Limitada por grandes redes na internet, extrema direita se refugia em serviços com regras frouxas

Militantes de direita tentam depender menos de redes como Twitter e Facebook para se comunicar. Esta sexta-feira é "Dia do Silêncio"

atualizado 14/01/2021 20:32

Allan dos Santos veste traje socialHugo Barreto/Metrópoles

Se um protesto que está sendo promovido por perfis conservadores nas redes sociais der certo, esta sexta-feira (15/1) será um dia de pouco engajamento bolsonarista em mídias como Twitter e Facebook. O “Dia do Silêncio”, uma espécie de greve de postagens e likes, é uma manifestação pontual contra o que influenciadores digitais do campo da direita ligada ao escritor Olavo de Carvalho chamam de “censura das big techs”, mas marca também uma tentativa de migrar a militância para ambientes virtuais com menos amarras contra o extremismo e a propagação de desinformação.

O banimento do ainda presidente norte-americano, Donald Trump, do Twitter é o ponto alto da insatisfação de internautas conservadores nos Estados Unidos e no Brasil. Acuados pela política dessas grandes redes que restringem, por exemplo, notícias com acusações sem provas de fraude eleitoral e desinformação sobre a gravidade do coronavírus, esses militantes estão se mobilizando para tornar populares serviços de troca de mensagens e de relacionamento virtual até agora obscuros para a maioria dos internautas.

A busca não é simples. Primeira opção, a rede social Parler, parecida com o Twitter, acabou banida das grandes lojas de aplicativos sob a justificativa de não agir para coibir o discurso de ódio, e saiu do ar após perder até os servidores que eram fornecidos pela Amazon. No traumático processo, segundo a imprensa dos EUA, o serviço ainda foi hackeado, expondo dados privados de todos os usuários.

Sem o Parler, a aposta conservadora de rede social é a norte-americana Gab, criada em 2016, e que, pela política de total liberdade de expressão, é acusada no país de origem de abrigar discursos de ódio contra judeus, gays, imigrantes, mulheres e minorias em geral. O terrorista que cometeu um atentado contra uma sinagoga em Pittsburgh em outubro de 2018, deixando 11 mortos, era ativo no Gab e compartilhava memes racistas sem ser incomodado.

Influenciadores digitais bolsonaristas, como Allan dos Santos (imagem em destaque), investigado no STF pela suposta promoção de atos antidemocráticos, estão usando suas contas nas redes tradicionais para convencer a militância a migrar para o Gab.

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Troca de mensagens

O esforço conservador também busca uma opção ao WhatsApp para a troca de mensagens e difusão de propaganda. Uma das opções é o aplicativo Signal, que foi catapultado como o mais baixado na loja de aplicativos da Apple e na Google Play Store. Garantindo que jamais irá vender dados de usuários nem exibir anúncios, o programa saltou de 20 milhões de usuários ativos em dezembro para 27,5 milhões até 10 de janeiro (uma alta de 37,5%), segundo sites especializados, como o da Sensor Tower.

Mais popular, inclusive no Brasil, é a opção Telegram, de origem russa e que também promete total proteção dos dados. No ambiente é possível criar grupos, e até o presidente Jair Bolsonaro lançou um, na última terça (12/1), para distribuir suas postagens. Em um dia, o grupo do presidente angariou 222 mil participantes.

É bastante, mas nada próximo dos 13 milhões de seguidores que o presidente cultiva, por exemplo, no Facebook. Por causa desse “patrimônio” nas redes famosas, a ordem não é abandoná-las, mas conquistar novos espaços, para não ficar sem voz no caso de medidas drásticas como a tomada pelo Twitter contra Trump.

Em março do ano passado, o Twitter chegou a apagar publicações da conta de Bolsonaro por violação de regras. Nas postagens deletadas, o presidente se mostrava causando aglomeração e pregando contra o isolamento social enquanto a pandemia de coronavírus ceifava vidas de brasileiros.

Também cerceado pela plataforma após postar um vídeo do pai defendendo a cloroquina como cura para a Covid-19 (o que não tem comprovação científica), o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) resolveu acompanhar um movimento de perfis direitistas e trocou a foto pessoal pela de Trump como protesto contra o Twitter. Segundo o próprio filho do presidente, uma substituição definitiva. Veja a justificativa dele:

Postagem de Eduardo Bolsonaro
#EsseNão

Para servir aos propósitos dos conservadores, os serviços não podem ser apenas a concorrência das big techs norte-americanas, mas precisam ter algum alinhamento ideológico. O chinês TikTok, apesar de ser a plataforma que mais cresce no mundo entre as redes sociais, não está recebendo novos usuários do campo conservador justamente por ser chinês – e não ser claro quanto ao tratamento dos dados de usuários.

“Incomoda ser contestado o tempo todo”

Para a pesquisadora em democracia digital Maria Carolina Lopes de Oliveira, mestre em democracia pela Universidade de Salamanca e em ciência política pela UnB, o discurso de fuga das redes que os censuram não é a única explicação para o movimento desses perfis conservadores em direção a serviços em que podem falar sem muita oposição.

“É uma estratégia num momento em que políticos que eles apoiam passam a ser mais contestados, quando aumenta a dissidência. Incomoda ser contestado o tempo todo, e migrar para grupos mais fechados, em que podem disseminar suas visões de mundo sem essa contestação, faz sentido neste momento, pode deixar o grupo mais coeso”, analisa ela, que faz doutorado em comunicação na Universidad Pompeu Fabra, em Barcelona.

“Pode parecer que eles estão se isolando, mas pode ajudar a mantê-los mobilizados, o que interessa ao presidente Bolsonaro, que age sempre para aumentar a polarização política e fortalecer o núcleo do bolsonarismo, que ele acha ser suficiente para levá-lo ao segundo turno em 2022”, avalia ainda a pesquisadora, que diz ser cedo para saber se a estratégia vai funcionar.

“Uma consequência é que, nesses ambientes sem oposição, esse grupo tende a ficar mais radicalizado, pois não há outros grupos contestando as posições”, conclui Maria Carolina.

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