Royalties: STF pode mudar partilha, e RJ faz ofensiva contra perdas

Corte vai analisar regra que pode redistribuir compensação por exploração de petróleo. Maior produtor, o Rio pode perder R$ 9 bilhões/ano

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O Supremo Tribunal Federal (STF) deve julgar na próxima quarta-feira (6/5) uma ação que pode alterar a distribuição dos royalties do petróleo entre estados e municípios, com potencial impacto bilionário — especialmente para o Rio de Janeiro, responsável por cerca de 90% da produção do país.

A Corte vai analisar a validade de uma lei aprovada pelo Congresso que redistribui a compensação financeira paga por empresas que exploram petróleo. A norma reduz a parcela destinada aos locais de produção e amplia os repasses a estados e municípios não produtores.

Principal afetado, o Rio concentra cerca de 84% dos royalties distribuídos aos estados, segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP). O governo fluminense estima que uma eventual mudança pode provocar perda anual de cerca de R$ 9 bilhões, além de impacto de quase R$ 13 bilhões nos municípios produtores. Em 2025, o estado arrecadou R$ 24,8 bilhões com royalties — cerca de 25% da receita total.

Diante desse cenário, lideranças políticas e institucionais intensificaram uma ofensiva para tentar evitar perdas. O tema mobiliza pré-candidatos ao governo, integrantes do Executivo e representantes do setor produtivo, em articulação com ministros do STF e o governo federal.

O ex-prefeito do Rio e pré-candidato ao governo Eduardo Paes (PSD) defendeu, nas redes sociais, que a compensação é um “direito” do estado, mas afirmou que é preciso demonstrar ao Supremo o uso adequado dos recursos.

Também pré-candidato, o presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Douglas Ruas (PL), tem atuado junto a ministros da Corte e parlamentares estaduais. Ruas chegou também a pedir uma reunião com o presidente do STF, ministro Edson Fachin, mas o encontro ainda não foi marcado. O parlamentar tem defendido uma mobilização conjunta para preservar as receitas e avaliado que eventuais perdas serão difíceis de recompor.

À frente do governo estadual interinamente, o desembargador Ricardo Couto intensificou as articulações. Ele se reuniu com prefeitos, representantes do setor produtivo e ministros do STF, além de levar o tema ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na última quarta-feira (29/4). Couto tem alertado que uma mudança na partilha pode agravar o déficit fiscal e comprometer o funcionamento da máquina pública.

Em encontro com a Federação das Indústrias do Rio (Firjan), o desembargador defendeu a manutenção dos royalties nos estados produtores: “Para os que perdem, terá uma consequência enorme, um golpe em quase metade da população nacional”.


O que está em jogo na partilha dos royalties

  • Hoje: produtores ficam com 26,5% (estados) + 26,5% (municípios); fundos de estados e munícipios não produtores recebem 8,75%.
  • Lei aprovada em 2012 (regra inicial): fatia dos estados produtores cairia para 20%; dos munícipios para 17%. Fundos subiriam para 40%.
  • Transição de seis anos: após o período, os repasses aos municípios produtores cairiam a 4%. Estados e municípios não produtores concentrariam 54% dos recursos.

A disputa tem origem em mudanças aprovadas pelo Congresso em 2012. A então presidente Dilma Rousseff (PT) vetou parte das alterações que atingiam contratos já existentes, mas o veto foi derrubado pelo Legislativo no ano seguinte.

Para evitar um colapso nas contas estaduais, o então governador do Rio, Sérgio Cabral, recorreu ao STF. Em março de 2013, a ministra Cármen Lúcia concedeu liminar — válida até hoje — suspendendo a nova regra de distribuição.

Na decisão, a ministra afirmou que a mudança poderia ferir a Constituição ao retirar recursos de entes com direito à compensação pela exploração de petróleo e redistribuí-los a estados e municípios não contemplados pelo texto constitucional.

“O enfraquecimento dos direitos de algumas entidades federadas não fortalece a federação; compromete-a em seu todo. E se uma vez se desobedece a Constituição em nome de uma necessidade, outra poderá ser a inobservância de amanhã em nome de outra. Até o dia em que não haverá mais Constituição”, escreveu.

Apesar da relevância do tema, nem a liminar nem o mérito da ação foram julgados. Após 13 anos de sucessivos adiamentos, o presidente do STF decidiu pautar a ação para quarta-feira (6/5). Mas, há, ainda, possibilidade de vista — ou seja, um novo adiamento.

Estados e municípios não produtores têm pressionado o Supremo por uma solução. Eles defendem que o processo tem se arrastado por uma década e que a redistribuição é necessária para uma espécie de “justiça social”, ampliando investimentos e reduzindo desigualdades regionais.

Ao longo dos 13 anos de espera, Cármen Lúcia tentou encontrar uma solução consensual. Em junho de 2023, a ministra encaminhou o caso ao núcleo de conciliação da Corte. Desde então, foram realizadas 33 reuniões, e uma nova rodada estava prevista para terça-feira (5/5), na véspera do julgamento, mas foi cancelada. Ao convocar a audiência, o supervisor do núcleo, desembargador Álvaro Ricardo de Souza Cruz, havia indicado “viabilidade de composição”.

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Desembargador Ricardo Couto, governador interino do Rio de Janeiro
O deputado estadual Douglas Ruas (PL), presidente da Alerj
Ex-prefeito Eduardo Paes (PSD)
Ministra Cármen Lúcia
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Ministra Cármen Lúcia

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Desembargador Ricardo Couto, governador interino do Rio de Janeiro
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Desembargador Ricardo Couto, governador interino do Rio de Janeiro

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O deputado estadual Douglas Ruas (PL), presidente da Alerj
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O deputado estadual Douglas Ruas (PL), presidente da Alerj

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Ex-prefeito Eduardo Paes (PSD)

Buda Mendes/Getty Images

Uma proposta apresentada pela Confederação Nacional de Municípios (CNM) e 19 estados prevê validar a lei com início imediato da nova distribuição e uma transição de sete anos. O texto também admite flexibilizações para estados do Norte que possam ser beneficiados pela exploração na Margem Equatorial.

O acordo, no entanto, não foi assinado pelos principais estados produtores — Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo — nem pelo Distrito Federal, Amazonas, Pará, Maranhão e Amapá.

Os estados produtores argumentam que a mudança comprometeria suas finanças e penalizaria regiões diretamente impactadas pela atividade petrolífera.

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