Poupança: uma longa história de confiança com ganhos cada vez menores

Mais de 150 anos após sua criação, a caderneta atinge seu rendimento nominal mais baixo, mas continua atrativa

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atualizado 24/09/2019 16:22

A taxa Selic, que baliza a trajetória de juros no Brasil, foi reduzida – pela primeira vez na história – para abaixo de 6% ao ano pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, na quarta-feira (18/09/2019). Em outubro de 2016, há exatos três anos, o BC deu início a uma sequência de 12 cortes, que baixaram a taxa de 14,25% para 5,5%, e o boletim Relatório de Mercado Focus, publicado pelo Banco Central do Brasil nesta segunda-feira (23/09/2019), indica que, segundo as cinco instituições financeiras que mais acertam suas previsões, a trajetória ainda não está encerrada e a Selic deve terminar o ano em 4,75 %. Do lado dos devedores, porém, há pouco a comemorar. Os juros do cartão de crédito, modalidade usada por 77% dos brasileiros no último ano, ainda se mantém perto dos 300% ao ano.

Enquanto o devedor espera uma melhora, o poupador vê com preocupação a taxa de juros se desidratar, porque o rendimento da tradicional caderneta de poupança está atrelada à Selic desde 2012. Durante 151 anos, o número mágico de rendimento de 6% estava prevista em lei. Somado a isso, nas épocas de inflação alta, havia também a correção monetária, que pretendia atualizar o poder de compra dos poupadores. No segundo ano do governo de Dilma Rousseff, porém, as regras mudaram. Saiu o rendimento fixo, e entraram variáveis. Quando a Selic for igual ou inferior a 8,5% ao ano, a poupança passa a render 70% da taxa, mais a variação da Taxa Referencial (TR).

A mudanças nas regras, no entanto, não afugentou aqueles que buscam ter os seus bens guardados. Apesar dos números mostrarem retornos cada vez menores, algumas vezes praticamente nulos, o saldo foi crescendo, com exceção aos períodos de recessão.

Em 2013, primeiro ano de remuneração inferior a 6% (5,67%), a caderneta bateu seu recorde histórico de captação líquida: a diferença entre depósitos e saques foi positiva em R$ 71,05 bilhões. Em 2014, os resultados foram inferiores, mas ainda no campo positivo: R$ 24,03 bilhões. No ano seguinte, em meio à recessão, os poupadores mais usaram que aumentaram as suas reservas, e o saldo foi negativo em R$ 53,57 bilhões. Com a continuidade da recessão em 2016, novamente o saldo foi negativo, dessa vez em R$ 40,7 bilhões. A recuperação começou em 2017, quando um saldo positivo ainda tímido de R$ 17,13 bilhões foi registrado. No ano passado, os números foram melhores: R$ 38,26 bilhões. Dessa forma, o saldo total de depósitos em poupanças bateu recorde histórico e o Brasil registrou R$ 797 bilhões em reservas.

Com a queda nas expectativas econômicas em 2019, cujo crescimento previsto iniciou o ano próximo a 2% e já está abaixo de 1%, a captação voltou ao campo negativo em R$ 7,90 bilhões. O resultado, na visão de analistas, não se deve ao baixo rendimento do investimento tradicional, mas sim a componentes macroeconômicos. Com a Selic a 5,5% ao ano, a poupança deve render, em 2019, apenas 3,85%. Mesmo sem desconto de qualquer imposto ou taxa, o número é certamente menos atraente que os 6% que antes eram definidos por lei. O movimento que ocorre é que, hoje em dia, ofertas de outras aplicações florescem nas telas dos smartphones e nas redes sociais com promessas de ganhos bem maiores. Então o que ainda leva os donos das 62,6 milhões de contas (85 % dos investidores, cerca de 40 % do dinheiro depositado em todas as aplicações) a preferir a caderneta de poupança?

