Biodiversidade coloca a Amazônia no centro da nova economia

O talk Vozes da Amazônia destacou o potencial da bioeconomia e a necessidade de monetizar serviços ambientais da floresta

KEBEC NOGUEIRA/METRÓPOLES @kebecfotografo
Vozes da Amazônia Mtalk
1 de 1 Vozes da Amazônia Mtalk - Foto: KEBEC NOGUEIRA/METRÓPOLES @kebecfotografo

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A Amazônia reúne alguns dos ativos naturais mais estratégicos do planeta. A região abriga a maior floresta tropical do mundo, concentra cerca de 81% da disponibilidade de águas superficiais do Brasil e reúne aproximadamente 20% das espécies conhecidas da Terra — mais de 130 mil já catalogadas, segundo dados da Agência Nacional de Águas (ANA).

Essa combinação de biodiversidade, recursos hídricos e equilíbrio climático coloca a região no centro de um novo debate global: como transformar os serviços ambientais da floresta em valor econômico dentro da chamada bioeconomia — isto é, gerar renda a partir da diversidade de espécies, mantendo a floresta em pé.

Esse foi um dos temas discutidos no talk “Vozes da Amazônia — Desafios e oportunidades para o Amazonas”, promovido em Brasília pelo Metrópoles em parceria com o Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM)

O encontro reuniu especialistas para discutir caminhos para o desenvolvimento sustentável da região, incluindo o papel da Zona Franca de Manaus como base econômica para novos setores ligados à inovação e à bioeconomia.

Serviços ambientais e valor econômico

Durante o debate, o senador Eduardo Braga (MDB-AM) destacou que a floresta amazônica exerce funções ambientais que influenciam diretamente o equilíbrio climático e o regime de chuvas em diferentes regiões do planeta.

“A floresta sequestra carbono, presta serviços de controle ao clima e mantém o ritmo hidrológico não apenas no Brasil, mas também em outras regiões do mundo”, afirmou. 

O senador citou como exemplo os chamados rios voadores, que são correntes de umidade formadas na floresta amazônica que influenciam o regime de chuvas em diferentes regiões da América do Sul.

De acordo com ele, atividades econômicas em diferentes partes do continente dependem desse equilíbrio ambiental. 

“A Argentina produz vinhos maravilhosos graças ao ritmo hidrológico da floresta amazônica. Se tem soja no Centro-Oeste, é em função do ritmo hidrológico que a floresta amazônica produz”, exemplificou.

A biodiversidade amazônica pode se tornar um dos principais motores da economia do século XXI.

Senador Eduardo Braga

Bioeconomia e novas cadeias produtivas

Nesse contexto, a biodiversidade amazônica começa a ser vista como base para novas cadeias produtivas ligadas à bioeconomia — modelo de produção industrial baseado no uso de recursos biológicos.

De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), esse setor movimenta cerca de 2 trilhões de euros no mercado mundial e gera aproximadamente 22 milhões de empregos.

Suas atividades estão no centro de diversos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas, incluindo metas ligadas à segurança alimentar, saúde e acesso à energia.

Sob esse prisma, Braga citou exemplos de setores que podem se desenvolver a partir do uso sustentável da biodiversidade amazônica.

“Podemos desenvolver fármacos e perfumaria com princípios ativos da floresta. Criamos na reforma tributária um fundo de transição para sustentabilidade econômica”, afirmou.

Como se tratam de setores baseados em vantagens comparativas naturais, essas atividades têm potencial para se tornar competitivas tanto no mercado doméstico quanto no internacional.

O professor Márcio Holland, da Fundação Getulio Vargas (FGV), ainda cita que a Amazônia possui um diferencial relevante em comparação com outras regiões do país: a preservação de grande parte de sua cobertura florestal.

Segundo ele, o fato de o estado do Amazonas manter cerca de 97% de sua floresta preservada, com índices de desmatamento próximos de 3%, “é extraordinário” e contrasta com a experiência histórica de grande parte das regiões do país onde o desenvolvimento econômico ocorreu acompanhado de forte devastação ambiental.

