Covid-19: distribuição de tamiflu é 160% maior do que a de cloroquina

O fosfato de oseltamivir, mais conhecido pelo nome de tamiflu, faz parte da estratégia de combate à Covid-19 do Ministério da Saúde

atualizado 16/09/2020 8:31

Newscast/Getty

O medicamento mais utilizado no Brasil e um dos mais prescritos ao redor do globo quando o mundo foi assolado pela pandemia de H1N1 vem desempenhando um papel estratégico no combate à pandemia da Covid-19. O antiviral oseltamivir, mais conhecido pelo nome popular tamiflu, foi o fármaco mais distribuído pelo governo federal durante a pandemia, com 160% a mais do que a quantidade da cloroquina entregue.

Enquanto o remédio divulgado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) desde a chegada da doença no Brasil teve 5.653.700 unidades destinadas a pessoas infectadas com a Covid-19, a distribuição do tamiflu chegou a 14.711.010, conforme dados do sistema de transparência do Ministério da Saúde, Localiza SUS.

O uso do tamiflu chegou a ser abordado em vários encontros do Centro de Operações de Emergências de combate ao novo coronavírus, conforme mostraram as atas das reuniões, obtidas pela agência Fiquem Sabendo e divulgadas pela newsletter Don’t LAI to me.

“Ele [o tamiflu] não é para Covid. O que acontece é que o paciente que chega no pronto-socorro com uma síndrome gripal, com febre, tosse, dor muscular, dor de garganta. Ele pode ter a Covid-19 ou pode ter o vírus da gripe, a gente não sabe. Existem critérios pra diferenciar. Se você tiver oportunidade de fazer um teste para H1N1, H2N3 e ele for positivo, você nem vai se preocupar com o coronavírus. Você vai tratar como se fosse uma gripe”, diz o médico Ciro Kirchenchtejn, pneumologista membro da plataforma de teleconsultas Doctoralia.

A lógica usada nesses tratamentos, segundo José Tadeu Colares Monteiro, pneumologista da Comissão Científica de Infecções Respiratórias e Micoses da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), é a mesma da campanha de vacinação contra a gripe, que tinha como meta a vacinação de 90% da população, como forma de facilitar um eventual diagnóstico de coronavírus, pois, em tese, a pessoa vacinada que apresentasse os sintomas não estaria gripada.

“A gente protege o paciente de ter uma virose respiratória que poderia se somar ao quadro da Covid-19”, disse.

Segundo Kirchenchtejn, não há sentido em prescrever tamiflu para a pessoa que tem diagnóstico confirmado do novo coronavírus. “É um antiviral que age na capinha que fica em volta do vírus da gripe, no RNA dela, em tese, na replicação do vírus dentro da pessoa. Para grávidas, você tem que pensar duas vezes antes de dar. No entanto, quando teve a epidemia de H1N1, que as grávidas estavam morrendo muito, a gente dava o tamiflu inclusive para elas.

Em maio, a pasta emitiu um parecer técnico, em caráter excepcional, priorizando o fosfato de oseltamivir nas primeiras 48 horas após o início dos sintomas para todos os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), bem como para quadros de síndrome gripal que se enquadrasse nos grupos de risco nos quais estão as grávidas, pessoas com doença renal crônica, doenças crônicas no fígado, imunodeprimidos e obesos mórbidos.

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No parecer técnico, o ministério sustentou que os sintomas iniciais da Covid-19 são muito semelhantes aos da gripe. No documento, a pasta expõe que houve um aumento considerável do consumo do tamiflu no início da pandemia. Neste ano, o ministério havia considerado o aumento de anos anteriores e feito a programação para um cenário sem pandemia.

Com o avanço da doença pelo Brasil e pelo mundo, os estoques dos almoxarifados centrais do ministério rapidamente se esgotaram, com repasses feitos às secretarias estaduais, conforme mostra documento ao qual o Metrópoles teve acesso. A alta demanda pelo medicamento gerou uma corrida em escala global. Os laboratórios federais de Farmanguinhos/Fiocruz, responsáveis por parte da produção nacional, chegaram a ficar sem o insumo para produzir o fármaco.

Sem estoque, o governo precisou recorrer a uma compra emergencial, no mercado externo, para reequilibrar os estoques.

Além do oseltamivir, o Farmanguinhos também fabricou mais de 2,5 milhões de comprimidos de cloroquina. O governo federal aproveitou a estrutura do Laboratório Químico Farmacêutico do Exército para a produção de outros 3 milhões de comprimidos da cloroquina.

