Líderes estudantis e juventudes partidárias insistem em frente ampla
Caciques de partidos políticos resistem a sentar-se à mesa em prol de unidade contra Bolsonaro, e mantêm frente ampla apenas no discurso

Apesar das divergências entre lideranças políticas e da dificuldade de setores ditos “progressistas” para sentarem-se à mesa com forças de direita, a frente ampla segue viva para lideranças estudantis e juventudes de partidos políticos do centro e da esquerda. A ideia da composição é não apenas derrotar Jair Bolsonaro (sem partido) no pleito de 2022, mas também ajudar a viabilizar o afastamento do presidente do cargo no pouco mais de um ano que resta do atual mandato.
A frente ampla, ideia concebida em meio à pandemia de Covid-19 ante a atuação negativa do presidente na crise sanitária, foi ficando pelo caminho. Hoje, já há pulverização de pré-candidaturas ao Palácio do Planalto, com ao menos 11 nomes colocados para a disputa.
Apesar do cenário pouco propício, a União Nacional dos Estudantes (UNE), que representa estudantes do ensino superior, e a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) defendem que a frente ampla ainda pode se tornar realidade. Sob o comando de duas mulheres negras e de esquerda, UNE e Ubes se unem às juventudes de partidos como PT, PSol, PV, Cidadania, PSB e PDT na defesa de uma conjunção de forças para derrotar o bolsonarismo.
Presidindo a UNE desde julho de 2021, a manauara Bruna Brelaz, de 26 anos, defende a luta constante pelo “Fora, Bolsonaro” e diz que seria irresponsabilidade do movimento social e das instituições descartar o impeachment em prol de um pragmatismo eleitoral.
“Nós estamos correndo risco de deixar Bolsonaro para 2022”, alerta Bruna Brelaz em entrevista ao Metrópoles. Na visão dela, a frente ampla não necessariamente se traduz em projetos político-eleitorais, mas a antecipação do debate eleitoral prejudica articulações para tirar Bolsonaro do poder antes das eleições.
Desde que assumiu a presidência da entidade estudantil, Bruna já dividiu palanque com vozes de direita e se reuniu com os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB), além de com os ex-ministros Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede).
“Todo e qualquer debate que esvazie o campo de Bolsonaro e fortaleça um campo de debate, de pressão e denúncia pelo ‘Fora, Bolsonaro’ é importante, até com aqueles de quem a gente diverge profundamente”, afirmou, ao ser questionada sobre participação no ato contra Bolsonaro do último dia 12 de setembro, convocado pelas organizações de direita Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem Pra Rua.
A presidente da Ubes, Rozana Barroso, 22 anos, afirma que todos os esforços de aglutinação possíveis têm sido feitos no sentido de lutar contra o “inimigo em comum”. “É muito importante que a gente possa entender que neste momento nós temos um inimigo em comum. Eu tenho muito orgulho de discordar de muitos setores. Eu me orgulho de discordar do MBL. É por esse orgulho de discordar que eu defendo que a gente possa lutar pela democracia neste momento. O ‘Fora, Bolsonaro’ é uma questão de democracia”, diz Rozana.
“Quando a gente fala de frente ampla, nós estamos falando do nosso direito de discordar.”
Rozana, porém, cita brigas de ego entre lideranças partidárias. “Tem sido difícil, algumas relações parecem até que é dar murro em ponto de faca, mas a gente não tem desistido”, diz ela. “Infelizmente muitos dos líderes partidários têm dificuldade de entender este momento, mas nós precisamos deixar para trás esse nosso ego, entender que a coisa mais urgente nesse momento do Brasil é salvar a vida do povo que tem morrido de fome e do coronavírus, e sem educação.”
Rozana está no comando da entidade representativa dos estudantes secundaristas desde maio de 2020, e, assim como Bruna Brelaz, também é filiada ao PCdoB, partido que domina as organizações estudantis há décadas.
Seguindo a linha do movimento estudantil, as juventudes partidárias defendem a unificação do campo progressista, mas avaliam que existe um conflito geracional que impede o debate de seguir. “Existe um conflito geracional nessa discussão, porque nós mais jovens não temos como nos colocar no lugar dos mais velhos, que tiveram seus conflitos, suas frustrações, dificuldades e rompimentos na política no passado”, analisa Caio Leal, porta-voz da Rede-DF e dirigente na juventude nacional da sigla.
Ao mesmo tempo, o representante da Rede entende que passos importantes de unificação foram dados com o superpedido de impeachment e com manifestações convocadas recentemente. “A juventude tem empurrado, mas a gente precisa também que as lideranças que estão legitimamente há mais tempo no debate público dialoguem.”
