Professor de muay thai cria moeda na Rocinha para ensinar valor do dinheiro a crianças

Mestre Diego Buchecha aposta em educação financeira para ajudar famílias de alunos em vulnerabilidade social

atualizado 26/09/2021 9:27

Aline Massuca/Metrópoles

Há 15 anos, o mestre de muay thai Diego Silva, conhecido como Diego Buchecha, lidera o projeto social Lutando para Crescer, na parte baixa da Rocinha, a maior comunidade do Brasil, localizada no Rio de Janeiro. A Equipe Nockdown Brasil formou atletas que participaram de competições do esporte fora do país, como Bangkok, na Tailândia.

Mas foi há menos de um mês que Diego resolveu converter sua preocupação com o bem-estar de seus alunos em uma iniciativa de educação financeira, a partir da criação de uma moeda social, usada nas “despesas” das crianças.

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Em entrevista ao Metrópoles, ele explicou que cada criança recebe por mês 1.000 Downs – nome dado à moeda – e utiliza o dinheiro fictício, impresso e personalizado para comprar alimentos no mercado solidário montado pela equipe. “O projeto é como se fosse o primeiro emprego. Eu dou no final do mês um ‘contracheque’ para a criança com o ‘salário mensal’. Divido essa base diária pela quantidade de treinos do mês. Os descontos são as faltas e os atrasos da criança. É como se eu tivesse criado um mundo paralelo, pois tudo no projeto circula em torno da moeda”, disse.

Na tabela de preços do último mercado solidário, o quilo do arroz custava, por exemplo, 50 Downs e o do feijão, 60. Goiabada e kit bucal podiam ser adquiridos por 50 unidades da moeda fictícia. Em meio à pandemia de Covid-19, o álcool em gel saía por 80. Diego ressalta que o preço muda de acordo com a quantidade de moeda que cada criança possui, para que ninguém fique sem produtos.

Preparação para a vida adulta

Casado e pai de três filhos, o professor aposta na dinâmica para mostrar às crianças o que é um vínculo empregatício e prepará-las para a vida adulta. “Hoje, até por conta da internet, elas sabem o preço de tudo, mas não o valor, o sacrifício para se conseguir algo. Para mim, falta isso nas escolas: ensinar a transição entre o adolescente e o adulto. A gente quer colocar na cabeça delas que precisa juntar, guardar, economizar, pois gastar pode fazer falta mais na frente. A criança paga o uniforme novo com o que sobra da moeda fictícia, assim como usa os Downs para entrar nas festas, por exemplo”, contou.

Tudo começou quando Diego Buchecha percebeu que os pequenos frequentavam o projeto não apenas para lutar, mas também para receberem ajuda. Uma vez, uma aluna disse que não queria colocar luvas para o treino. Sem entender, o professor respondeu que ela se machucaria se não usasse o equipamento. Foi quando a conversa tomou um rumo inesperado.

“Ela falou: ‘Tio, mas eu nem gosto de luta, queria fazer balé’. Então eu perguntei por que ela ia para a luta. Ela disse: ‘Porque pelo menos aqui eu como alguma coisa’. Eu fiquei sem palavras”, lembra o mestre de muay thai.

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O professor então resolveu inovar e criar algo que relacionasse o esporte às necessidades vitais dos alunos, como alimentação e saúde. No fim dos treinos, todos recebem jantar e os responsáveis podem levar para casa o que, muitas vezes, é o único alimento da família.

“Quando percebi que era a única ou última opção de uma pessoa, passei a não me ver mais no direito de parar. Eu tenho garotos que são talentosos demais, mas faltam oportunidades. Nas comunidades é assim, e o que vai mostrar aos adultos o que essas crianças vão ser são ações como a minha e as de outras pessoas: cuidar das crianças que elas são hoje”, apontou.

Impacto

Mãe de cinco filhos, Josiane, 46 anos, tem duas crianças matriculadas no projeto: Wellinton, 10 anos, e Wesley Thomal, 8. Uma das principais fontes de renda da família é a venda de latinhas recolhidas ao final de bailes funk na comunidade. Um dos filhos também trabalha como entregador em um restaurante. Paralelamente, Josiane recebe cestas básicas da associação de moradores e do projeto de muay thai.

“O muay thai foi o único esporte que consegui que meus filhos ficassem. Eles adoram. Procuro não deixar que faltem, para eles é maravilhoso. Eles ficam mais educados, mais ágeis. É muito bom para a mente”, disse.

Ana Carla, 37, também tem dois filhos que lutam muay thai com Diego Buchecha. Ela conta que não sabia o que seria da sua vida e de seus filhos, Pedro Henrique, 15, e Guilherme Alves, 9, sem o auxílio do mercado solidário. “Essa ajuda é muito boa, salva muitas famílias. É bom porque meu filho não fica na rua. Entrego panfletos, ganho R$ 20 por dia, o que não é muito”, contou.

Em outra ocasião, a mãe da aluna Alice Cardoso, 9, falou com o mestre Diego Buchecha, chorando, sobre a importância do projeto para ela. Desempregada, a mulher precisa comprar um leite específico para o filho bebê por não conseguir amamentar. O marido também está sem trabalho. “Você não tem noção do quanto você está ajudando a minha família. Hoje, a gente não tinha nada para comer em casa. Eu vou pegar tudo isso e correr para casa para fazer alguma coisa”, disse para Diego, que se emocionou junto com ela.

O projeto, que vive à base de doações, criou uma vaquinha on-line para arrecadar fundos para uma festa de Dia das Crianças, em que os pequenos também usarão a moeda social Down. O link para contribuir é este.

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