Silenciamento de Trump reverbera nas redes brasileiras e pulveriza extremistas

Ao bloquear ex-presidente americano, redes sociais criam precedente que preocupa populistas inclusive no Brasil

atualizado 23/01/2021 9:51

Logotipos do Facebook, Twitter, Instagram e YouTubeRafaela Benez/Metrópoles

O governo brasileiro entrou na Justiça contra o Facebook por causa da exclusão de postagem em uma página institucional, atitude classificada por um ministro como “censura e desrespeito à legislação brasileira”, que precisa ser discutida até em organismos internacionais para que as chamadas Big Techs (gigantes mundiais da tecnologia) sejam reguladas. O ano era 2015, a presidente era Dilma Rousseff (PT) e o ministro era Juca Ferreira, da Cultura, que protestava com veemência contra o apagamento pela rede social da foto de um casal de índios botocudos tirada em 1909, parte de uma exposição.

Muita água rolou pelo mar da internet desde então, mas o debate sobre o poder das grandes redes sobre as políticas nacionais continuou avançando e atingiu seu ponto alto quando Donald Trump, à época ainda presidente norte-americano, foi silenciado por todas elas enquanto exercia o cargo que costumava ser chamado de “o mais poderoso do mundo”.

O silenciamento não atingiu apenas Trump (agora banido definitivamente do Twitter por ter incitado a violência e a insurreição, e suspenso do Instagram e do Facebook) mas também perfis de extrema-direita nos EUA e no Brasil, acusados de disseminar discurso de ódio e desinformação sobre a pandemia de coronavírus.

Como no Brasil o Twitter já sinalizou, só neste ano, postagens do presidente da República e do Ministério da Saúde como enganosas (por defenderem um “tratamento precoce” sem eficácia comprovada contra a Covid-19), o governo brasileiro está engajado no debate, e teme que o precedente criado com Trump possa se repetir por aqui.

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, defende que Facebook, Twitter e companhia sejam colocados “sob o abrigo do Estado de Direito e do primado da liberdade”. Ele foi ao Twitter… reclamar do Twitter: “Pessoas e empresas estão sendo banidas para um verdadeiro Arquipélago Gulag digital, sem direito à defesa”, afirmou, para em seguida informar que o Brasil “estuda com atenção as ideias que começam a surgir, ao redor do mundo” para regular as redes.

Enquanto os políticos que se sentem ameaçados não tentam uma reação concreta, usuários das redes que estão sendo alvo de bloqueios buscam opções para seguir falando na internet. O escritor Olavo de Carvalho, guru de alguns dos usuários silenciados, abandonou o Twitter na última semana, após ter limitações impostas, e segue pregando no Facebook, mídia em que costuma ter vários posts marcados como fake news, e nas novas ferramentas que extremistas estão buscando para driblar a censura das grandes redes.

O influenciador digital bolsonarista Allan dos Santos e seu site, o Terça Livre, também passaram por períodos de bloqueio no Twitter na última semana.

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Redes sociais com regras mais frouxas, como o desconhecido Gab, e aplicativos de troca de mensagem fora do guarda-chuvas das big techs, como o Telegram, são a aposta, como o Metrópoles mostrou há uma semana. Estrela da migração de grupos para o Telegram a fim de disseminar sua mensagem sem amarras, o presidente Jair Bolsonaro tinha 200 mil inscritos em seu canal no  dia 14 de janeiro deste ano. Na noite de sexta, eram 370 mil. Ainda longe dos 6,6 milhões que tem no Twitter, por exemplo, mas uma opção a mais em caso de bloqueios futuros.

A pulverização para outros serviços e os silenciamentos recentes já reverberam no debate público virtual. O pesquisador das redes sociais Fábio Malini, que cria mapas para traduzir em imagens o que se fala no Twitter, registrou na última semana quedas no alcance de temas caros para a extrema-direita, como o tratamento precoce – e sem eficácia comprovada – contra a Covid-19. Veja um exemplo:

O poder das redes

Apesar de achar positivo que sejam retirados da internet conteúdos que atrapalham no combate à pandemia e discursos de incitação à violência, o cientista político Alexandre Arns Gonzales, que faz doutorado na Universidade de Brasília (UnB) e pesquisa as implicações do uso de dados pessoais em processos eleitorais, não acha muito democrático que as grandes redes sociais tenham tanto poder a ponto de silenciar pessoas, famosas ou não, baseados em regras internas nem sempre transparentes.

“Essas plataformas decidem suas regras e os usuários aceitam, mas a gente percebe que essas regras vão mudando a depender do contexto político do momento. Desde a eleição de Donald Trump, em 2016, e do Brexit, a discussão sobre produção de notícias falsas e a necessidade de maior vigilância cresceu muito”, afirma ele, em conversa com a reportagem por telefone.

O pesquisador lembra que as redes sociais costumam cumprir decisões judiciais nos países onde atuam, mas tomam a grande maioria delas sobre moderação por conta própria. “Essas decisões podem ser arbitrárias, e não há muito como recorrer delas”, diz Gonzales.

Tem sido principalmente após a pandemia que contas governamentais e de chefes de Estado deixaram de gozar de uma espécie de anistia que, lembra o pesquisador, começou quando o Facebook voltou atrás e permitiu a publicação da nudez indígena relatada no início deste texto.

“A decisão sobre Trump cria um precedente. O que as empresas estavam fazendo até então era não melindrar os chefes de Estado, a não ser os considerados inimigos pelo Departamento de Justiça americano, como órgãos públicos de Venezuela, Irã, Cuba. Agora, elas mostraram que podem até banir um chefe de Estado permanentemente”, analisa o cientista político.

“E sem nenhum processo. Por isso acho que não é democrático o poder que elas têm de influência sobre o debate público”, completa ele, que não se aventura a apresentar soluções, mas lembra que autoridades nos Estados Unidos e na Europa têm se debruçado em acusações sobre essas companhias e discutem o desmembramento delas para desfazer o monopólio da informação.

Tirando um pouco o foco do poder das plataformas e olhando para a política brasileira, porém, o especialista chama a atenção para a falta de ações menos arbitrárias, ações que viessem das autoridades constituídas. “Para além de achar se está certo uma empresa deixar ou não um chefe de Estado promover remédios sem eficácia comprovada, devemos nos perguntar por que as instituições do país não agem antes que as empresas o façam”, afirma Gonzales, que lembra ainda de outra consequência histórica de uma ação mais brusca das redes:

“Se o Twitter fecha a conta do Bolsonaro, onde ficará todo o conteúdo que ele publicou?”, questiona. “É material vinculado à história e à memória do país e, no caso dele, que pode ter indícios probatórios em processo judicial”, argumenta, por fim.

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