Vacinação infantil “não é ponto que vai nos afastar”, diz Bolsonaro

O tom ameno de Bolsonaro em relação à vacina para crianças veio dois dias após resposta de Barra Torres a acusações feitas pelo mandatário

atualizado 10/01/2022 15:38

Reprodução

Depois de acusar a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de ter algum interesse escuso na aprovação da vacina contra a Covid-19 para crianças de 5 a 11 anos, o presidente Jair Bolsonaro (PL) amenizou o tom e disse que o tema não é motivo para “intriga” ou “afastamento” entre ele e a população brasileira. A fala foi feita em entrevista à Rádio Sarandi 1310 AM, na manhã desta segunda-feira (10/1).

“O Brasil é de todos nós, para quem tomou vacina e quem não tomou. A vacina não é um ponto de intriga e de afastamento entre eu e a população brasileira. Fizemos a nossa parte e isso tá em voga ainda. Muitas campanhas por aí nesse sentido. Temos agora o problema da vacinação de crianças de 5 a 11 anos de idade, onde já dei minha opinião, né. Eu não vou vacinar minha filha e se você quiser vacinar seu filho, é um direito teu”, disse o mandatário.

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Citando um suposto estudo do Rio Grande do Sul, Bolsonaro voltou a colocar em dúvida a eficácia do imunizante e a dizer, sem provas, que os menores de idade não morreram nem morrem em razão do vírus.

“As crianças não estão sujeitas, elas podem contrair o vírus, sim, mas praticamente não sentem e [a chance de] ir a óbito é quase zero. Vacinar o filho ou não é direito dele. A Pfizer não se responsabiliza pelos efeitos colaterais, mas não podemos fazer disso uma luta entre o presidente e os eleitores. A gente ainda tem liberdade pra decidir o futuro dos seus filhos”, salientou Bolsonaro.

“Nós conseguimos fazer com que, por ocasião da vacinação, quem for aplicar vacina nos filhos, diga todos os efeitos colaterais e você decide se vai vacinar ou não e, repito, não é esse o ponto que vai nos afastar. Vivemos numa democracia ainda e a liberdade é o bem maior que todos nós podemos gozar no Brasil”, concluiu.

Ao contrário das afirmações de Bolsonaro, o Brasil registrou 301 mortes de crianças entre 5 e 11 anos em decorrência do coronavírus desde o início da pandemia até o dia 6 de dezembro de 2021. Isso correspondeu a 14,3 mortes por mês, ou uma a cada dois dias, segundo dados da Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização da Covid-19.

Os dados também mostram que 2.978 crianças receberam diagnóstico de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por Covid-19, com 156 mortes, em 2020.

Bolsonaro x Barra Torres

A aprovação da vacinação de crianças da faixa etária de 5 a 11 anos virou um embate entre o presidente da República e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão técnico responsável pelo assessoramento e aconselhamento ao Ministério da Saúde. Isso porque a agência virou alvo de ameaças depois que Bolsonaro foi contra a aprovação do imunizante aos pequenos.

Bolsonaro chegou a dizer que iria divulgar o nome dos diretores responsáveis pela aprovação da vacina, que a agência teria “virado outro Poder” e que estaria agindo como “dona da verdade”. Na última investida contra a Anvisa, o mandatário insinuou que o órgão teria algum interesse na aprovação da vacina.

“Você pai e você mãe, vejam os possíveis efeitos colaterais. A própria Pfizer diz que outros possíveis efeitos colaterais podem acontecer a partir de 22, 23 ou 24 anos. E você vai vacinar teu filho contra algo que o jovem, por si só, uma vez pegando o vírus, a possibilidade dele morrer é quase zero?”, disse o titular do Palácio do Planalto, sem apresentar provas, em entrevista à Rádio Nova FM, de Pernambuco.

“O que está por trás disso? Qual o interesse da Anvisa por trás disso aí? Qual o interesse daquelas pessoas taradas por vacina? É pela sua vida, pela sua saúde?”, continuou o chefe do Executivo federal.

A fala de Bolsonaro fez com que o diretor-presidente da Anvisa, o almirante Barra Torres, nomeado por Bolsonaro, reagisse às provocações.

“Se o senhor dispõe de informações que levantem o menor indício de corrupção sobre este brasileiro, não perca tempo nem prevarique, senhor presidente. Determine imediata investigação policial sobre a minha pessoa, aliás, sobre qualquer um que trabalhe hoje na Anvisa, que com orgulho eu tenho o privilégio de integrar. Agora, se o senhor não possui tais informações ou indícios, exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate”, cobrou Barra Torres.

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