Um ano da tragédia em Brumadinho: sobreviventes buscam recomeço

Rompimento da barragem causou a morte de, pelo menos, 270 pessoas, de acordo com a Polícia Civil de Minas Gerais

Igo Estrela/Metrópoles

atualizado 25/01/2020 10:04

O dia 25 de janeiro nunca mais será corriqueiro para moradores da cidade mineira de Brumadinho, em Minas Gerais. Foi nesta data, em 2019, que a maior tragédia ambiental da história brasileira aconteceu. Às 12h28, a Barragem 1, do Complexo da Mina do Feijão, se rompeu levando lama, terror e morte a pelo menos 270 pessoas, entre funcionários da Vale e de empresas terceirizadas, moradores do município e visitantes, de acordo com a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG).

Um ano depois do ocorrido, o Metrópoles conversou com aqueles que sentiram na pele o horror: bens perdidos, efeitos psicológicos irreversíveis e, principalmente, a morte de amigos e familiares.

Uma dessas vítimas foi o agricultor Paulo Geovane dos Santos, de 40 anos. Ele dormia no sítio que divide com o pai, perto do córrego, quando a barragem se rompeu. A última notícia que a família teve dele veio de uma mensagem enviada para a esposa, Suely de Oliveira Costa, de 39 anos. “Vou dormir. Estou te esperando”, dizia o texto. Suely estava na residência do casal, em Brumadinho, e recebia uma visita em casa. Cinco minutos depois, viu a notícia do desastre na televisão.

O desespero para achar o marido deixa marcas até hoje. Não apenas físicas, como a dor nos pés que ela diz sentir após passar dois meses andando pela região onde o sítio ficava, mas principalmente psicológicas. “Não consigo trabalhar. Não durmo mais, nem como mais. Minha vida virou chupar laranjas”, conta. Traumatizada, a antiga supervisora de vendas sobrevive com o salário emergencial pago pela Vale. Duas indenizações foram transferidas, em valores que, segundo ela, não chegam nem perto de cobrir o prejuízo da casa perdida.

É chupando laranjas que todos os dias ela pensa na falta que o marido faz. Grande companheiro e amor da vida, Paulo é lembrado até para as coisas mais básicas. “Eu não fazia nada sem falar com ele. Tudo a gente decidia juntos, agora eu não faço mais nada sozinha”, lamenta. O refúgio que ela encontra é na bondade que o esposo sempre demonstrou. “Penso que ele não era para ficar nesse mundo cruel. Ele não merecia, mas acabou sendo enterrado vivo.”

Na medida em que o aniversário da tragédia se aproxima, as tão sofridas memórias voltam à memória involuntariamente. No dia anterior, por exemplo, tudo estava bem. “Acordei um dia com Paulo do meu lado. Ele estava comigo e agora não está mais. É muito doloroso”, se emociona.

Suely é a regra entre aqueles que sobreviveram à tragédia. Dentro da família, por exemplo, o sentimento até hoje é de destruição. “O pai dele cavou com as próprias mãos. A família está devastada. Não só a nossa. Hoje a gente vê muita gente com depressão aqui em Brumadinho”, relata.

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O casal David Arlei Almeida, 24, e Adriane Pereira Alves, 20, está dentro do escopo descrito por Suely. Apesar de não morarem mais na cidade onde ocorreu o rompimento – agora estão em Betim junto à família da mulher –, o casal convive com todas as sequelas de um dia de terror.

Adriane teve a perna esquerda esmagada pela força da lama. Ficou presa e não conseguia se desprender do amontoado que não parava de aumentar. Coube a David, no desespero, cavar e conseguir retirá-la. Um ano depois, a mulher ainda não consegue andar normalmente. Com a perna dois centímetros mais fina, ainda faltam alguns meses para a fisioterapia acabar, fora a ajuda de psicólogo e psiquiatra, para curar a depressão.

Já David não consegue se manter em um emprego. Ele conta que até tentou, quatro meses depois, ser vigia de máquinas perto da barragem, mas no primeiro dia de chuva ele não aguentou. “Fiquei com muito medo. Nem voltei lá no dia seguinte para entregar minha documentação. Queria ficar longe dali”, explica.

O aniversário de um ano do acidente, além de trazer as más lembranças, acende novo alerta. É neste mês que a ajuda da Vale com o aluguel do apartamento em que o casal mora acaba. Sem conseguirem trabalhar, há receio de que a ajuda não se renove. “O salário emergencial acaba em outubro. Minha mulher só voltará a andar melhor no ano que vem. A gente precisa de mais tempo”, conta.

Mesmo com os problemas, David tenta ser otimista. Para ele, o passar do tempo será aliado na luta contra a memória que insiste em permanecer. “Espero que o pensamento passe e eu possa voltar a trabalhar. Não está tudo mil maravilhas, mas a gente vai tentando levar”, diz.

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Adilson Ramos, 45, tinha um comércio na região próxima à barragem. Como estava em Betim no horário do rompimento, ele teve a sorte de não passar o sufoco de milhares de moradores. Mesmo assim, diante da cena de horror que teve notícia, ele diz que não titubeou em voltar a Brumadinho imediatamente. “Fui correndo para ajudar. Perdi amigos e companheiros de trabalho de muito tempo. Foi algo difícil demais para nós”, conta.

Em decorrência da lama que ainda se encontra no local, o comerciante não conseguiu mais abrir a loja dele e precisou arranjar outra forma de sobreviver. “Ninguém mais vai até ali. A Vale paga uma mixaria para todo mundo e a gente tem que se virar”, diz.

Mesmo revoltado com a situação, Adilson pondera que a atividade mineradora na região é necessária, uma vez que é a principal fonte de renda da cidade. “Se não vier indústria para substituir, aqui vai virar uma cidade fantasma. A gente costuma dizer aqui que é uma doença necessária para a cidade”, finaliza.

O que diz a Vale

No site da empresa há uma página chamada “Prestação de Contas”. Nela, a Vale informa todas ações que foram tomadas e aquelas que estão em curso.

De acordo com o informe, cerca de 106 mil pessoas recebem mensalmente indenizações emergenciais e ao menos 1,2 mil acordos já foram realizados.

Obras de infraestrutura, investimento em segurança e recuperação ambiental também estão entre os feitos da mineradora.

Para acessar todo o material preparado pela Vale, basta clicar neste link.

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