STF julga nesta quarta disputa de 13 anos sobre royalties do petróleo

Corte analisa regra que reduz repasses a produtores e amplia compensações ao restante do país. Estados produtores temem perda de arrecadação

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Divulgação/SBM
Imagem de plataforma de petróleo - Metrópoles
1 de 1 Imagem de plataforma de petróleo - Metrópoles - Foto: Divulgação/SBM

O Supremo Tribunal Federal (STF) deve começar nesta quarta-feira (6/5) o julgamento de ações que podem mudar a divisão dos royalties do petróleo entre estados e municípios.

A Corte vai decidir sobre a validade de uma lei aprovada pelo Congresso que altera a forma de distribuição da compensação financeira paga por empresas que exploram petróleo. A regra reduz a fatia de estados e municípios produtores e amplia os repasses para os não produtores.

Estados produtores, que hoje concentram a maior parte desses recursos, temem perdas relevantes de arrecadação. O principal foco é o Rio de Janeiro, maior produtor do país, que calcula impacto bilionário nas contas públicas. Segundo o governo fluminense, a mudança pode comprometer serviços básicos.

Do outro lado, estados e municípios não produtores pressionam por uma decisão após 13 anos de impasse. Eles defendem que a redistribuição promove “justiça social”, ao ampliar investimentos e reduzir desigualdades regionais.


O que está em jogo na partilha dos royalties

  • Hoje: produtores ficam com 26,5% (estados) + 26,5% (municípios); fundos de estados e munícipios não produtores recebem 8,75%.
  • Lei aprovada em 2012 (regra inicial): fatia dos estados produtores cairia para 20%; dos munícipios para 17%. Fundos subiriam para 40%.
  • Transição de seis anos: após o período, os repasses aos municípios produtores cairiam a 4%. Estados e municípios não produtores concentrariam 54% dos recursos.

A disputa começou em 2012, quando o Congresso aprovou novas regras para dividir os royalties. A então presidente Dilma Rousseff (PT) vetou parte das mudanças que afetavam contratos já existentes, mas o veto foi derrubado no ano seguinte.

Para evitar um colapso nas contas, o então governador do Rio, Sérgio Cabral, acionou o STF. Em março de 2013, a ministra Cármen Lúcia concedeu uma liminar — válida até hoje — suspendendo a nova divisão.

Apesar da relevância do tema, nem a liminar nem o mérito da ação foram julgados. Após sucessivos adiamentos, o presidente do STF incluiu o processo na pauta desta quarta. Ainda assim, há possibilidade de novo atraso caso algum ministro peça vista.

Ao suspender as novas regras, Cármen Lúcia afirmou que a mudança poderia violar a Constituição ao retirar recursos de quem tem direito à compensação e redistribuí-los a entes não previstos no texto constitucional.

“O enfraquecimento dos direitos de algumas entidades federadas não fortalece a federação; compromete-a em seu todo. E se uma vez se desobedece a Constituição em nome de uma necessidade, outra poderá ser a inobservância de amanhã em nome de outra. Até o dia em que não haverá mais Constituição”, escreveu.

AGU defende derrubar a lei

Em manifestação enviada ao STF na segunda-feira (4/5), a Advocacia-Geral da União (AGU) pediu que a Corte declare as mudanças nos royalties inconstitucionais.

O advogado-geral da União substituto, Flávio José Roman, afirmou que a redistribuição contraria os critérios definidos pela Constituição. Segundo a AGU, esses recursos devem compensar as regiões produtoras pelos impactos diretos e indiretos da exploração de petróleo.

O órgão também alertou que a entrada em vigor da lei poderia gerar efeitos retroativos, aumentando ainda mais o déficit de estados produtores, com cobranças de valores não pagos no passado.

Como alternativa, a AGU sugeriu que, se o STF validar a lei — hipótese chamada pelo órgão de remota —, sejam fixadas regras de transição para evitar colapso financeiro. Entre as propostas estão a não aplicação das novas regras a contratos antigos e a dispensa de devolução de valores recebidos durante o período em que a liminar de Cármen Lúcia esteve em vigor.

