Ventania, chuva e destruição: o que está acontecendo com o clima no Brasil?
Meteorologista explica como a combinação de frentes frias e umidade favorece tempestades severas; região Sul registrou tornados e vendavais

A passagem de uma sequência de eventos climáticos extremos pelo Brasil deixou um rastro de destruição em diferentes cidades, principalmente na Região Sul. Tornados, ventos acima de 100 km/h, chuva intensa, granizo e alagamentos atingiram municípios do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul nos primeiros dias de novembro.
Os episódios provocaram mortes, deixaram feridos, danificaram milhares de imóveis e afetaram serviços públicos.
Os episódios recentes, no entanto, não são únicos. A combinação do El Niño com as mudanças climáticas tem intensificado os transtornos no Brasil nos últimos anos. A ocorrência de tornados e tempestades no Sul e de secas fortes no Norte em determinadas épocas do ano têm se tornado cada vez mais comuns.
Estragos na região Sul
- Santa Catarina: tornados atingiram Chapecó e Xanxerê na quarta-feira (4/11). Em Chapecó, ventos chegaram a 126 km/h, danificaram o aeroporto, derrubaram árvores e destelharam imóveis. As operações do terminal foram suspensas.
- Rio Grande do Sul: temporais com granizo e vendavais atingiram dezenas de municípios, deixando milhares de casas danificadas e dezenas de pessoas feridas. Espumoso e Nova Prata estão entre as cidades afetadas.
- Paraná: um tornado de categoria F2 atingiu Maringá entre domingo (1º/11) e segunda-feira (2/11). O fenômeno provocou centenas de quedas de árvores e deixou milhares de imóveis sem energia elétrica.
Especificamente sobre as situações mais recentes, o meteorologista do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Marcelo Enrique Seluchi, afirmou ao Metrópoles que os episódios fazem parte de um cenário de instabilidade que atingiu diferentes pontos do Centro-Sul do país.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesSegundo o especialista, a região da Bacia do Prata, que abrange áreas do Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai, está entre as regiões do mundo com maior frequência de tempestades violentas. A ocorrência desses fenômenos está relacionada a uma combinação de características geográficas e condições atmosféricas.
Um dos fatores é a Cordilheira dos Andes, que influencia o deslocamento das frentes frias e o transporte de umidade da Amazônia em direção ao Sul do continente. Essa combinação favorece a formação de tempestades severas.
“Você tem a Cordilheira canalizando dois fatores que derivam nessas tempestades: a umidade que vem do norte e a frente fria que vem do sul. Então, essa é a combinação perfeita”, explica Seluchi.

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Ver todasPor que as tempestades são tão frequentes?
A Cordilheira dos Andes influencia o transporte de umidade da Amazônia em direção ao Sul do continente e o avanço das frentes frias. A umidade é conduzida pelo chamado jato de baixos níveis, conhecido como “rios voadores”, que funciona como um corredor de vapor d’água.
Quando o ar quente e úmido encontra uma frente fria, aumentam as condições para a formação de tempestades com chuva intensa, granizo, raios e vendavais.
Segundo Seluchi, a combinação ocorre com maior frequência na primavera e no outono. Na primavera, as temperaturas mais baixas nas camadas superiores da atmosfera também favorecem a formação de granizo.
“No inverno, você tem mais frentes frias, mas menos umidade chegando da Amazônia. No verão, você tem mais umidade e calor, mas poucas frentes frias. Então, primavera e outono são épocas específicas”, afirma.
El Niño e mudanças climáticas
Seluchi explica que o El Niño pode contribuir para intensificar as chuvas na Região Sul. Embora o fenômeno ocorra no Oceano Pacífico, seus efeitos alteram a circulação atmosférica e influenciam o comportamento das frentes frias na América do Sul.
Em períodos de El Niño, os jatos de altos níveis, correntes de vento que influenciam o deslocamento dos sistemas meteorológicos, podem ficar mais intensos e permanecer por mais tempo sobre a Região Sul e a Bacia do Prata.
Com isso, as frentes frias passam a ocorrer com maior frequência na região, aumentando o volume de chuva e a umidade acumulada no solo e no ar.
“Você entra num círculo vicioso, onde chove porque tem umidade e tem umidade porque chove”, explica o meteorologista.
As mudanças climáticas também têm participação nesse cenário. Segundo Seluchi, o aumento da temperatura permite que a atmosfera armazene uma quantidade maior de vapor d’água. Consequentemente, os sistemas meteorológicos responsáveis pelas chuvas passam a ter maior potencial para provocar precipitações intensas.
O efeito, segundo ele, é especialmente relevante em países tropicais, como o Brasil. Isso ocorre porque o aumento da umidade atmosférica não é proporcional ao aumento da temperatura, em regiões mais quentes, a capacidade de armazenamento de vapor cresce ainda mais.
“Com o aumento da temperatura, você tem um aumento da água precipitada. Então, os sistemas meteorológicos que provocam chuva passam a ter um maior potencial de provocar chuvas mais intensas, por conta do aquecimento global”, afirma.
O especialista também relaciona o aquecimento dos oceanos à possível maior frequência de episódios de El Niño. Ele explica que o Oceano Pacífico tem registrado aumento de temperatura nas últimas décadas, o que pode influenciar a ocorrência e a intensidade do fenômeno.
Tornados estão mais frequentes?
Apesar da sequência de ocorrências recentes, Seluchi ressalta que é difícil afirmar, com base em dados históricos, se tornados e tempestades severas estão efetivamente mais frequentes.
Ele destaca que nem todo evento com ventos intensos deve ser classificado como tornado. Fenômenos como microexplosões atmosféricas, linhas de instabilidade e supercélulas podem provocar destruição semelhante, mas têm características diferentes.
Por isso, a identificação depende de análises meteorológicas específicas. O especialista cita, inclusive, dúvidas sobre a classificação de alguns episódios recentes, reforçando a importância de não atribuir automaticamente a condição de tornado a todo evento de vento extremo.
Ainda assim, Seluchi considera possível que as mudanças climáticas estejam tornando a região da Bacia do Prata mais suscetível a tempestades violentas. O aumento da umidade atmosférica e as alterações associadas ao El Niño são fatores que podem favorecer esses episódios.
“Se as mudanças climáticas empurram, de alguma forma, a estatística para um lado, a gente consegue imaginar que seria mais para provocar um aumento da intensidade e da frequência, e não o contrário”, avalia.