Caio Leal defende que, para ser efetivada, a frente ampla deve ser buscada na prática, não só no discurso. “São as pré-candidaturas que têm que se apresentar aos partidos, estamos abertos ao diálogo naturalmente.” Ele cita exemplos de união em torno de um projeto eleitoral nas eleições de 2020, para as prefeituras de Florianópolis (SC) e Belém (PA).
Entre parte dos interessados na frente ampla, as críticas ao PT seguem. O PDT, por exemplo, coloca Lula e Bolsonaro como opostos correspondentes.
Felipe Carlos, presidente estadual da juventude do Cidadania no Rio de Janeiro, pondera que as críticas à atuação do PT não inviabilizam que ele integre a frente.
“O projeto do PT não tem dialogado tanto com essas iniciativas comuns de várias legendas de atuarem em conjunto. Agora, o PT, para nós, para aqueles que estão construindo a frente ampla, é extremamente bem-vindo, e a opinião do Cidadania é essa: o PT é bem-vindo nessa construção, ele deveria estar nela conosco, porque evidentemente ele representa uma parcela da população”, defende Carlos. “São lamentáveis algumas situações em que o partido tenha preferido não participar tão ativamente por uma questão de protagonismo.”
Apesar de seguir a linha de que a terceira via tem grandes chances de ser viabilizada e de acreditar que Bolsonaro pode ficar de fora do segundo turno, ele afirma que a juventude da sigla não vê Lula e Bolsonaro como equivalentes. “Ainda que fosse para fazer um apoio crítico que levasse a uma oposição a qualquer um dos dois que se eleja, o apoio crítico seria no Lula”, responde ele ao ser questionado sobre a posição em um eventual segundo turno entre Lula e Bolsonaro.
E na direita?
Emmanuel Luiz, da juventude do PDT no Distrito Federal, entende que a frente ampla precisa incluir também a centro-direita e a direita. “A gente fala nessa frente ampla não só pelo campo da esquerda, a gente conversa com aqueles que querem discutir um projeto de nação.”
Além do movimento estudantil, formado majoritariamente por segmentos da esquerda e dominado por partidos do campo, a frente ampla também passou pelo radar de partidos e organizações de direita. No entanto, a insistência na bandeira do “Nem Lula, nem Bolsonaro” dificulta a conjunção de forças.
A bandeira anti-Lula e anti-Bolsonaro foi um dos fatores que esvaziou o ato de setembro. Na ocasião, um boneco inflável de Lula em trajes de presidiário, o pixuleco, foi exibido na Avenida Paulista e irritou deputados e ativistas de esquerda.
Juventudes de partidos de direita, como PSD, PSDB, Podemos e Avante, também marcaram presença nos atos pelo impeachment de Bolsonaro, mesmo sem uma posição institucional das direções.
Fogo amigo
As duas líderes estudantis e os representantes das juventudes partidárias participaram do ato pró-impeachment em 12 de setembro e sofreram ataques de setores da própria esquerda, contrários à divisão de palanques com movimentos que impulsionaram o impeachment de Dilma Rousseff (PT) em 2016. A participação no ato causou rechas em partidos como o PSol.
Bruna Brelaz, por exemplo, foi alvo de ataques racistas e machistas por ter subido no carro de som do MBL para discursar. “É muito triste eu ter que gastar energia, gastar a energia que a gente está empenhando para construir a luta pela educação, para construir o debate pelo enfrentamento do governo Bolsonaro respondendo ataques de ódio”, critica ela. Bruna é a primeira mulher negra e do Norte na presidência da UNE.
Além dela, o presidenciável Ciro Gomes também foi alvo de hostilidades e precisou sair da Avenida Paulista escoltado. “Isso só mostra que a gente tem dos dois lados extremismos. E não são nenhum desses dois que são os caminhos que a gente precisa seguir para o país funcionar”, alega o presidente da juventude do Cidadania-RJ, Felipe Carlos.
Os ataques, na visão desse grupo, desfocam a atuação da pauta comum. “Quando a gente começa a fazer um campo de batalha entre nós mesmos e não conseguimos respeitar a nossa diferença e, mais do que isso, partimos para o preconceito, para a violência, a gente tira o foco do nosso inimigo comum, que é o Bolsonaro”, pontua Rozana, da Ubes.
Vítima do fogo amigo, Bruna Brelaz rechaça a ideia de que os ataques da esquerda correspondam aos disparados pela rede bolsonarista, mas defende a desmobilização do que ela chama de “rede de ódio” e que é disparada a mulheres como Tabata Amaral (PSB-SP), Manuela D’Ávila (PCdoB-RS), Isa Penna (PSol-SP) e Marina Silva (Rede-AC).
“A rede bolsonarista é incomparável, porque ela é muito bem estruturada financeiramente, ela tem um suporte”, diz Bruna. “[Mas] Se existe algum campo da esquerda que constrói essa rede de ódio, a gente precisa combater também.”
















