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Parafraseando o poeta e jornalista amazonense Thiago de Mello, a mata “compacta e atordoante” ainda permanece, em muitos sentidos, “intocada e desconhecida”. Apesar de explorada e estudada há mais de quatro séculos, a Amazônia continua revelando camadas de realidade que desafiam simplificações e expandem sua funcionalidade para além da preservação ambiental.
Foi sob esse olhar que o talk “Vozes da Amazônia — Desafios e oportunidades para o Amazonas”, promovido pelo Metrópoles em parceria com o Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM), colocou no centro do debate uma questão recorrente quando se fala no futuro da região: como promover desenvolvimento econômico em um território que abriga a maior floresta tropical do planeta?
Ao reunir especialistas, lideranças industriais e representantes do poder público, o encontro apontou para um modelo que, segundo os participantes, já oferece respostas concretas a esse desafio: a Zona Franca de Manaus (ZFM).
Polo industrial que impulsiona a economia amazônica
Criado em 1967 para integrar economicamente a Amazônia ao restante do país, o Polo Industrial de Manaus tornou-se um dos principais motores econômicos da região. Em 2025, o polo registrou faturamento em torno de R$ 230 bilhões, com crescimento superior a 8% em dólar.
Para os participantes do debate, o fato de que essa atividade econômica ocorre ao mesmo tempo em que o estado do Amazonas mantém cerca de 97% de sua cobertura florestal preservada ajuda a explicar porque a experiência amazonense costuma aparecer como referência no debate sobre desenvolvimento sustentável.
“A vocação da Amazônia e do Amazonas é a indústria. Estamos falando de um polo que faturou mais de R$ 230 bilhões, com arrecadação superior a 5 bilhões de reais para os cofres do estado”, afirmou o presidente do Conselho Superior do CIEAM, Luiz Augusto Rocha.

Segundo ele, além da contribuição para a indústria e a arrecadação nacional, o modelo sustenta uma extensa cadeia de empregos e serviços na região: “São pessoas vivendo dignamente, desenvolvendo suas famílias e comunidades.”
O senador Eduardo Braga reforça essa ideia, e destaca mais dados.
“Lá estão mais de 600 empresas, mais de 132 mil empregos diretos, mais de 700 mil empregos entre diretos e indiretos só no Polo Industrial de Manaus, e mais de 1 milhão de empregos de carteira assinada graças à Zona Franca de Manaus.”
Senador Eduardo Braga

Indústria como aliada da preservação
O economista Márcio Holland, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e coordenador dos Diálogos Amazônicos, destacou que o caso do Amazonas representa uma experiência pouco comum no mundo:
Uma economia industrial relevante convivendo com uma das maiores áreas preservadas do planeta.
“Se você deseja proteger uma floresta com 97% de preservação, precisa promover um desenvolvimento econômico que mantenha essa floresta em pé”
Márcio Holland
Segundo ele, a atividade industrial urbana ajuda a reduzir pressões por desmatamento ao criar alternativas econômicas que não dependem da exploração direta da floresta.
“Esse desenvolvimento não pode ser baseado apenas em extrativismo. Ele precisa estar associado à indústria, à agroindústria ou ao beneficiamento dos produtos da floresta. É isso que chamamos de bioeconomia”, explicou.

Já para o senador Eduargo Braga, o desenvolvimento do interior depende de outras políticas públicas.
“O que nós precisamos fazer é fomentar imediatamente o zoneamento agroeconômico e ecológico do estado. São Gabriel da Cachoeira, por exemplo, tem um potencial turístico gigantesco”, afirmou.
Ele também cita potenciais minerais da região e afirma que o ambiente é favorável ao investimento
“A região possui riquezas minerais importantes, como nióbio, ouro de aluvião e outros recursos. Nós vivemos numa terra desafiadora, mas muito agradável. Quem tiver vontade de investir, investe, porque lá tem um povo hospitaleiro que recebe de forma maravilhosa todos aqueles que vêm para investir”, declarou.
Um modelo estratégico para o Brasil
Ao final do encontro, uma ideia apareceu repetidamente entre os participantes: a Zona Franca de Manaus não deve ser vista apenas como um instrumento regional, mas como uma política estratégica para o país.
Segundo Luiz Augusto Rocha, muitas análises equivocam-se ao imaginar que as indústrias instaladas na região simplesmente migrariam para outras partes do país caso os incentivos deixassem de existir.
“A indústria que está em Manaus compete com plantas no México, no Vietnã ou em Taiwan. Não é uma competição entre estados brasileiros, é uma competição global”, rebateu.
Nesse contexto, a produção local também contribui para reduzir importações e manter preços competitivos para os consumidores brasileiros.

Para os participantes do encontro, portanto, o debate sobre a Zona Franca ultrapassa as fronteiras da Amazônia. Trata-se de definir que tipo de modelo de desenvolvimento o Brasil pretende adotar para uma das regiões mais estratégicas do planeta.

