Os pernilongos têm um alimento preferido e não é seu sangue. Entenda
O alimento preferido dos pernilongos é responsável pelo aporte energético para voar e manter o funcionamento do organismo
atualizado
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Na visão dos humanos sobre a natureza, existem muitos rótulos. Porém, na maioria das vezes, “achismos” altamente difundidos não são verdadeiros. Os pernilongos são um bom exemplo: ao contrário do que muitos acreditam, o alimento preferido deles não é sangue, e sim o néctar das flores e a seiva das plantas.
Normalmente, os componentes são mais ligados às abelhas, porém os pernilongos (ou muriçocas, a depender da região) também têm as opções como os “pratos” preferidos da dieta. Segundo especialistas entrevistados pelo Metrópoles, são das flores e plantas que eles tiram os carboidratos fundamentais para sua sobrevivência.
“O suporte metabólico vital desses insetos provém da ingestão de carboidratos, especificamente o néctar floral e a seiva elaborada. Diferente da seiva bruta, que é composta majoritariamente por água e minerais, a seiva elaborada é rica em sacarose e outros açúcares complexos”, aponta o biólogo especialista em insetos Reinaldo de Oliveira Elias.
De acordo com Elias, é através do aporte energético vindo dos carboidratos que tanto machos quanto fêmeas conseguem o “combustível” para voar e manter o funcionamento do organismo.
Mas, quando as muriçocas se alimentam de sangue? A resposta é simples: apenas quando as fêmeas estão em momentos específicos do ciclo reprodutivo.
“No caso das fêmeas, além desse consumo de carboidratos, há uma necessidade específica durante o período reprodutivo. Quando vão produzir ovos, elas precisam se alimentar de sangue, pois é nele que encontram os aminoácidos essenciais para a formação dos ovos”, explica o biólogo Filipe Abreu, professor do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG) e apoiado pelo Instituto Serrapilheira.
É através do nosso sangue que as fêmeas acham a isoleucina e ferro, nutrientes importantes para a gema dos ovos se formar. “Sem esse ‘suplemento’ proteico, a fêmea não consegue maturar seus folículos ovarianos, inviabilizando a reprodução”, diz Elias.
De onde surgiu a ideia de que pernilongos se alimentam só de sangue
Para ambos especialistas, a ideia surgiu do imaginário popular. Como nós só vemos as muriçocas quando nos picam ou estão procurando sangue, logo associamos que o alimento preferido delas deve ser o líquido que corre nas nossas veias.
É muito difícil enxergar quando os mosquitos estão se aproximando das flores para se alimentar, pois eles têm um tamanho bem menor em relação ao ambiente. “Assim, cria-se a impressão de que o único alimento deles é o sangue, o que não é verdade”, afirma Abreu.
Um caso raro: um mosquito que não suga sangue de jeito nenhum
Ao contrário da maioria, existe um tipo de pernilongo que não suga sangue nem se for uma fêmea “grávida”: os mosquitos-elefante (Toxorhynchites). Considerados totalmente inofensivos aos seres humanos, eles se alimentam exclusivamente dos carboidratos provenientes do néctar e da seiva.

Além disso, as larvas da espécie cumprem um papel fundamental para nós: elas são capazes de predar larvas de outros mosquitos, incluindo as do Aedes aegypti, o principal transmissor dos vírus da dengue, zika e chikungunya.
“Do ponto de vista do equilíbrio ecossistêmico, o Toxorhynchites atua como um agente natural de controle populacional de espécies hematófagas (que se alimentam de sangue). Isso nos mostra que nem todo pernilongo é um vilão. Muitos são peças-chave na manutenção da biodiversidade e na polinização de espécies vegetais”, ressalta Elias.
Aliados ou vilões: qual é o papel das muriçocas no ambiente?
Insistentes, causadores de coceira e capazes de fazer um barulho incômodo no ouvido. Apesar de ter tantos atributos nada animadores, os pernilongos têm um papel importante no ambiente:
- Servem de alimentos para outros animais, como sapos, aranhas e outros artrópodes predadores;
- Auxiliam no processo de polinização ao coletarem seiva e néctar;
- Ajudam no controle populacional ao transmitirem patógenos para organismos distintos.
Por outro lado, é preciso tomar cuidado com a última função, já que algumas espécies de pernilongos são capazes de transmitir doenças a humanos, como certos tipos de febre e encefalite de Saint Louis, uma condição viral capaz de evoluir para inflamação cerebral grave, se não tratada.
Para se proteger, é importante utilizar barreiras físicas, como mosquiteiros e telas, repelentes e fechar as janelas antes do entardecer, o horário em que os mosquitos estão mais ativos.
