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Rodrigo França

Seu emprego está preparado para a inteligência artificial?

Quanto mais poderosa a ferramenta, maior precisa ser a capacidade crítica de quem a utiliza

08/09/2026 10:05
Busakorn Pongparnit/Getty Images
Seu emprego está preparado para a inteligência artificial?

Bill Gates passou boa parte da vida profissional acreditando que a tecnologia poderia ampliar as capacidades humanas. Cofundador da Microsoft e personagem central da revolução dos computadores pessoais, ele agora faz um alerta que merece atenção: não estamos preparados para a transformação provocada pela inteligência artificial.

Em um ensaio publicado no fim de agosto, Gates afirma que a IA poderá produzir benefícios extraordinários e, ao mesmo tempo, ampliar desigualdades numa escala ainda difícil de calcular. Sua preocupação passa pelo emprego, pela educação, pela concentração econômica e, sobretudo, pela velocidade da mudança. As instituições que temos não foram desenhadas para administrar uma tecnologia capaz de atravessar tantos setores ao mesmo tempo. Essa discussão interessa especialmente ao Brasil.

A inteligência artificial deixou de ser assunto restrito às empresas de tecnologia. Está no escritório de advocacia, na agência de publicidade, na redação, no consultório, na escola, no banco, no atendimento ao consumidor. Profissionais que passaram décadas aprendendo determinado ofício começam a descobrir que parte daquilo que faziam pode ser realizada em segundos. A pergunta mais urgente não é quantas profissões desaparecerão. Ninguém possui essa resposta com segurança. A Organização Internacional do Trabalho calcula que um em cada quatro trabalhadores no mundo está em alguma ocupação exposta à inteligência artificial generativa. O próprio estudo faz uma ressalva fundamental: a transformação dos empregos é, hoje, um resultado mais provável do que sua simples substituição.

A pergunta, então, precisa ser outra: quem está preparando os trabalhadores para as profissões enquanto elas se transformam? O Brasil possui iniciativas, investimentos e políticas para inteligência artificial. Seria injusto dizer que o país está parado. O problema está na diferença de velocidade entre aquilo que a tecnologia já provoca e a capacidade das nossas instituições de responder.

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Nas escolas, essa distância pode ser medida. A pesquisa TIC Educação revelou que 70% dos estudantes do Ensino Médio que usam internet já recorrem à inteligência artificial generativa em pesquisas escolares. Apenas 32% disseram ter recebido orientação da escola sobre como utilizar essas ferramentas. A tecnologia entrou na sala de aula antes de decidirmos pedagogicamente o que fazer com ela. Proibir resolve pouco. Liberar sem critério resolve menos ainda. Um estudante que entrega um trabalho produzido por uma ferramenta sem compreender o que está escrito não se tornou tecnologicamente avançado. Aprendeu a terceirizar uma tarefa. Isso vale para o profissional que copia uma resposta de IA sem condições de avaliar sua qualidade.

Existe uma diferença enorme entre usar inteligência artificial e saber trabalhar com inteligência artificial. Quanto mais poderosa a ferramenta, maior precisa ser a capacidade crítica de quem a utiliza. Para reconhecer uma informação falsa, é preciso conhecimento. Para perceber uma interpretação ruim, é necessário repertório. Para corrigir uma análise, contestar um resultado ou identificar um erro, alguém precisa saber mais do que apertar um botão. A inteligência artificial não torna o conhecimento dispensável. Torna mais perigoso não saber. E é aqui que a discussão brasileira precisa sair das empresas de tecnologia e chegar definitivamente à política pública. Não basta ensinar jovens a escrever bons comandos para uma plataforma. Precisamos discutir ensino técnico, universidade, educação básica e requalificação profissional.

Existe também o trabalhador de 45 ou 50 anos que não pretende voltar para uma graduação de quatro anos, mas ainda terá muitos anos de vida profissional. Quem está preparando essa pessoa para uma ocupação que pode mudar enquanto ela ainda a exerce?

Essa responsabilidade não pertence somente ao indivíduo. Empresas precisam decidir se formarão seus profissionais ou simplesmente substituirão funções quando isso reduzir custos. Sindicatos terão de compreender inteligência artificial como questão trabalhista. Partidos, governos e Congresso precisarão abandonar o conforto de tratar IA apenas como sinônimo de modernização.

Bill Gates alerta que esperar as pessoas perderem seus empregos para começar a agir será tarde demais. Sua preocupação é especialmente pertinente para um país como o Brasil, marcado por desigualdades educacionais e profissionais.

Tecnologia não distribui prosperidade por natureza. Ela cria possibilidades. Quem transforma essas possibilidades em oportunidade, proteção e desenvolvimento é uma sociedade capaz de fazer escolhas políticas. A inteligência artificial já chegou. A pergunta é se estamos preparando apenas as máquinas para o futuro ou também as pessoas que terão de viver nele.