Cientistas explicam por que planetas com 2 sóis são raros no universo
Estudo indica que os efeitos da relatividade geral pode tornar instáveis as órbitas desses mundos e expulsá-los dos sistemas binários
atualizado
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Planetas que orbitam dois sóis ao mesmo tempo parecem comuns na ficção científica, mas são raros no universo real. Apesar de milhares de exoplanetas já terem sido identificados, apenas uma pequena fração deles gira em torno de sistemas formados por duas estrelas.
Um estudo, publicado na revista The Astrophysical Journal Letters em dezembro de 2025, sugere que a explicação pode estar em efeitos previstos pela teoria da relatividade geral de Albert Einstein.
Entre mais de 6 mil exoplanetas conhecidos, apenas 14 foram confirmados orbitando duas estrelas. O número é muito menor do que os astrônomos esperavam encontrar. Considerando a quantidade de estrelas que existem em pares, os cientistas estimavam que centenas desses planetas deveriam ter sido detectados.
Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos, e da Universidade Americana de Beirute, no Líbano, investigaram essa questão e concluíram que a interação gravitacional entre as duas estrelas pode tornar as órbitas dos planetas instáveis, fazendo com que muitos sejam expulsos do sistema ou destruídos ao longo do tempo.
Gravidade torna as órbitas instáveis
Em sistemas binários, duas estrelas orbitam uma à outra. Um planeta que gira ao redor das duas ao mesmo tempo sofre a influência gravitacional combinada desses astros, o que faz com que sua órbita mude lentamente de orientação ao longo do tempo.
O fenômeno, chamado de precessão orbital, também acontece com as próprias estrelas do sistema. No caso delas, parte dessa mudança está relacionada à relatividade geral, teoria proposta por Albert Einstein que descreve como a gravidade influencia o movimento dos corpos no espaço.
Com o passar do tempo, as duas estrelas vão se aproximando lentamente por causa das forças gravitacionais entre elas. À medida que isso acontece, o modo como elas giram uma em torno da outra também muda.
“Duas coisas podem acontecer. O planeta pode se aproximar demais das estrelas e acabar sendo engolido por uma delas ou pode ser lançado para fora do sistema. Em ambos os casos, o planeta desaparece”, explica Mohammad Farhat, pesquisador da Universidade da Califórnia em Berkeley e primeiro autor do estudo, em comunicado.
Um vazio de planetas perto de estrelas binárias
As observações feitas por telescópios espaciais reforçam essa explicação. Missões como o Kepler e o TESS já descobriram milhares de exoplanetas ao detectar pequenas quedas no brilho das estrelas quando um planeta passa diante delas.
Esses telescópios também identificaram milhares de sistemas binários, em que duas estrelas orbitam uma à outra e às vezes passam na frente uma da outra quando vistas da Terra. Mesmo assim, apenas 14 planetas foram confirmados orbitando dois sóis.
Outro detalhe chamou a atenção dos pesquisadores. Nenhum desses planetas conhecidos gira em torno de estrelas binárias muito próximas, aquelas que completam uma volta em torno da outra em menos de sete dias.
“Existe uma escassez geral de planetas circumbinários e um verdadeiro vazio ao redor de sistemas binários muito próximos”, afirma Farhat.
Segundo os cientistas, esses sistemas também possuem regiões onde a gravidade combinada das duas estrelas torna as órbitas planetárias instáveis. Planetas que entram nessa área acabam sendo expulsos do sistema ou destruídos.
Quase todos os planetas circumbinários conhecidos orbitam logo além dessa região instável, o que sugere que muitos deles podem ter se formado mais longe das estrelas e, com o tempo, migrado para posições um pouco mais próximas.
Os cálculos feitos pelos pesquisadores indicam que cerca de oito em cada dez planetas em sistemas binários próximos podem acabar perdendo a estabilidade de suas órbitas ao longo do tempo.
Para os autores, esse mecanismo ajuda a explicar por que mundos semelhantes ao planeta fictício Tatooine, de Star Wars, são tão difíceis de encontrar.
“A relatividade geral pode estabilizar alguns sistemas, mas também pode desestabilizar outros. Em certos casos, ela acaba contribuindo para eliminar planetas desses sistemas”, afirma o físico Jihad Touma, coautor do estudo.