Confiança mais importante que rendimento
Existiram, e ainda existem, diferentes formas de poupar dinheiro. Dentro do colchão, num buraco no jardim, debaixo do piso de tacos ou no pé de uma meia. Poupança, em inglês, é chamado de “saving account”, o que quer dizer, basicamente, “conta para salvar”. Seja dos furtos ou dos coletores de impostos. À medida que a expectativa de vida foi aumentando, as pessoas começaram a pensar no futuro. E a encarar a poupança como uma reserva, uma espécie de seguro contra as incertezas da vida. Mais do que rendimento, os poupadores procuram um lugar confiável, onde tenham certeza de que irão encontrar seu dinheirinho quando precisarem. Antes mesmo dos bancos se firmarem na praça financeira, foram os estados que colocaram seus cofres à disposição dos precavidos.

A França foi precursora no sistema já em 1818. A “Caisse d´Epargne” (Caixa de Poupança) tinha por ambição “iniciar o povo ao bom-uso do dinheiro”, além de ter uma ambição social de melhora de vida dos poupadores. Os depósitos eram abertos a todos, sem distinção de sexo, idade ou condição social. O rendimento não era elevado, mas o tesouro nacional dava sua garantia na hora do saque. E não cobrava nenhum imposto. A caderneta tinha nascido com planos de futuro, seja para adquirir um bem ou transferir capital aos filhos. O símbolo escolhido foi um esquilo, conhecido nas florestas por fazer reserva de nozes antes dos invernos gelados.

Não se sabe se D. Pedro II, em 1861, se inspirou no modelo francês quando decretou a criação da “Caixa Econômica e Monte de Socorro”, mas o espirito era o mesmo. O Imperador escreveu com todas as letras que a conta-poupança “tinha por fim receber as pequenas economias das classes menos abastadas”. E também estava a salvo das garras do Leão. Dez anos depois, novo passo, desta vez uma pequena revolução. Antes de embarcar para uma longa viagem à Europa, D. Pedro II deixa assinadas a Lei do Ventre Livre, e outra que autorizava os escravos a depositar dinheiro na poupança por meio de doações, herança ou renda.

A primeira finalidade da poupança, tanto a francesa quanto a brasileira, era de fornecer os fundos necessários aos empréstimos dos Montes de Socorro, as casas de penhor que guardavam em garantia os mais diversos objetos. Os mais valiosos eram pendurados nos lugares mais altos para atiçar o interesse dos compradores em leilão. É desta prática que vieram as expressões “pôr no prego” e “pregão”. Os franceses foram os primeiros a destinar especificamente recursos da poupança para desenvolvimento urbano, os brasileiros seguiram o caminho em 1934. Trinta anos depois, a instituição do Sistema Financeiro de Habitação (SFH) tornava a Caixa Econômica Federal o principal financiador da construção de moradias e de saneamento básico.

Outros sobressaltos 
Os poupadores já foram escaldados num passado recente. Em 16 de março de 1990, o então recém-empossado presidente da República, Fernando Collor, anunciou o impensável: os saldos de todas as contas acima de Cr$ 50 mil (algo em torno de 5 a 6 mil reais de 2019) estão congelados. O episódio continua traumático até os dias de hoje, mas após um período de desconfiança, os depósitos voltaram às cadernetas. Não é um reflexo só brasileiro. O mundo da finança encontra-se num ambiente jamais visto, o dos juros negativos. O Brasil consta no ranking dos juros reais (Selic menos inflação) com 1,65 % ao ano, mas ainda na oitava posição (atrás de países que atravessam crises como Argentina e Turquia) porque todas as maiores economias do globo hoje estão no campo negativo.

A caderneta francesa oferece 0,75 % de rendimento ao ano, ante uma inflação de cerca 1,15 %. No Brasil, o campo ainda é positivo, com a remuneração da poupança em 3,85 % e o IPCA em 3,43 % nos últimos 12 meses. Um ganho de 0,42 %, ou seja 42 centavos no fim do ano para quem depositou R$ 100,00. Parece muito pouco, e é provável que até o fim do ano o ganho chegue a zero. Mesmo assim, a previsão da Caixa é bater mais uma vez o recorde histórico no fim do ano, acumulando R$ 830 bilhões.

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