Cães aprendem padrão de comportamento para manipular os tutores
Apesar de ser um comportamento associado à "manipulação", a carinha que nos fazer sentir dó dos cães tem uma explicação científica

No mundo animal, os pets são mestres em conseguir o que querem através de expressões faciais e outros artifícios. Apesar de parecer um tipo de “manipulação”, especialistas ouvidos pelo Metrópoles apontam que o comportamento tem ligação com a aprendizagem associativa e com a cognição social dos cães.
Basicamente, os cachorros são mestres em observar padrões de comportamento, especialmente os de seus tutores. Dizer que eles nos “manipulam” é uma forma de descrever a ação de maneira humanizada quando, na verdade, há uma explicação científica por trás.
“Se o cão chora ou senta perto da mesa e o tutor lhe dá um pedaço de comida, o cérebro do animal registra: ‘Comportamento X gera a recompensa Y’. Ele não está elaborando um plano para enganar o humano, mas sim simplesmente aprendendo quais comportamentos produzem resultados favoráveis. É uma estratégia extremamente eficiente de adaptação e convivência”, explica o veterinário Igor Zimovski, do Centro Universitário do Planalto Central Professor Apparecido dos Santos (Uniceplac), em Brasília.
Segundo Zimovski, vários estudos comprovam a capacidade dos cães de ligar as expressões faciais e variações de tom de voz a consequências positivas ou negativas.
Por exemplo, um rosto bravo indica uma interrupção da interação ou uma bronca, enquanto um sorriso ou tom de voz amigável costumam vir acompanhados de atenção, carinho ou recompensa – e os cachorros aprendem esses sinais.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesUm trabalho liderado por pesquisadores da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, identificou que grande parte dos cães domésticos tem o músculo da parte interna das sobrancelhas mais desenvolvido do que nos lobos, o que produz a “cara de tadinho” que muitas vezes nos manipula. Os resultados foram publicados na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.
“A famosa carinha provavelmente é repetida porque desperta empatia e resulta em atenção ou recompensa, mais do que por uma intenção consciente de enganar”, afirma a médica veterinária Kássia Vieira, professora de comportamento e bem-estar animal da Universidade Católica de Brasília (UCB).
Na pesquisa, também se descobriu uma tendência maior a fazer a expressão quando há algum humano os observando. “As evidências sugerem que eles aprendem a relação entre fazer a expressão e as chances de receber atenção ou interação sem que isso implique em uma intenção consciente de manipular”, completa Zimovski.
Anos de domesticação ajudam a explicar o comportamento dos cães
Por muitos anos, os cães foram domesticados para viver em convivência com humanos sem representar perigo. Um estudo recente apontou que os animais estão ao nosso lado há pelo menos 15,8 mil anos. Nesse longo período, os cachorros aprenderam a conviver conosco, interpretando gestos, expressões e as intenções da nossa espécie com grande eficiência.
“Ao longo de milhares de anos, os humanos, consciente ou inconscientemente, selecionaram indivíduos mais tolerantes às pessoas, mais sociáveis e mais atentos aos nossos sinais. Os cães são uma das espécies mais adaptadas à convivência conosco”, diz Zimovski.
Maus comportamentos podem ter relação com a atenção humana em momentos indevidos
Justamente por sermos espelhos para os pets, é preciso ter cuidado com qual recado estamos passando. Em alguns casos, comportamentos indesejados, como latidos em excesso, choro ou pular em você ou nas visitas, são motivados pela atenção excessiva dada pelo tutor em momentos como esses.
De acordo com os especialistas, para evitá-los, é essencial educar o animal dando limites claros e consistentes. “Muitos comportamentos interpretados como ‘manipulação’ são, na verdade, estratégias de comunicação aprendidas durante a convivência com os humanos. Por isso a importância de uma educação baseada em reforço positivo e respostas consistentes dos tutores”, ensina Kássia.