“Precisamos monetizar os serviços ambientais e transformar a biodiversidade em desenvolvimento sustentável”, pontuou Braga. 
Vozes da Amazônia Mtalk
O talk “Vozes da Amazônia — Desafios e oportunidades para o Amazonas” foi promovido pelo Metrópoles

A floresta em pé como ativo econômico

Apesar do seu papel estratégico, muitos dos serviços ambientais da Amazônia ainda não são devidamente reconhecidos ou remunerados pela economia global. Transformar a preservação da floresta em um ativo econômico capaz de gerar desenvolvimento regional é, portanto, um dos principais desafios da região nas próximas décadas.

O desenvolvimento de atividades ligadas à bioeconomia exige investimentos em infraestrutura logística, transporte fluvial e estrutura portuária capazes de integrar o interior da Amazônia às cadeias produtivas nacionais e internacionais.

Em muitas áreas do interior do estado, a ausência de estruturas adequadas ainda dificulta a competitividade de atividades produtivas sustentáveis.

Nesse contexto, os participantes do debate destacaram que a própria dinâmica econômica gerada pelo Polo Industrial de Manaus pode ajudar a impulsionar novos investimentos.

A ideia, segundo os especialistas, é que o modelo industrial existente funcione como um motor capaz de financiar novas iniciativas econômicas baseadas no uso sustentável da biodiversidade.

“A vocação do Amazonas é a indústria. Por isso precisamos compreender que a indústria da Zona Franca de Manaus seguirá relevante quanto mais for percebida nacionalmente como estratégica para o Brasil”, declarou Luiz Augusto Rocha, presidente do Conselho Superior do CIEAM.

Reconhecimento e segurança para o modelo amazônico

A consolidação de novas atividades econômicas ligadas à bioeconomia também depende de um ambiente institucional capaz de garantir previsibilidade para investimentos de longo prazo. 

Nesse contexto, a reforma tributária aprovada pelo Congresso Nacional foi apontada pelos participantes do debate como um marco relevante para o futuro da Zona Franca de Manaus.

Para Luiz Augusto Rocha, um dos pontos centrais da mudança foi a manutenção da proteção constitucional do modelo.

“Foi um reconhecimento muito importante para os investimentos na nossa região e, principalmente, para garantir segurança jurídica”, afirmou. Segundo ele, a previsibilidade é essencial para atrair capital nacional e internacional para a região.

“Nós sabemos que o capital exige segurança jurídica. O Polo Industrial de Manaus sempre teve essa característica e, ao longo do tempo, conseguimos manter as nossas vantagens comparativas.” 

Luiz Augusto Rocha

O senador Eduardo Braga destacou que a reforma também consolidou juridicamente os incentivos da Zona Franca no próprio texto permanente da Constituição, que até então estavam apenas no Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. 

O parlamentar endossa que a mudança fortalece o ambiente de investimento e garante maior estabilidade ao modelo industrial da região.

“Hoje o modelo da Zona Franca de Manaus é o modelo mais seguro do ponto de vista do investimento.”

Senador Eduardo Braga

Ainda de acordo com Rocha, o próximo passo será acompanhar a regulamentação da reforma tributária para assegurar que as particularidades logísticas e produtivas da Amazônia continuem sendo consideradas no novo sistema.

Holland, contudo, ressaltou que a própria transformação da economia traz novos desafios para o modelo tributário. Segundo ele, a crescente integração entre indústria, tecnologia e serviços tem tornado mais complexa a definição do que pode ser considerado um produto industrial.

“O grande problema é definir o que é um produto industrializado”, afirmou. “Hoje um produto industrial vem embarcado com tecnologia, software e serviços sofisticados”.

Nesse sentido, Holland propõe que uma das discussões futuras será como enquadrar essas novas configurações produtivas dentro do sistema tributário.

Vozes da Amazônia MlabsUm novo ciclo de desenvolvimento para a Amazônia

Para os participantes do talk, a combinação entre indústria, ciência e bioeconomia pode abrir um novo ciclo de desenvolvimento para a região

Se bem estruturado, esse modelo pode permitir que a Amazônia transforme sua biodiversidade em riqueza, enquanto mantém a floresta em pé, e se torne, como diria o senador Eduardo Braga, “um dos principais motores da economia do século XXI”.

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