Daniel Munduruku: “Abertura de estradas traz novos colonizadores”
Nesta quinta (24/7), o Metrópoles publica especial Vidas à beira do asfalto, que trata do crescimento de mortes no trânsito entre indígenas
atualizado
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O escritor e educador indígena Daniel Munduruku, em entrevista ao Metrópoles, disse que a construção de estradas dentro ou nas proximidades de terras indígenas representa uma espécie de nova colonização, pois as rodovias facilitam a chegada de invasores, a adoção de novas crenças e a disseminação de vícios e doenças entre os indígenas. Segundo ele, a abertura de estradas permite que se mantenha o ciclo de dominação sobre os povos originários, que existe desde a época do Brasil-Colônia.
“Antigamente, os missionários [ou colonizadores] chegavam por meio dos barcos, através da estrada, que eram os rios. Hoje, chegam com a abertura de estradas. Dominam a alma e o corpo indígena, criam dependência cultural”, denuncia Munduruku.
O escritor considera que o avanço das obras de infraestrutura promove um “domínio da alma indígena”, criando uma situação de dependência cultural que não existia. “Existe esse domínio da alma indígena, o domínio do corpo, que cria essa dependência cultural e de alimentos. E há essa colonização da mente, que é a formação, a educação, a escolarização dos povos indígenas. Tudo isso também são instrumentos facilitados por estradas, que garantem a entrada desses elementos todos nas comunidades indígenas”, pontua Munduruku.
Durante a ditadura militar (1964-1985), o Brasil promoveu a construção de estradas, com o objetivo de “integrar” o país e promover a “segurança nacional”. Esse projeto desenvolvimentista foi baseado no Decreto nº 1.164, de 1º de abril de 1971, mas teve um alto custo, com a morte de aproximadamente 8.350 indígenas, de acordo com estimativas da Comissão Nacional da Verdade (CNV).
Passado esse período, o Brasil adotou regras internacionais para a realização de obras de infraestrutura em comunidades indígenas, incluindo a necessidade de consulta aos povos originários antes que qualquer construção avance sobre os seus territórios.
A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo Brasil na década de 1980, estabelece a consulta prévia, livre e informada às comunidades tradicionais quando há empreendimentos com potencial de impactos nos territórios, sejam barragens ou estradas. Sem o consentimento dos indígenas, o licenciamento não pode ser autorizado.
Mortes em acidentes estão aumentando
De 2000 a 2023, 1.993 indígenas morreram em acidentes de trânsito. As informações são do Ministério da Saúde e incluem atropelamentos, acidentes com bicicletas, motocicletas e automóveis. No período, os óbitos de indígenas relacionados à violência no trânsito superam o número de mortes por doenças virais (foram 910, entre elas raiva, dengue, sarampo) e doenças transmitidas por protozoários (419, com doenças como malária, leishmaniose e doença de chagas, entre outras).
Veja a reportagem Vidas à beira do asfalto: acidentes de trânsito crescem entre indígenas.
Também chama a atenção o crescimento do número de óbitos. De 2001 a 2010, foram 569 mortes; de 2011 a 2020, houve 951 óbitos – aumento de 67%. Nos últimos três anos, já foram registradas 386 mortes – 40% do total registrado na década passada.
O Metrópoles visitou Dourados, em Mato Grosso do Sul (MS), e Rio das Cobras, no Paraná (PR), duas das terras indígenas que mais perderam moradores devido à violência no trânsito.