No DF

A Secretaria de Saúde do Distrito Federal decidiu muito cedo, em maio, também usar o tamiflu em pacientes com sintomas relacionados ao novo coronavírus.

A decisão local abraçou a nota técnica do Ministério da Saúde que dispunha sobre a indicação, em caráter excepcional, do uso do remédio durante a pandemia de Covid-19. O Conselho Regional de Medicina (CRM-DF) afirmou, porém, que não há comprovações científicas de que a substância seja eficiente para o tratamento da doença.

Documento exclusivo obtido pelo Metrópoles revelou que a pasta local passou a recomendar o uso do fármaco, por 48 horas, em três situações específicas: para todos os pacientes com síndrome respiratória aguda grave (SRAG), também em casos de síndrome gripal (SG) envolvendo grávidas de qualquer idade gestacional, enfermos com doença renal crônica, problemas no fígado, com quadro autoimune e obesidade mórbida.

Adultos maiores de 60 anos com sintomas de Covid-19 também passaram a poder ser contemplados com o antiviral no DF, conforme a disponibilidade de tratamento.

“A partir do avanço da pandemia do novo coronavírus, observou-se um aumento exponencial no consumo do fosfato de oseltamivir, com consequente aumento da demanda mundial. Esse fato tem gerado escassez do antiviral no mercado, fazendo-se necessária a priorização do tratamento para determinados grupos com condições ou fatores de risco para influenza”, registrava o informe.

O documento é datado de 21 de maio e foi mais uma investida da pasta para tentar minimizar os sintomas severos causados pela Covid-19, principalmente no sistema respiratório.

“Diante do exposto, e conforme orientação do Ministério da Saúde, recomendamos a priorização do uso de oseltamivir nas primeiras 48 horas do início dos sintomas”, reforçava o texto ao citar os integrantes do classificado grupo de risco.

Uso da cloroquina

Quando os primeiros resultados da pesquisa com cloroquina mostraram resultados promissores, o pneumologista Ciro Kirchenchtejn diz que chegou a prescrever o remédio para seus pacientes infectados com a Covid-19. Assim que novos estudos apontaram para a ineficiência do medicamento contra o novo coronavírus, porém, ele conta ter parado de prescrevê-la.

O médico também informa que não costuma receitar outros fármacos que integram o “kit Covid”, distribuído por várias prefeituras pelo país, no qual inclui a hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina.

“Esses remédios não servem nem pra gripe, nem pro coronavírus. Em março, abril, surgiram os primeiros estudos mostrando que não fazia efeito, não tem sentido. Hoje, eu não prescrevo de jeito nenhum. Existe um antiviral pro coronavírus, o rendezivir, que não tem no Brasil. E é um remédio que é caro, não tem como prescrever aqui e os estudos mostraram que ele diminuiu o tempo de internação. Hoje, a gente sabe que, para pacientes graves o corticoide funciona”, explica Kirchenchtejn.

Monteiro também compartilha da posição do colega sobre a exigência de estudos claros quanto à comprovação científica de um medicamento antes de ser aplicado ao tratamento.

“A gente não pode usar se não tem trabalhos científicos que comprovem a efetividade do tratamento. A hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina são drogas que são utilizadas, têm sua parcela de benefício, mas efetivamente, para o tratamento da Covid-19, não existem documentos internacionais que nos autorize a utilizar essa droga com algum grau de evidência, diferente do tamiflu para síndrome respiratória ou gripal associada ao vírus influenza, que a gente já tem vários documentos mostrando que esses pacientes tiveram melhora”, frisou o membro da Sociedade Brasileira de Pneumologia.

Atualmente, não há protocolo definido para casos leves da Covid-19, cada médico tem o poder de decidir, junto ao paciente, como se dará a recuperação do infectado. Nos casos de pouca gravidade, segundo Monteiro, trata-se os sintomas, com a ingestão de remédios que controlem dor, febre e mal-estar, por exemplo.

“Se o paciente tem sintoma de alarme, precisa internar. Sendo internado, a gente ainda tem os corticoides, a dexametazona [corticoide barato com benefícios comprovados em pacientes graves], aqueles pacientes que estão fazendo uso de oxigênio, que estão na UTI, ela diminui a mortalidade. A gente tem evidências que alguns desses pacientes têm que receber anticoagulante para reduzir o risco de trombose”, sustenta Monteiro.

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