Oceanógrafos explicam por que é tão complicado navegar pela África

As dificuldades de navegar pelo oceano da África estão associadas a fatores climáticos, de estrutura e segurança. Veja quais são

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A navegação por águas africanas não é nenhuma novidade. Em 1488, o navegador português Bartolomeu Dias foi o primeiro a passar pelo Cabo da Boa Esperança (antigo Cabo das Tormentas), localizado no sul africano. Em 1497, foi a vez de Vasco da Gama atravessar as águas turbulentas e estabelecer uma nova rota marítima comercial para as Índias a partir dali.

No entanto, alcançar tais feitos exigiu um estudo profundo dos portugueses sobre o litoral africano, visto que travessias anteriores foram mal sucedidas, marcadas por naufrágios causados por violentas tempestades e escassez de suprimentos.

Mesmo que a tecnologia e conhecimento marítimo tenham avançado bastante, as rotas pelas águas africanas continuam sendo temidas pelos navegadores atuais devido a fatores climáticos, de estrutura e de segurança.

Especialistas entrevistados pelo Metrópoles listaram as principais dificuldades da navegação pela África. Veja abaixo:

Condições marítimas perigosas

Nas águas ao sul da África do Sul, há o encontro de correntes frias e quentes. Ao se encontrarem, elas criam instabilidades no clima, resultando em condições meteorológicas extremas, como um mar mais revolto.

“Quanto mais se avança ao Sul, piores se tornam as condições do mar”, explica o oceanógrafo físico João Luiz Baptista de Carvalho, membro da Associação Brasileira de Oceanografia (Aoceano).

Ocorrência de climas extremos

Sem muitos locais para controlar os fortes ventos oceânicos, as ventanias criam tempestades extremamente fortes e ondas muito grandes.

“No sul da África há relatos frequentes da ocorrência da “onda fantasma” (freak wave, na tradução em inglês). São ondas gigantes, que ocorrem de forma repentina e imprevisível, podendo atingir mais de 30 metros de altura no oceano aberto. Estas já causaram diversos acidentes com danos à estrutura de embarcações e até naufrágios”, conta Carvalho, que também é chefe do laboratório de oceanografia física da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Longa extensão e poucos pontos de apoio

O professor Edmo Campos, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP) explica que por ser um local de longa extensão, qualquer viagem que passe por lá leva bastante tempo, sendo necessário ter bastante suprimentos para sobrevivência.

“Diferente das costas europeias, a África apresentava poucos portos naturais e extensas barreiras de arrebentação, dificultando o reabastecimento de água e mantimentos”, diz o especialista, que também é membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Além disso, há insegurança da região também. Algumas áreas em específico sofrem com ataques piratas e zonas de conflito, o que atrapalha o transporte da carga e também torna a travessia mais perigosa e insegura.

Influência das mudanças climáticas na navegação pela África

Como os fatos apresentados dizem por si só, navegar pela África nunca foi uma missão fácil e com o avanço das mudanças climáticas, as condições parecem estar mais próximas de piorar do que melhorar. O aumento na ocorrência de eventos climáticos extremos pode intensificar ainda mais a velocidade dos ventos, a altura das ondas, além de criar mais correntes marinhas e de neblinas. 

Imagem colorida de um navio de carga - Metrópoles
Apesar das dificuldades, navegar pela África é importante para o comércio marítimo global

Por outro lado, Campos diz que as alterações no clima podem ser um facilitador para navegar por outras rotas marítimas.

“As mudanças climáticas podem alterar esse quadro marítimo, para melhor ou pior. Por exemplo, na região do Cabo, ao sul da África, as condições podem se tornar muito mais complicadas. Por outro lado, a redução da cobertura de gelo no Oceano Ártico pode abrir novas rotas, encurtando as distâncias e reduzindo o risco à navegação”, diz o especialista, que também faz parte do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo).

Com a abertura de novos caminhos e a dificuldade em outros, o comércio marítimo internacional atual deve passar por uma reorganização, que dependerá especialmente de como o cenário geopolítico se desenhará.

Tecnologias ajudam a navegação pela localização

Mesmo diante de tantas dificuldades, a navegação pelas águas africanas é importante para o comércio mundial. Navios muito grandes não conseguem passar pelos canais de Suez, no Egito, ou do Panamá, que são bastante estreitos, mas cruciais para o mercado internacional.

Assim, o jeito é ir pela África. Para a missão, as embarcações e seus condutores contam com tecnologias para prever as condições meteorológicas e oceanográficas da região, o que torna a navegação um pouco menos complicada. Os modelos de previsão unem dados de satélite e monitoramento ambiental, climático e oceânico.

“Hoje em dia, as dificuldades inerentes ao ambiente continuam as mesmas. Porém, as embarcações e o conhecimento evoluíram significativamente. Se antes a região era vista como quase que intransponível, hoje os navegadores a veem apenas com cautela. Há que se constatar que esta é uma rota ainda muito importante para o comércio mundial”, conclui Carvalho.

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