Mulheres optam por retirar silicone em movimento pela beleza natural

As próteses para seios seguem em alta, mas cada vez mais mulheres optam por retirá-las pela aceitação do corpo ou problemas na cirurgia

atualizado 17/09/2021 20:02

Arquivo pessoal

Rio de Janeiro – Uma das cirurgias plásticas mais comuns no Brasil, o implante de silicone nos seios soma 220 mil procedimentos por ano, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). Apesar de seguir com grande procura, de uns tempos para cá, o cenário passa por transformações.

Em um movimento pela aceitação do corpo natural e também por causa de complicações nos procedimentos, parte das mulheres optam pelo explante, processo de retirada das próteses. Não há estatísticas precisas no país, porém o assunto se vê cada vez mais em alta. Nos Estados Unidos, para cerca de 313 mil cirurgias do tipo, houve 30 mil explantes, de acordo com dados de 2018 da Sociedade Americana de Cirurgia Plástica (ASPS).

Ganha forma por aqui um movimento de tentar quebrar padrões estéticos, que tanto castigam, principalmente, as mulheres. A saúde e o reconhecimento de todas as belezas são reforçados por uma corrente chamada de body positive. Nas redes sociais, influenciadoras incentivam a mostra de celulites, estriais, gordurinhas, rosto sem maquiagem e por aí vai.

Elas quiseram mudar

Para a modelo e atriz Bruna Alvim, de 38 anos, que vive no Rio de Janeiro, a retirada se explica por um amadurecimento e uma maior autoestima. “Quando coloquei o silicone, há 18 anos, estava muito insatisfeita com o meu corpo e, para certas campanhas – como as de biquínis e de cervejas -, era clara a exigência de peitos grandes. Então, foi uma junção”, disse ao Metrópoles.

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Em 2019, ela conta ter “despertado” após uma série de pesquisas. “Eu olhava e falava: ‘Não preciso mais de um peito falso’. Passei a querer viver do jeito que eu sou. Foi libertador, eu me reencontrei”.

A professora municipal Larissa de Almeida, de 37 anos, que mora no Ceará, também se mostra satisfeita com a decisão. “É importante buscar reconexão com nossa imagem antes das próteses. Vivi 28 anos sem elas. Foi uma tentativa de deixar o corpo mais proporcional na época”,explica.

Cirurgiã plástica e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Anne Karoline Groth observa o reflexo do movimento body positive nos consultórios. “Mais mulheres nos procuraram com intuito de retirar as próteses nos últimos anos”, comenta.

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Beleza nas redes

A blogueira carioca Evelyn Regly teve uma relação complicada com as próteses de silicone e se arrependeu do procedimento. Após a realização da cirurgia em 2017, devido a um erro médico, sofreu com falta de pele para a cicatrização, o que gerou dores e marcas, e seu corpo rejeitou o implante. “Fiquei com vergonha. Eu tinha postado na internet toda minha felicidade, mas me deu força contar o que passei, porque vi que outras pessoas enfrentavam a mesma situação”, lembra.

“Eu não queria colocar silicone, sempre gostei muito do tamanho dos meus peitos, mas eles eram flácidos e, quando precisava fazer fotos para agências, ficava incomodada. As pessoas comentavam”, conta Evelyn.

“Sempre falo para as pessoas aceitarem seus processos, seus caminhos. Leva um tempo para isso acontecer, mas somos iguais e busco trazer isso para a internet. Todo mundo tem sovaco com pelos, espinha é algo normal, ninguém esbanja uma pele perfeita e 100% lisa, só no Photoshop”, afirma.

Para seus 6 milhões de seguidores, a influenciadora busca passar autenticidade. “Costumo dizer que a vida é um feed todo cagado, se fosse aquele feed perfeito e todo arrumado, não estaria certa”, brinca. “As cicatrizes contam a nossa história. Tenho cicatriz de cesárea. Tive três perdas, mas hoje posso contar, graças a Deus, que tenho meu filho. Essa é a minha história”.

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Saúde

Além da questão estética, há relatos de retiradas de próteses por problemas de saúde, como é o caso da professora Larissa de Almeida, administradora do perfil Explante de Silicone, no Instagram.

No total, ela sentiu 23 sintomas dos quais são citados para a “doença do silicone”, entre eles queda de cabelo crônica, problemas reprodutivos, oculares e de pele. Trata-se de uma enfermidade ainda não reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), porém muito levantada por mulheres ao redor do mundo.

O debate sobre o assunto cresceu em 2016, quando a OMS descreveu uma nova doença, um câncer induzido pelo silicone, o linfoma anaplásico de células gigantes associadas ao implante de silicone (BIA-ALCL).

Este é um tipo raro de linfoma diretamente relacionado ao sistema imunológico. Na maioria das situações, o BIA-ALCL se encontra no tecido da cicatriz e no fluido próximo ao implante, mas pode se espalhar pelo corpo.

A cirurgiã Anne Karoline Groth, entretanto, assegura: “Essa é uma doença raríssima, são 733 casos em todo o mundo. Quando analisamos que existe entre 35 e 50 milhões de mulheres com implantes, esse percentual é muito baixo”.

“Sempre houve pacientes com efeitos ruins do silicone, como o encapsulamento e outras questões, mas mal estar e dor nas articulações começamos a ver mais recentemente”, esclarece a médica.

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