Prevent Sênior ocultou número de mortos em estudo sobre cloroquina

Pesquisa foi apoiada por Jair Bolsonaro para defender uso do medicamento, sem comprovação científica contra Covid

atualizado 16/09/2021 10:27

bolsonaro e cloroquinaIgo Estrela/Metrópoles

A operadora de planos de saúde Prevent Sênior ocultou o número de mortes de pacientes que participavam de um estudo sobre a eficácia da hidroxicloroquina, associada à azitromicina, como tratamento à Covid-19. A revelação está em um dossiê destinado à CPI da Covid, ao qual a GloboNews teve acesso.

A pesquisa foi apoiada por Jair Bolsonaro (sem partido) em sua defesa do Kit Covid, cuja ineficácia foi comprovada em diversos estudos.

O dossiê foi elaborado por médicos e ex-médicos da Prevent e há denúncias de que a disseminação da cloroquina e de outros medicamentos foi parte de um acordo com o governo Bolsonaro.

Número de mortes foi o dobro

A pesquisa teve início em 25 de março de 2020 e teve os resultados preliminares divulgados em 15 de abril do mesmo ano.

Por mensagem em aplicativos, o diretor da operadora, Fernando Oikawa, passa informações sobre o estudo e afirma aos subordinados que os pacientes e os familiares não devem saber que a medicação foi utilizada. “Iremos iniciar o protocolo de HIDROXICLOROQUINA + AZITROMICINA. Por favor, NÃO INFORMAR O PACIENTE ou FAMILIAR, (sic) sobre a medicação nem sobre o programa.”

No total, foram nove mortes, sendo seis no grupo que tomou a cloroquina e dois no grupo que não recebeu esse tratamento. Há um paciente cuja informação sobre o protocolo não foi divulgada.

Os pacientes que tomaram a cloroquina e morreram são duas mulheres de 79 e 70 anos e quatro homens de 85, 62, 83 e 82 anos. Já os que não receberam o tratamento e morreram foram uma mulher de 82 anos e um homem de 68 anos. A nona morte, paciente que não sabe-se o tratamento utilizado, foi de um homem de 66 anos.

Entretanto, na primeira versão do artigo, o coordenador do estudo, o cardiologista Rodrigo Esper, diretor da Prevent Senior, afirma que só ocorreram duas mortes. Segundo ele, esses óbitos foram em decorrências de outras doenças, sem relação com a Covid ou com o tratamento.

“Não houve efeitos colaterais graves em pacientes tratados com hidroxicloroquina mais azitromicina. Dois pacientes do grupo de tratamento morreram durante o acompanhamento; a primeira morte foi devido à síndrome coronariana aguda e a segunda morte devido a câncer metastático.”

Entretanto, não há nenhum participante com as doenças mencionadas.

Três dias depois, Bolsonaro publicou em suas redes sociais que houve cinco mortes entre aqueles que não tomaram a medicação e nenhuma entre quem tratou a doença com a cloroquina.

No dia seguinte, Esper enviou um áudio no grupo de pesquisadores do estudo com orientações sobre a revisão dos dados. Ou seja, os números ainda não haviam sido confirmados, mesmo três dias após a divulgação dos resultados.

Na mensagem, Esper ainda cita a postagem de Bolsonaro e afirma que os dados precisam ser “assertivos”, “perfeitos”, para que não haja contestação.

“A gente tá revisando todos os 636 pacientes do estudo. Já tem mais ou menos uns 140 revisados, mas a gente precisa fazer a força-tarefa pra acabar isso amanhã. Só que a gente precisa olhar tudo. Se teve eletro (eletrocardiograma) ou não, se teve alteração no intervalo QT ou não, se fez swab pra Covid sim ou não.” E finaliza: “Esse áudio tem que ficar aqui, não pode sair.”

Dos 636 participantes da pesquisa, apenas 266 fizeram eletrocardiograma, protocolo recomendado para pacientes que usam a cloroquina, pelos risco de problemas cardíacos. Um dos óbitos, um homem de 83 anos, foi uma das pessoas tratadas com a medicação e apresentou arritmia cardíaca, um dos efeitos colaterais possíveis do medicamento.

Além disso, apenas 93 pacientes, ou seja, 14,7% do total, fizeram teste para a Covid. Desses, 62 foram positivos, o equivalente a menos de 10% dos participantes.

O estudo foi submetido à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), que suspendeu o estudo após constatar que o envio ocorreu antes da aprovação legal.

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Número de óbitos pode ser maior

Outra preocupação é que a empresa tenha subnotificado o número de mortes que ocorreram em suas unidades. A deúncia foi feita por uma médica que trabalhou na Prevent.

Em outro áudio, o diretor da operadora informou aos coordenadores das unidades que o código de diagnósticos (CID) dos pacientes positivos para a Covid deveria ser alterado entre 2 e 3 semanas de internação. Oikawa justifica que a medida serve para “identificar os pacientes que já não têm mais necessidade de isolamento”.

Entretanto, segundo a médica, a alteração faz com que o diagnóstico de Covid desapareça caso o paciente venha a morrer. Segundo a reportagem, isso ocorreu em dois casos. Um deles foi de um homem internado em novembro de 2020 em São Paulo. Ele que foi tratado com o protocolo cloroquina + azitromicina e ozonioterapia, terapia que a Prevent não é credenciada a fazer.

O paciente ficou dois meses internado e morreu após ter uma hemorragia digestiva. Apesar da Covid ter desencadeado o quadro, a doença não consta em sua declaração de óbito.

O segundo caso foi de uma paciente que recebeu o Kit Covid, mas seu quadro não melhorou. A doença também não aparece na declaração de óbito.

Prevent ainda indica cloroquina

Mesmo após o Ministério da Saúde ter declarado que a cloroquina não é eficaz contra a Covid, médicos da operadora ainda prescrevem a medicação. A informação foi obtida pela GloboNews a partir da análise da página usada como guia por médicos da área de telemedicina da Prevent.

A página também mostra que a empresa está conduzindo outros dois estudos de medicamentos contra a Covid. Um deles é com a bicalutamida, um inibidor de hormônios masculinos, e outro com a “Pílula do Açaí”.

Prevent Senior nega acusações

Em resposta às denúncias, a Prevent Sênior negou e afirmou que está tomando medidas para investigar quem “está tentando desgastar a imagem” da operadora.

A nota também diz que os médicos sempre tiveram a autonomia respeitada e que “sempre atuou dentro dos parâmetros éticos e legais e, sobretudo, com muito respeito aos beneficiários”.

Sobre os números do estudo, a empresa alega que estão à disposição da comissão. “Todas as dúvidas e questionamentos formulados pela CPI foram devidamente esclarecidos junto às autoridades competentes”.

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