Pororoca amazônica: fenômeno de ondas gigantes está ficando mais fraco

Redução das chuvas, assoreamento e mudanças no canal podem estar deixando a pororoca amazônica mais curta e menos intensa

atualizado

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(Divulgação/ Prefeitura de São Domingos do Capim)
Surfistas de água doce em cima
1 de 1 Surfistas de água doce em cima - Foto: (Divulgação/ Prefeitura de São Domingos do Capim)

A pororoca amazônica é uma onda de maré formada quando a água do Oceano Atlântico entra com força pelos rios e encontra a vazão de água doce que segue no sentido contrário. Famoso por fazer a água avançar contra a correnteza, o fenômeno depende de uma combinação delicada entre maré, chuva, profundidade, sedimentos e formato do canal. Nos últimos anos, a onda gigante, que pode chegar a quatro metros, tem ficado mais curta e menos intensa.

A explicação está na própria dinâmica do fenômeno. Para que a pororoca apareça com força, não basta só a maré avançar sobre o rio. É preciso que o canal tenha trechos rasos, capazes de concentrar a energia da água e transformar o avanço da maré em uma grande frente.

Quando há menos chuva, mudanças no fundo do rio, assoreamento, desmatamento ou alteração no transporte de sedimentos, essa engrenagem natural pode ser afetada e a onda perde altura, extensão e força.

A última onda considerada forte, longa e alta ocorreu em 2020, de acordo com relatos de moradores da comunidade de São Domingos do Capim, no Pará, onde é realizado o Festival da Pororoca.

O pesquisador em geociências, David Lopes, da unidade de Belém do Serviço Geológico do Brasil (SGB), foi um dos cientistas convidados pela prefeitura para estudar o fenômeno de perto durante o festival de 2026, quando coletou os relatos da comunidade. “O objetivo deste estudo foi levantar dados, ouvir moradores locais e entender as mudanças recentes na pororoca”, explicou o pesquisador.

“A pororoca é um fenômeno hidrológico em que as águas oceânicas entram no continente. Seria apenas o que se chama de curva de remanso se a topografia do fundo do rio não ficasse rasa. Essa mudança na profundidade é o que gera a onda da pororoca. Sem isso, seria apenas uma ‘marola’”, explica Lopes.
Surfistas na onda da pororoca amazônica
Surfistas de água doce na onda da pororoca amazônica

Desde 2020, com a redução das chuvas, o fenômeno estaria ocorrendo de forma mais curta e baixa. Segundo o pesquisador, os episódios mais marcantes costumam ocorrer nos meses de águas altas, em março e abril. Nesse período, a vazão dos rios aumenta e intensifica a disputa entre a água doce que desce e a maré que sobe.

A chuva tem papel decisivo nesse processo, porque eleva o nível dos rios e influencia o transporte de sedimentos. Quando o solo está desprotegido, sem floresta, a água da chuva arrasta mais material para dentro do rio. Já a maré atua na deposição desses sedimentos no leito, principalmente nos momentos em que a velocidade da água diminui.

Por isso, alterações ambientais podem interferir diretamente na pororoca. O desmatamento, o assoreamento, a redução das chuvas e as mudanças no desenho do canal afetam a chamada hidromorfologia, ou seja, a forma e o funcionamento do rio. O pesquisador explica que a pororoca é uma “briga” entre o nível do rio e a maré do oceano, mas essa disputa só vira onda quando há a parte rasa necessária para concentrar a energia.

“Se não tiver chuva, se assorear, se desmatar, não tem pororoca. E isso prejudica toda a economia local”, completa o pesquisador.

O papel da Lua

A Lua também ajuda a explicar por que a pororoca aparece com mais força em alguns períodos. Segundo a bióloga Joana Rosar Corbellini, coordenadora do curso de Biomedicina da Faculdade de Pinhais (FAPI), no Paraná, o fenômeno costuma ser mais intenso nas fases de lua cheia e lua nova.

“Durante essas fases ocorre o alinhamento entre o Sol, a Lua e a Terra, que intensifica as forças gravitacionais responsáveis pelas marés. Esse alinhamento, chamado de maré de sizígia, é caracterizado por marés mais altas e mais baixas do que o habitual. Nessas condições, o volume e a energia da água oceânica são maiores, favorecendo a formação de ondas de maior altura, velocidade e alcance”, explica.

Em vez de se espalhar lentamente, ela avança como uma frente concentrada. Por isso, a pororoca não tem uma data fixa no calendário: acompanha os ciclos da maré e costuma ser observada com mais força nos três dias seguintes à lua cheia, entre março e abril.

Por que a pororoca parece uma onda só?

A pororoca parece uma única onda porque a energia da maré se concentra em uma frente principal, que provoca uma mudança brusca no nível e na velocidade da água. Embora atrás dela possam surgir ondulações menores, espuma e turbulência, a grande crista que avança contra o rio domina a paisagem e carrega a maior parte da força do fenômeno.

Por isso, qualquer alteração nesse equilíbrio (chuva, vazão, sedimentos, profundidade ou formato do canal) também pode mudar a intensidade da onda.

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