Estudo indica zika em macacos e ciclo semelhante ao da febre amarela

Esta possibilidade dá ao vírus um reservatório natural do qual pode reinfectar seres humanos com mais frequência e tornar controle difícil

atualizado 31/10/2018 8:35

O vírus Zika foi descoberto pela primeira vez em macacos na África. De tempos em tempos, estes animais saiam da selva e acabavam infectando as populações humanas. Havia trabalhos de erradicação da doença, mas cada retorno dos animais ao ambiente urbano resultava em novo contágio. Eventualmente, o Zika se espalhou para a Ásia e circulou apenas entre humanos, mantendo esta propriedade quando chegou às Américas, sugerindo à Ciência um ciclo semelhante ao do vírus da dengue, com transmissão pelo mosquito Aedes aegypti.

Uma nova descoberta, no entanto, aponta a possibilidade de uma epidemiologia diferente do vírus no Brasil, mais parecido com o da febre amarela. O estudo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), publicado nesta terça-feira (30/10) na Scientific Reports, alerta que, se esta epidemiologia for confirmada, o combate ao zika será muito mais difícil do que se supunha até agora.

O pontapé da pesquisa foi a notícia de que macacos mortos encontrados no Brasil, perto de São José do Rio Preto (SP) e Belo Horizonte (MG) estavam com o vírus. Eles foram baleados ou espancados até a morte por moradores que pensavam que os espécimes tinham febre amarela. De fato, eles não eram portadores desta doença, mas a infecção pelo vírus Zika os tornou doentes e mais vulneráveis ​​a ataques de seres humanos. “A descoberta mostra o potencial do Zika para estabelecer um ciclo silvestre de transmissão [envolvendo animais silvestres] no Brasil, como já ocorre no caso da febre amarela”, explicou Maurício Lacerda Nogueira, principal pesquisador do estudo financiado pela FAPESP e presidente da Sociedade Brasileira de Virologia (SBV).

Reprodução/Fapesp
Ciclo forneceria ao vírus um reservatório natural, a partir do qual poderia reinfectar com maior frequência populações humanas. Estudo a respeito foi publicado por pesquisadores brasileiros na Scientific Reports

A pesquisa evidencia que o vírus foi detectado em macacos acostumados à presença de humanos no estado do Ceará há alguns anos, mas esta é a primeira detecção na natureza desde o início da epidemia em curso. “Durante a epidemia de febre amarela, percebemos que havia muitos macacos mortos, não pela doença, mas por pessoas que tinham medo de contágio”, ressaltou. Quando saudáveis, esses primatas – principalmente os saguis (Callithrix sp.) e os macacos-prego (Sapajus sp.) – são muito difíceis de capturar. Dessa forma, eles concluíram que os animais estavam sendo mortos com relativa facilidade, provavelmente doentes, mas não por febre amarela (que é letal para a espécie), sim de uma doença que os tornou fracos e vulneráveis.

Os espécimes mortos, conforme concluíram os pesquisadores, foram infectados pelo Zika em São José do Rio Preto e Belo Horizonte. O sequenciamento completo do genoma mostrou que o vírus é muito semelhante ao tipo que infecta seres humanos. Na mesma semana, os pesquisadores coletaram mosquitos infectados pelo Zika dos mesmos lugares em que os macacos mortos foram encontrados.

Os cientistas continuaram a pesquisa, infectando os macacos experimentalmente. “A inoculação com o vírus causou viremia [presença do vírus no sangue]. Os macacos exibiram alterações comportamentais, confirmando nossa hipótese inicial de que a infecção os tornava mais suscetíveis a serem capturados e mortos”, comentou Nogueira.

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Estudos necessários
A pesquisa deixa claro que ainda é preciso mais estudos para entender o papel que os animais silvestres podem desempenhar na manutenção do ciclo urbano do vírus Zika e como eles podem ser um canal para o estabelecimento de um ciclo de transmissão enzoótico na América Latina. “Como mostrou a febre amarela, as doenças epizoóticas [que ocorre ao mesmo tempo em muitos animais na mesma área geográfica] sempre serão uma fonte de epidemias entre humanos, mesmo após um possível controle e erradicação do ciclo de transmissão urbana através do desenvolvimento de contramedidas de sucesso, como vacinas e antivirais.”

Para Nikos Vasilakis, professor do Centro de Doenças Tropicais e um dos principais autores do artigo, a descoberta é um fator de mudança e de fundamental importância para autoridades de saúde pública, para o desenvolvedores de vacinas, por exemplo. “Nossas observações terão importantes implicações em nossa compreensão da ecologia e transmissão do zika nas Américas”, disse Vasilakis.

Embora este seja um dos primeiros passos no estabelecimento de um ciclo de transmissão enzoótica entre os primatas não humanos do Novo Mundo e os mosquitos arborícolas, as implicações são enormes. “Isso porque é impossível erradicar este ciclo de transmissão.”

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