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Apuração pelo Brasil

Ciência

Aquecimento acelerado e secas severas levam Amazônia ao limite do colapso

Temperaturas no bioma sobem acima da média global e cientistas alertam para o risco iminente de savanização de até 70% da floresta

26/10/2026 02:00
Igo Estrela/Metrópoles
imagem colorida de Rio Jamari na floresta nacional do Jamari, na Amazônia

A Amazônia já enfrenta um aquecimento de 2 °C a 3 °C, nível superior à média global, aproximando a floresta tropical do seu limite crítico de sobrevivência e ameaçando o equilíbrio do clima em todo o continente. O aumento contínuo da temperatura, somado ao desmatamento e a secas extremas, acelera a degradação do bioma e reduz a capacidade das árvores de transportar umidade para a atmosfera.

Caso esse cenário se consolide, mais de 70% da vegetação pode sofrer um processo irreversível de savanização nas próximas décadas, transformando a região em uma savana degradada e impactando diretamente o regime de chuvas na América do Sul e em outras partes do planeta.

O avanço da devastação florestal coloca o bioma perto do chamado “ponto de não retorno”, momento em que a floresta perde a capacidade de se regenerar sozinha e passa a se autodegradar. Na porção sul da Amazônia, a estação seca já dura entre quatro e cinco semanas a mais do que há quatro décadas, com queda de até 30% nas chuvas do período.

Segundo o climatologista Carlos Nobre, copresidente do Painel Científico para a Amazônia (SPA) e membro da Academia Brasileira de Ciências, atingir esse limite traria consequências em escala global.

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“Se nós degradarmos cada vez mais, com a transformação para essa savanização, nós vamos jogar mais de 200 bilhões de toneladas de gás carbônico, o principal gás do aquecimento global”, alerta.

O climatologista explica que a perda da vegetação afeta o transporte de umidade para o centro-sul do Brasil e até para outros continentes: “Estudos mostram que até a redução da chuva na Amazônia gera uma onda atmosférica que chega lá no oeste dos Estados Unidos, na Califórnia, tornando partes do estado ainda mais secas”.

Reação da vegetação ao calor e à seca

O impacto do calor excessivo e do estresse hídrico afeta diretamente a biologia das plantas. Enquanto árvores de raízes profundas conseguem buscar água no lençol freático durante a estiagem, a maioria das espécies da floresta possui raízes superficiais e não resiste à falta prolongada de umidade no solo.

Quando há escassez de água, bolhas de ar se formam nos vasos condutores do tronco, interrompendo a circulação de água e levando a árvore à morte por sede.

Fernando Elias, pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi e apoiado pelo Instituto Serrapilheira, explica como a mortalidade das plantas altera o papel ecológico da Amazônia no planeta.

“Quem absorve carbono da atmosfera são as árvores. Se elas morrem, esse serviço ecossistêmico é perdido. Essas florestas que antes funcionavam como um sumidouro de carbono, agora, com as árvores mortas e em decomposição, passam a ser fonte de carbono”, pontua o pesquisador.

Aumento dos incêndios e perda da biodiversidade

A mortalidade de árvores abre clareiras e acúmulo de matéria seca no solo, tornando a floresta úmida vulnerável a queimadas incontroláveis. Elias ressalta que o fogo se tornou o principal vetor de degradação da Amazônia, superando inclusive as áreas desmatadas.

“Geralmente, as espécies evoluem para suportar um limite de temperatura, e se esse limite é superado, a mortalidade e extinção local são os principais efeitos observados”, afirma Elias, citando como exemplo a morte em massa de botos em lagos aquecidos do Amazonas em 2023.

André Zumak/Instituto Mamirauá
Morte em massa de botos em lagos aquecidos do Amazonas em 2023

Para conter o colapso, especialistas apontam que é urgente zerar o desmatamento, combater o fogo e promover a restauração florestal em larga escala.

“Nós corremos o risco de, se o desmatamento não for totalmente zerado e não houver grande restauração florestal, atingir o ponto de não retorno lá por 2040”, alerta Nobre.

Ações coordenadas de conservação e transição energética são apontadas como o único caminho para garantir a resiliência do bioma.