Senador pego com dinheiro nas nádegas esteve ao menos 8 vezes com Bolsonaro

Chico Rodrigues (DEM) tinha ótimo trânsito no Palácio do Planalto, com o presidente e com assessores graduados

atualizado 16/10/2020 19:06

Senador Chico Rodrigues durante conversa com jornalistasMyke sena/Especial Metrópoles

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ex-vice-líder do governo no Senado, Chico Rodrigues (DEM-RR), se encontraram ao menos oito vezes em reuniões oficiais no Palácio do Planalto desde que o atual mandatário assumiu a presidência da República. Os dois também se encontraram em outras duas ocasiões, de maneira virtual.

Depois de o senador ter sido flagrado com dinheiro na cueca e entre as nádegas, Bolsonaro adotou postura de distanciamento do parlamentar, mas declarações públicas e os registros na agenda mostram proximidade entre os dois.

Na maioria dos compromissos de Chico Rodrigues no Planalto, a reunião era acompanhada pelo ministro da Secretaria de Governo, mas o senador tratou diretamente com Bolsonaro, a sós, em duas ocasiões. Uma delas ocorreu em 10 de julho de 2019, data em que o chefe do Executivo teve intensa agenda com ministros, representantes de igrejas e parlamentares.

A outra agenda a sós foi em 5 de novembro de 2019, dia em que o governo comemorava a marca dos 300 dias. Naquela data, Bolsonaro recebeu o senador após a 22ª reunião do Conselho de Governo.

Quando não era recebido pelo presidente em pessoa, o bom trânsito do senador no Palácio do Planalto garantia ser atendido por assessores do alto escalão e pelo vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB). Por ter sido eleito por um dos estados que compõe a Amazônia Legal, Chico Rodrigues chegou a tratar da situação do bioma em Roraima com Mourão, que preside o Conselho Nacional da Amazônia.

Ele também já levou ao Planalto a situação dos imigrantes venezuelanos em seu estado e chegou a propor um campo de refugiados, ideia que não prosperou.

Bolsonaro passou a ser alvo de críticas após o senador ter sido flagrado com dinheiro entre as nádegas. Viralizou na internet o vídeo em que o presidente diz ter “quase uma união estável” com o ex-vice-líder de seu governo. Assista:

“Quero agradecer ao meu amigo Jair Bolsonaro, de 20 anos de Câmara dos Deputados”, diz Rodrigues no vídeo. “É quase uma união estável”, responde Bolsonaro.

O senador continua: “Ficamos muito felizes com seu patriotismo, sua luta em defesa do Brasil, dos princípios e valores da família”, elogia. “Você tá absorvendo sentimento de uma retomada da moralidade”, completa.

Escândalo

No dia seguinte à operação que flagrou o senador com dinheiro na cueca, Bolsonaro fez questão de desvencilhar o governo do escândalo e se disse “orgulhoso” da operação que resultou na apreensão de R$ 33 mil escondidos na roupa íntima, após delegado desconfiar de “volume na parte traseira”.

Rodrigues foi afastado do cargo por 90 dias, por decisão do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF). A execução da medida depende de posição do Senado.

O parlamentar está na mira da Operação Desvid-19, da PF e da Controladoria-Geral da União (CGU), que investiga um esquema de desvio de aproximadamente R$ 20 milhões em emendas parlamentares destinados à Secretaria de Saúde de Roraima para o combate da Covid-19. Ao todo, foram cumpridos sete mandados de busca e apreensão.

“A operação de ontem [quarta-feira] é fator de orgulho para meu governo, para meu ministro Wagner Rosário [da Controladoria-Geral da União] e para a nossa PF”, disse.

0

“Parte da imprensa me acusando do cara (sic) ser meu amigo, [que] eu coloquei como vice-líder e que eu não combato a corrupção. Vamos deixar bem claro, essa operação da PF de ontem, como metade das operações, foi em conjunto com a CGU (Controladoria-Geral da União). Ou seja, nós estamos combatendo a corrupção, não interessa quem seja a pessoa suspeita”, disse o presidente a apoiadores.

Sobrinho de Bolsonaro

Primo dos filhos de Bolsonaro, Leonardo Rodrigues de Jesus, o Léo Índio, era assessor do senador do DEM. Ele trabalhava para o político roraimense, até então líder do governo Bolsonaro, desde abril do ano passado, com remuneração mensal de R$ 22.943,73, segundo dados de setembro deste ano publicados pelo Senado Federal.

Após pressão interna, Léo Índio pediu exoneração do gabinete do parlamentar. O pedido foi feito na tarde de quinta-feira (15/10). Ele havia sido aconselhado por apoiadores do governo Bolsonaro a pedir exoneração.

Léo é filho de Rosemeire Nantes Braga Rodrigues, irmã de Rogéria Nantes, ex-mulher de Jair Bolsonaro e mãe do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), do vereador do Rio Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ).

Nota ao Senado

Chico Rodrigues enviou uma correspondência ao líder do governo no Senado, Fernando Bezerra (MDB-PE), na qual alegava inocência. A Bezerra, Rodrigues pediu para deixar a vaga de vice-líder do governo Bolsonaro “para aclarar os fatos e trazer à tona a verdade”.

“Acreditando na verdade, estou confiante na Justiça. E digo que logo tudo será esclarecido e provarei que nada tenho haver (sic) com qualquer ato ilícito de qualquer natureza”, justificou.

Ainda ao longo da nota, o senador disse que “acredita nas diretrizes do grande líder e presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro”.

Últimas notícias