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Ciência

Robôs na seleção: como a IA pode mudar a forma de contratação do RH

Automação acelera triagem de vagas e exige governança de dados, mas decisão final continua nas mãos dos gestores humanos

28/09/2026 02:00
Curly_photo/gettyimages
Imagem colorida de um robô em um ambiente de trabalho- Metrópoles

A rotina de enviar um currículo e aguardar a ligação de um recrutador passou por uma transformação profunda nos últimos anos. Cada vez mais, a primeira etapa de um processo seletivo acontece diante de uma tela, intermediada por algoritmos capazes de transcrever áudios, organizar candidaturas e ranquear perfis de forma automatizada.

A mudança acelera o ritmo das contratações, mas traz à tona um debate central sobre eficiência, limites regulatórios e a preservação do fator humano na busca por empregos.

No cenário brasileiro, a aplicação prática da tecnologia tem se concentrado na automação de etapas operacionais. Segundo Fábio Salomon, headhunter, mentor de carreiras e apresentador do podcast Café com Sal, o formato mais recorrente hoje não é uma conversa em tempo real entre o candidato e a máquina, mas sim a entrevista assíncrona.

“O candidato grava respostas em vídeo para perguntas pré-definidas, e a IA transcreve, organiza e pontua o material contra critérios definidos pelo RH”, explica Salomon.

O especialista pondera que chatbots de triagem assumiram checagens objetivas, como pretensão salarial e idioma, transferindo para a máquina a gestão do volume e a padronização das perguntas.

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Essa virada metodológica propõe a reestruturação do fluxo tradicional das contratações. De acordo com Dalvelyn Menezes Kalachi, sócia e head de Inteligência Operacional do escritório Ernesto Borges Advogados, a estratégia é desenhar o processo para que a Inteligência Artificial assuma integralmente as etapas que antes dependiam do recrutador.

“A IA faz uma primeira análise em escala e organiza as informações. O gestor recebe inteligência para tomar uma decisão mais qualificada. Deixamos de ter o recrutador como mediador entre candidato e área contratante”, afirma a advogada.

Nesse novo desenho, a decisão final não é delegada ao software, mas devolvida diretamente ao líder do setor que abriu a vaga. “Quem conhece profundamente a demanda é a própria área que está contratando. A IA é muito eficiente para processar informações e identificar padrões, mas contratar uma pessoa envolve contexto, cultura e julgamento“, defende Dalvelyn.

Consequentemente, o papel dos profissionais de Recursos Humanos migra da análise mecânica de documentos para o desenvolvimento de talentos, acompanhamento de desempenho e fortalecimento da cultura corporativa.

Apesar do ganho de velocidade, a contratação automatizada impõe desafios éticos e jurídicos. O risco de exclusão por filtros rígidos baseados em palavras-chave e a utilização de ferramentas de análise de expressão facial levantam ressalvas na comunidade científica e regulatória.

Salomon lembra que o mercado global já recuou em algumas abordagens extremas: a americana HireVue, uma das principais plataformas do setor, descontinuou a análise facial em 2021 após questionamentos de pesquisadores e órgãos reguladores.

“Inferir competência ou honestidade a partir de microexpressão nunca se sustentou bem em pesquisa”, pontua o headhunter. No Brasil, embora a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) resguarde o direito de solicitar a revisão de decisões tomadas unicamente por tratamento automatizado, a regulação específica caminha no Congresso Nacional com o Projeto de Lei 2338/2023, que enquadra o recrutamento automatizado como uma aplicação de alto risco.

Para os candidatos, a recomendação é focar na clareza e evitar respostas engessadas. “O que soa artificial em vídeo assíncrono é texto decorado. O candidato deve separar de cinco a sete histórias reais da carreira antes da entrevista, conectando situação, ação e resultados mensuráveis”, aconselha Salomon.

Em última análise, a tecnologia reformula a eficiência do mercado corporativo, mas não substitui a conexão interpessoal nas etapas decisivas. A Inteligência Artificial acelera o afunilamento inicial de candidatos, mas a escolha definitiva permanece ancorada na capacidade humana de avaliar alinhamento cultural, empatia e visão de futuro.