente, o médico pode fazer a descontaminação gastrointestinal. 

No hospital, o cão recebe terapia intensiva com fluidoterapia na veia, oxigênio e controle de convulsões. O sucesso do tratamento e a sobrevivência do pet dependem exclusivamente da agilidade em buscar o socorro.

O diagnóstico é feito por um teste genético molecular através de exame de sangue ou por um simples cotonete na mucosa da boca. Como o DNA não muda, o teste é feito uma única vez na vida do animal. O cão positivo não está doente e terá uma vida normal, servindo a informação apenas para que o veterinário monte protocolos com alternativas terapêuticas seguras para o resto da vida do pet.