A União tem interesse direto no caso, já que também pode perder receita. Pela lei em discussão no STF, a participação nos royalties cairia de 30% para 20%, e nas participações especiais, de 50% para 46%.

Rio prevê perdas bilionárias

Principal afetado, o Rio de Janeiro concentra cerca de 84% dos royalties destinados aos estados, segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP).

O governo estadual estima perda anual de cerca de R$ 9 bilhões, além de impacto de quase R$ 13 bilhões nos municípios produtores. Em 2025, o estado arrecadou R$ 24,8 bilhões com royalties — cerca de um quarto de sua receita total.

Diante do risco, autoridades fluminenses intensificaram articulações em Brasília. O governador interino, desembargador Ricardo Couto, se reuniu com prefeitos, representantes do setor produtivo, ministros do STF e com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ele tem afirmado que a mudança pode agravar o déficit e afetar o funcionamento da máquina pública.

O presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Douglas Ruas (PL), também tem buscado ministros da Corte. Deputados estaduais foram a Brasília na véspera do julgamento para acompanhar discussões. O ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), pré-candidato ao governo, também se manifestou e disse que a compensação é um “direito” do estado.

Em sua defesa ao STF, o governo do Rio argumentou que a redistribuição é inconstitucional por violar o pacto federativo, desrespeitar o direito à compensação e criar insegurança jurídica ao alterar contratos já existentes.

“Modifica drasticamente as receitas cujo ingresso já era certo e previsto, tanto que amparou contratos de renegociação da dívida pública e o custeio do regime previdenciário público, no caso fluminense”, disse o estado.

Não produtores pressionam

Estados e municípios não produtores cobram o fim da disputa. Ao longo dos 13 anos de espera, Cármen Lúcia tentou buscar um acordo entre as partes.

Em 2023, o caso foi enviado ao núcleo de conciliação do STF. Foram realizadas 33 reuniões, mas sem consenso. Uma nova rodada prevista para a véspera do julgamento acabou cancelada.

Uma proposta apresentada pela Confederação Nacional de Municípios (CNM) e 20 estados prevê validar a lei com início imediato da nova divisão e uma transição de sete anos.

O grupo também sugere não cobrar valores retroativos. O texto ainda abre espaço para ajustes em estados do Norte que podem ser impactados pela exploração na Margem Equatorial.

O acordo, porém, não foi assinado pelos principais estados produtores — Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo — nem por outras unidades, como Distrito Federal, Amazonas, Pará e Amapá.

STF julga nesta quarta disputa de 13 anos sobre royalties do petróleo - destaque galeria
3 imagens
Sonda de perfuração NS-42
Plataforma de Petróleo
Plataforma flutuante Peregrino, operada pela Equinor e pela petrolífera Prio, no campo de mesmo nome na Bacia de Campos, no Rio de Janeiro
1 de 3

Plataforma flutuante Peregrino, operada pela Equinor e pela petrolífera Prio, no campo de mesmo nome na Bacia de Campos, no Rio de Janeiro

Divulgação
Sonda de perfuração NS-42
2 de 3

Sonda de perfuração NS-42

Divulgação Foresea
Plataforma de Petróleo
3 de 3

Plataforma de Petróleo

Petrobras

Ao longo dos últimos dias, representantes do grupo e parlamentares, como o coordenador da bancada do Nordeste, deputado Júlio César (PSD-PI), se reuniram com uma série de ministros do STF para apresentar a proposta: Luiz Fux, André Mendonça, Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Na véspera do julgamento, eles se encontram com o ministro Flávio Dino.

A CNM e o grupo de estados defendem que a distribuição dos royalties deve ser mais equilibrada e não deve ser mais concentrada em estados e municípios produtores. Eles argumentam que a manutenção do atual regime fere o princípio da igualdade e o pacto federativo.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNotícias Gerais

Você quer ficar por dentro das notícias mais importantes e receber notificações em tempo real?