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Terras indígenas perto de rodovias são mais afetadas por alcoolismo

Nesta quinta (24/7), o Metrópoles publica o especial Vidas à beira do asfalto, que relata o drama de indígenas que vivem ao lado de rodovias

Hugo Barreto/Metrópoles
Foto colorida de indígenas consumindo bebidas alcóolicas em Rio das Cobras
1 de 1 Foto colorida de indígenas consumindo bebidas alcóolicas em Rio das Cobras - Foto: Hugo Barreto/Metrópoles

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A construção de rodovias que cortam ou margeiam terras indígenas é apontada como um facilitador para a entrada de bebidas alcoólicas nesses territórios, contribuindo para o agravamento de problemas como violência, transtornos mentais e suicídios. A afirmação é de pesquisadores ouvidos pelo Metrópoles, que apontam impactos históricos e estruturais dessas vias sobre as comunidades originárias.

A maior parte das rodovias que cortam terras indígenas foi construída durante a ditadura militar (1964-1985), período marcado pela expansão da infraestrutura rodoviária sem consulta às populações afetadas.

O professor da Universidade de Brasília (UnB) Stephen Baines elenca os impactos do avanço dentro dos territórios. “Onde os indígenas têm um longa história de contato com a sociedade nacional, as rodovias resultam em muitos problemas, como atropelamentos, invasões de terras indígenas por agricultores, posseiros, garimpeiros, etc., além de alcoolismo e prostituição”, aponta.

Segundo o epidemiologista Jesem Orellana, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), as comunidades indígenas localizadas às margens de rodovias são as mais vulneráveis ao consumo abusivo de álcool.

“O acesso a bebidas alcóolicas expõe jovens altamente vulneráveis ao consumo abusivo da substância, como também pode resultar em agravamento de outros transtornos mentais, episódios de violência interpessoal ou mesmo autoagressões letais como o suicídio, um conhecido problema em povos indígenas no Brasil”, afirma Jesem Orellana.

Um exemplo dessa realidade é a Terra Indígena Rio das Cobras, no Paraná, cortada pelas rodovias PR-473 e BR-277. Lá, frequentemente, uma cena se repete: antes do pôr do sol, indígenas deixam o território de Rio das Cobras em direção à cidade para comprar bebidas alcoólicas.

Neoli Kafy Ryque, coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) do Litoral Sul, afirma que o álcool é um dos principais fatores de atropelamentos e de outras formas de violência em Rio das Cobras. “Não só do atropelamento, mas o alcoolismo em si, nas terras indígenas, tem sido um grande problemas de violência, até contra a mulher, entre os próprios indígenas, porque ele é um fator que dá o start para uma série de violências”, afirma.

Jesem Orellana destaca que a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) promove ações de tratamento contra o vício em álcool em terras indígenas, que incluem atendimento psicológico e psiquiátrico. No entanto, o especialista observa que a cobertura é irregular, uma vez que “a disponibilidade e a efetividade do serviço são muito heterogêneas, considerando os milhares de aldeamentos no Brasil”.

Em nota, o Ministério da Saúde informou que a Sesai coordena ações de atenção psicossocial e promove o bem viver indígena em articulação com comunidades e serviços locais. A pasta diz garantir que promove o atendimento de média e alta complexidade, e que está ampliando o investimento de recursos no atendimento à população indígena. No entanto, não houve qualquer detalhamento sobre como o alcoolismo é tratado dentro das aldeias.

Mortes estão aumentando

Nesta quinta-feira (24/7), o Metrópoles publica o especial Vidas à beira do asfalto: acidentes de trânsito crescem entre indígenas. A reportagem especial relata o drama de indígenas que correm risco de vida diariamente por morreram à beira de rodovias.

De 2000 a 2023, 1.993 indígenas morreram em acidentes de trânsito. As informações são do Ministério da Saúde e incluem atropelamentos, acidentes com bicicletas, motocicletas e automóveis. No período, os óbitos de indígenas relacionados à violência no trânsito superam o número de mortes por doenças virais (foram 910, entre elas raiva, dengue, sarampo) e doenças transmitidas por protozoários (419, com doenças como malária, leishmaniose e doença de chagas, entre outras).

Vejas a reportagem Vidas à beira do asfalto: acidentes de trânsito crescem entre indígenas.

Também chama a atenção o crescimento do número de óbitos. De 2001 a 2010, foram 569 mortes; de 2011 a 2020, houve 951 óbitos – aumento de 67%. Nos últimos três anos, já foram registradas 386 mortes – 40% do total registrado na década passada.

O Metrópoles visitou Dourados, em Mato Grosso do Sul (MS), e Rio das Cobras, no Paraná (PR), duas das terras indígenas que mais perderam moradores devido à violência no trânsito.

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