Bactéria em água pode ter agravado surto de microcefalia, diz estudo

Toxinas liberadas por cianobactérias aceleram a morte das células neuronais quando são expostas à infecção pelo vírus zika

Sumaia Villela/Agência BrasilSumaia Villela/Agência Brasil

atualizado 04/09/2019 9:45

Pesquisadores brasileiros realizaram um novo estudo que indica que o vírus zika pode não ser o único causador de casos de microcefalia. A análise inédita mostra que as malformações registradas em todo o país a partir de 2015, principalmente no Nordeste, foram agravadas por conta de uma bactéria presente na água, que libera uma toxina chamada saxitoxina (STX).

Segundo o estudo, a cianobactéria Raphidiopsis raciborskii é encontrada geralmente em reservatórios de água e se proliferam mais no período de estiagem. A STX acelera a morte das células neuronais quando são expostas à infecção pelo vírus zika. Desta forma, ela gera malformações congênitas mais severas.

Especialistas do Instituto D’Or (IDOR), Fiocruz e das universidades federais do Rio de Janeiro (UFRJ) e Rural de Pernambuco (UFRPE), observaram o fenômeno em experimentos com camundongos fêmeas grávidas e em minicérebros humanos. A presença de STX associada ao zika vírus acelerou em mais de duas vezes a destruição das células do cérebro, nos dois casos.

Foi observado também que a cianobactéria Raphidiopsis raciborskii foi registrada em quantidade significativamente maior nos reservatórios de água no Nordeste do que em outras regiões do país. Os pesquisadores analisaram dados do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), do Ministério da Saúde, entre 2014 e 2018, e constataram que 50% dos municípios do Nordeste tinham saxitoxina em seus reservatórios. No Sudeste, o índice verificado foi de 25%. Nas demais regiões, menos de 5% das cidades tinham reservatórios com a presença da toxina.

A saxitoxina é considerada um fator ambiental evitável, já que melhores condições de saneamento básico e de tratamento de água nos reservatórios poderiam minimizar o problema.

Nordeste concentra casos de microcefalia
Os dados ajudam a esclarecer por que os estados da região foram os mais afetados pelo surto de microcefalia. Segundo o Ministério da Saúde, do total de casos de síndrome congênita do zika (que inclui a microcefalia) registrados no país de 2015 a 2018, 63% ocorreram na região.

Stevens Rehen, professor da UFRJ e do IDOR e um dos autores do estudo, explicou que novos estudos são necessários para comprovar a pesquisa. Segundo ele, a exposição à saxitoxina não explica todos os casos graves associados ao vírus. Os pesquisadores agora devem investigar como a STX deixa células neuronais mais vulneráveis ao zika e se há, de fato, presença de saxitoxina no organismo de moradores do Nordeste.

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