Santos Cruz: general defende apuração de “assassinatos de reputações”

Ex-ministro de Bolsonaro, general quer investigação sobre uso da comunicação do Planalto no esquema e vê Forças Armadas longe de golpe

Myke Sena/Esp. para o MetrópolesMyke Sena/Esp. para o Metrópoles

atualizado 29/05/2020 9:54

Em meio a um cenário de ameaças de “ruptura” e de “medidas enérgicas” a serem tomadas pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, o ex-ministro do governo e general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz criticou a postura de integrantes do governo e do deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, que apontam para uma possível participação das Forças Armadas em um golpe contra as instituições.

Ele negou que os militares estejam envolvidos em algo do tipo. O general também deixou claro que desaprova a atuação de aliados de Bolsonaro – e chega a citar a comunicação do palácio – no ato de “fazer calúnia, injúria, difamação” e na participação em “assassinatos de reputações”.

Para Santos Cruz, quem acha que as tropas dariam apoio a uma ruptura democrática hoje, ou não conhece as forças, ou usa, de propósito, o prestígio das instituições militares. “Essa é minha impressão, com a experiência de 47 anos de Exército, conhecendo as pessoas, a formação das pessoas. Eu acho que quem fala isso está querendo usar indevidamente a imagem das Forças Armadas. Nos últimos anos, passamos por várias crises, passamos por dois presidentes depostos por impeachment, governos de diferentes naturezas, com diferentes formações ideológicas, e as Forças Armadas mantiveram seu alto prestígio exatamente por não se envolverem em coisa de governo. Ou é uma visão distorcida ou é proposital”, disse o general, em entrevista ao Metrópoles.

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) falou várias vezes em ruptura institucional em transmissão pela internet na noite desta quarta-feira (27/05). “O problema não é mais se, mas quando [haverá uma ruptura]”, disse o filho do presidente da República. Para ele, o inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) que investiga o financiamento a uma rede de notícias falsas e ameaças a autoridades, que hoje teve uma operação mirando influenciadores bolsonaristas, é ilegal e seus responsáveis precisam ser punidos.

Para Santos Cruz, as Forças Armadas não estariam com o governo ou com o presidente na situação citada pelo filho do presidente. “Em 1964 era uma outra situação. Foi 56 anos atrás. Era um outro mundo. Havia a Guerra Fria, havia realmente uma disputa de leste e oeste, tinha-se um bloco de países ocidentais e outro de países comunistas. A revolução comunista internacional estava em pleno andamento, treinando gente, exportando revolução. É outro mundo. Hoje, não. Você tem os três Poderes aí, tem um Congresso eleito, um presidente eleito. O que impede o funcionamento? O que impede o funcionamento são acertos pessoais. Eles que sentem na mesa e resolvam, pô. Fecha a porta e discute. Só isso”, aconselhou o general, que cobrou do governo uma “discussão de alto nível”.

“Ter desavenças, ter discordância, ou dizer que um Poder está ultrapassando o limite do outro. É preciso acertar essa independência aí, onde é que está o limite de cada um. Ver o que é ser independente. Isso é uma discussão de alto nível”, disse o general.

Santos Cruz evitou nominar, mas criticou a postura de militares com cargo no governo, que, para ele, não teriam força para mobilizar a tropa. “General no governo está em função civil, não tem nenhuma representatividade institucional. Quem comanda uma força militar é o seu comandante. Forças Armadas não têm nada a ver com isso”, disse.

Para o general, a sequência de ameaças feitas ao longo do mandato do presidente só serve para gerar insegurança e deteriorar a imagem o Brasil no mundo. “É claro que essas ameaças atrapalham o funcionamento do país, deixam as pessoas apreensivas, produzem insegurança, formam uma imagem internacional ruim”, disse o general.

Fake news
O general reprova a tentativa por parte do governo de se criar uma crise institucional, principalmente após as ações de busca e apreensão realizadas pela Polícia Federal contra o chamado “gabinete do ódio”. A ação, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), abordou empresários, blogueiros, apoiadores e aliados do presidente Jair Bolsonaro, que tiveram celulares e computadores apreendidos.

“Se a investigação está certa ou errada, não vou entrar nessa. O que eu acho que está errado é usar os recursos de comunicação para fazer calúnia, injúria, difamação. Achar que o Código Penal foi anulado e que vale tudo. Não vale tudo, não. Não se pode pegar e fazer coisas falsas, com perfil falso, deteriorar a imagem das pessoas, ter desrespeito total às pessoas, assassinatos de reputações. É isso. Agora, a forma de como fazer isso eu não vou discutir se é essa ou se poderia ser diferente”, disse o general.

Pela manhã, Bolsonaro xingou e disse que tudo tem limite e que “ontem foi o último dia triste”, referindo-se à operação e à sua relação com o Judiciário. “Peço a Deus que ilumine as poucas pessoas que ousam se julgar mais poderosas que outras que se coloquem no seu devido lugar, que respeitamos. E dizer mais: não podemos falar em democracia sem Judiciário independente, Legislativo independente para que possam tomar decisões. Não monocraticamente, mas de modo que seja ouvido o colegiado. Acabou, porra!”, gritou o presidente.

Para o general, a tentativa de se provocar uma crise institucional é uma postura que atenta contra a Constituição Federal. “Procurar a harmonia entre os Poderes é uma obrigação de todos. Isso está na Constituição. O funcionamento harmônico é constitucional e é uma obrigação de todo mundo. Todo mundo que está exaltado e que tem suas diferenças tem que saber que é uma obrigação procurar uma harmonia. Não vou falar do presidente, personificar a coisa. Mas todo mundo que está envolvido, que tem suas obrigações legais, tem essa obrigação. Não é só ele. Todo mundo”, enfatizou.

Cloroquina
Santos Cruz reclamou sobre a condução do presidente em relação à pandemia do coronavírus. “Infelizmente, foi tudo politizado. Até o medicamento foi politizado. Uma coisa horrível”, disse. “O mundo inteiro está correndo atrás de medicamentos, fazendo testes, vacinas. Trata-se de um problema muito complicado”, ressaltou.

“Quando começou a pandemia do coronavírus, em primeiro lugar, tinha que ter havido a união nacional, do presidente com os governadores, independentemente de diferença ideológica, partidária de interesse político. Até resolver esse problema do coronavírus, se esquecia essa disputa, para resolver um problema maior, tanto do ponto de vista da saúde quando do ponto de vista econômico. A bomba agora está estourando em cima dos mais necessitados”, destacou. “O congresso fez sua parte autorizando abrir o limite de despesas. Fez o que podia fazer, dando liberdade para o Executivo fazer outras despesas”, elogiou.

Ele apontou que essa união devia partir primeiro do presidente Jair Bolsonaro. “Acho que essa liderança teria que partir de cima, porque é um caso de união nacional. Tinha que partir do governo central. Mas aí teve briga interna no próprio governo, no Ministério da Saúde. Isso não ajudou”, avaliou.

O general alerta que o governo tem outra oportunidade de conduzir a saída da pandemia com mais assertividade,  no entanto, não pode, em sua opinião, continuar criando novas crises. “Agora, tem mais uma oportunidade, que é o retorno das atividades econômicas. O governo até está fazendo alguma coisa com a liberação de recursos para os mais necessitados. Mas, isso aí, com mais paz e com mais liderança, com mais harmonia, seria mais fácil talvez atrair investimentos.”

 

0

Últimas notícias