“Preciso trabalhar”: com alta de mortes, grávidas enfrentam a Covid-19

Levantamento aponta que, em 2021, foram registrados 362 óbitos durante 14 semanas epidemiológicas; médicos apontam maiores cuidados

atualizado 24/04/2021 18:06

Vinícius Santa Rosa/Metrópoles

O temor de ser infectado pela Covid-19, que já matou mais de 380 mil pessoas somente em território brasileiro, está causando no pânico entre grávidas e puérperas — mães de recém-nascidos. Levantamento do Observatório Obstétrico Brasileiro Covid-19 (OOBr Covid-19) aponta que, em 2020, 10,5 mulheres desse grupo morreram por semana, chegando a um total de 453 óbitos. Já em 2021, até 10 de abril, a média de falecimentos por semana atingiu 25,8, totalizando 362 perdas.

Segundo o levantamento, houve um aumento de 145,4% na média semanal de 2021 quando comparado com a média do ano passado. Um dos fatores crucias para se considerar o alto número de mortes entre grávidas é o trabalho presencial. Em alguns núcleos, a gestão em home office não é possível.

No último dia 15, o Senado Federal aprovou um projeto de lei (PL) que garante à empregada gestante o afastamento do trabalho presencial durante o período da pandemia sem prejuízo do recebimento do salário. Conforme o projeto, que segue para sanção do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), a funcionária gestante deverá permanecer à disposição do empregador em trabalho remoto.

A realidade, porém, está bem distante do que foi decidido por senadores. Dona de restaurantes, um dos ramos mais afetados pela Covid-19, Ariela Nobre, de 34 anos, (foto em destaque) foi infectada pelo coronavírus aos sete meses de gravidez. Impossibilitada de interromper a jornada de trabalho, única fonte de renda da família, a mãe de Tom Nobre, de três meses, passou por um intenso calvário ao identificar os primeiros sintomas da doença, como dor de cabeça e perda de olfato e paladar.

“Eu não podia ficar em casa, precisei sair para fazer compras, atender clientes, mas tomei todos os cuidados possíveis. Peguei o coronavírus com sete meses, mas graças a Deus apresentei sintomas muito leves, nada que afetasse a mim ou ao bebê. Não recebemos nenhum auxílio do governo. Eu e meu marido trabalhávamos 15 horas por dia. Eu tive o privilégio de ter uma gravidez muito saudável, sempre cuidei da saúde, não senti muito o impacto, mas estava gerando uma vida, dobrei os cuidados”, relata Ariela ao Metrópoles.

A empresária ainda não apresentou o seu filho aos amigos e à família, optou por se isolar com o recém-nascido. Por conta de uma infecção urinária, Tom passou alguns dias internado em um hospital particular. Segundo Ariela, que teve o bebê em casa, ela encarou pela primeira vez no hospital o desespero das pessoas em conseguir leitos: “Durante a internação dele, pude ver o caos, tudo lotado. O medo ainda existe, ainda mais agora que ele está aqui, preciso me preocupar com tudo”.

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A vendedora Fabiola Brandão, de 34 anos, está grávida de sete meses e perdeu seu emprego antes de saber que esperava pelo filho. “Me demitiram em setembro e usaram o argumento que estavam fazendo cortes em várias filiais. Em outubro, descobri a gravidez e a empresa demorou um mês para me responder. Voltei a trabalhar em dezembro, fui muito bem recebida pelas minhas colegas, mas estou enfrentando chateações com a chefia. Precisei devolver minhas verbas rescisórias, até 30% que o empregador pode retirar, e eles estão tirando muito mais que isso do meu salário”.

Segundo Fabiola, que agora está em regime de home office, seu salário diminuiu porque as vendas caíra, afetadas pela pandemia e a crise econômica que assolou o país. “Eu estou apreensiva, fico preocupada por mim, por outras mulheres que estão grávidas. Eu estou tendo o privilégio deles acatarem o meu afastamento. Estou me preocupando, eu moro de aluguel, está comprometendo minha vida financeira, e ainda tem a chegada do bebê”, disse ao Metrópoles.

Perigos, vacina e bebês com anticorpos

O Ministério da Saúde recomendou que mulheres interessadas em ter filhos adiem, se possível, o momento da gravidez, tendo em vista a situação crítica da Covid-19 no Brasil. Já quanto a vacina, que inicialmente não poderia ser utilizada por mulheres grávidas, a pasta ressaltou que gestantes, puérperas e lactantes dos grupos prioritários de vacinação contra a Covid-19 podem ser imunizadas.

Em nota divulgada à imprensa no último dia 16, o ministério diz que as mortes maternas associadas à Covid-19 acontecem com maior frequência no terceiro trimestre da gestação ou no puerpério. O documento também mostra que de 8% a 11% das gestantes e lactantes com Covid-19 precisam de hospitalização, e que de 2% a 5% dessas mulheres usaram atendimento em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Por isso, o ministério orienta que as mulheres desse grupo procurem as unidades de saúde para receber a vacina — desde que tenham comorbidades e façam parte dos grupos prioritários da etapa de vacinação vigente no município de residência.

Segundo o médico ginecologista da Maternidade Brasília Evandro Oliveira, não existe nenhuma comorbidade que impeça uma mulher grávida de receber a vacina. Ele, porém, lembrou que um profissional deve acompanhar e garantir que a paciente não corra riscos. “Os cuidados são os básicos, mas as gestantes precisam de um tempo de repouso maior. Além disso, é imprescindível que elas se alimentem bem, pois a imunidade fica reduzida por conta do parto e da amamentação”, explica Oliveira ao Metrópoles.

No caso de Ariela, por exemplo, que foi infectada com o vírus enquanto estava grávida, Evandro declarou que é necessário uma maior investigação para identificar se há anticorpos no bebê. De acordo com o ginecologista, os estudos sobre crianças que já nascem imunizados são escassos. “As mães que tem seus bebês na fase ativa da doença precisam ser muito bem acompanhadas, assim como os recém-nascidos. Quando o parto acontece nesse momento, precisa ir atrás de saber se ele tem ou não a Covid”, completa.

“Judiciário é a solução”

Mesmo com o projeto de lei aprovado pelo Senado Federal no último dia 15, Fabiola ainda se preocupa com seu emprego e a forma como o seu trabalho vai lidar com as novas regras. Segundo a advogada trabalhista do escritório Ferraz dos Passos Advocacia, Carolina Mori, a melhor forma de se proteger de qualquer medida tomada pelos empregadores é buscando o poder Judiciário, e garante que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) entende a situação crítica e de desigualdade que essas mulheres enfrentam.

“A questão do preconceito é uma coisa antiga e acredito que o projeto de lei não vai trazer mais ônus na contratação. Provavelmente, haverá uma melhora. A forma mais eficaz, entretanto, de garantir os direitos é buscar o judiciário. As decisões nos tribunais podem assegurar às mães o salário e o trabalho”, explica em entrevista ao Metrópoles.

Vale lembrar que, segundo a Lei 9.029/95, é proibido pedir exame de gravidez às mulheres para evitar que sejam discriminadas no momento da contratação. Para Carolina, a disparidade entre gêneros é uma realidade, mas ela acredita que os órgãos previdenciários estão tomando medidas para evitar que mulheres em gravidez de risco se exponham ao perigo.

“Estou torcendo que essa lei seja aprovada por todos os setores cabíveis. Se vier a findar, eu me preocupo pela vida do meu filho e de quem não pode se precaver”.

Fabiola Brandão, vendedora

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