Em guerra com a Netflix, Damares já comprou briga com Frozen e Bob Esponja

Nos últimos anos, ela vem usando lives e entrevistas para questionar o enredo de vários clássicos infantis

atualizado 22/09/2020 8:26

Andre Borges/Esp. Metrópoles

A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), Damares Alves, abriu fogo contra a Netflix por causa do filme Mignonnes (Lindinhas, na versão em português), uma produção franco-senegalesa acusada pela ministra de sexualizar crianças.

Em ofício encaminhado à Comissão Permanente da Infância e Juventude, ao qual o Metrópoles teve acesso na segunda-feira (21/9), o ministério pede a suspensão da oferta do longa no Brasil como também que seja apurada a responsabilidade pela distribuição do filme, considerado “pornográfico” por Damares.

Mas a briga de Damares com produções audiovisuais infantis não é de hoje. Desde quando tomou posse, a ministra se manifesta publicamente contra longas e desenhos animados clássicos.

Nos últimos anos, ela vem usando lives e entrevistas para questionar o enredo de algumas histórias. Normalmente, as críticas aparecem acompanhadas de comentários preconceituosos sobre questões de gênero e sexualidade. “Eu fui menina, eu sonhei em ser princesa. Eu sonhei com meu príncipe encantado. A gente está abrindo uma brecha na cabecinha da menina de 3 anos para sonhar com princesa. Isso aqui é indução”, disse Damares sobre o filme Frozen 2, que conta a história de duas irmãs.

Confira uma lista com os personagens mais criticados pela ministra:

Bob Esponja

Damares já se voltou contra o personagem mais alegre da Fenda do Biquíni, classificando-o como gay. Segundo a ministra, o protagonista tinha um relacionamento amoroso com a estrela-do-mar, Patrick – seu melhor amigo no desenho animado. “Todo mundo pensa que é um programa infantil. Olha as imagens do Bob Esponja namorando o coleguinha. Ninguém está vendo isso”, disse.

O criador de Bob Esponja, Stephen Hillenburg, já havia dito que o carismático personagem era assexuado, exemplificando a forma como ocorre a reprodução das esponjas-do-mar, espécie da qual Bob faz parte. Mais recentemente, a Nickelodeon, emissora oficial do desenho, publicou fotos para comemorar o mês do orgulho LGBT+ e confirmou que Bob Esponja fazia parte dessa comunidade.

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Frozen

A mais poderosa das princesas da Disney – e uma das poucas que não casa com um príncipe –, Elsa foi chamada de “lésbica” por Damares justamente por terminar o longa sozinha. Em resumo, o filme conta a história de amor entre duas irmãs: elas cresceram sem os pais em um castelo e tentam se reaproximar uma da outra.

Em Frozen, Elsa escolhe se isolar depois de falhar na tentativa de controlar os próprios poderes congelantes. Anna, sua irmã caçula, começa uma jornada para resgatá-la.

Damares apareceu em uma gravação, antes do lançamento de Frozen 2, preocupada com a continuidade da história e a possibilidade de acontecer um “beijo gay” em uma próximo filme.

“Acredite. Gente, eles estão armados, articulados. O cão é muito bem articulado. E nós estamos alienados. Aí agora a princesa de Frozen vai voltar para acordar a Bela Adormecida com um beijo gay. Isso aqui é muito grave. Sabe por que, gente? Eu fui menina, eu sonhei em ser princesa. Eu sonhei com meu príncipe encantado. A gente está abrindo uma brecha na cabecinha da menina de 3 anos para sonhar com princesa. Isso aqui é indução. Eu sonhei com um príncipe. Eu sonhei que meu príncipe vinha a cavalo, com aquele cabelo louro, assim, ao vento. De bota. Cavalo branco. Meu marido chegou sem cavalo, sem bota e era careca. Mas eu sonhei com um príncipe. Nós estamos abrindo uma opção para a menina sonhar com princesa. Vocês estão entendendo como isso aqui é sério?”, falou na época.

Popeye

O comedor de espinafre mais famoso do mundo, Popeye, já foi acusado de ser um exemplo de violência doméstica devido às brigas entre o marinheiro e Brutus pela atenção de Olívia Palito. “Eles lutavam por aquela mulher. Ela era esticada, ela era um objeto, e eu questionei tudo aquilo naquela época”, disse Damares.

Pica-pau

“Arrogante, egoísta, malcriado, desobediente, malvado” foram as palavras usadas por Damares para se referir ao Pica-pau. A ministra critica, principalmente, a versão do Pica-pau Biruta, que é alvo de vários memes na internet.

Desenhado pelo animador Emery Hawkins, o design perdurou nas produções entre 1940 e 1950, que mostram o personagem mais violento, com diálogos surrealistas e episódios memoráveis com certo grau de suspense.

“O Pica-pau de hoje é bonzinho diante do que tem por aí, mas naquela época era um desenho agressivo”, opinou a ministra, comparando-o com a versão mais recente da animação, em que o personagem tem um ar mais familiar, namora e interage com os sobrinhos.

Lindinhas

No filme lançado na plataforma da Netflix em agosto deste ano, a protagonista, Amy, de 11 anos, se revolta com as tradições conservadoras da família muçulmana e entra para um grupo de dança na escola.

Polêmico na internet, o filme foi sucesso de crítica, vencendo o prêmio do júri de Direção no Festival de Sundance, além de obter uma pontuação de 88% no Rotten Tomatoes, principal agregador de críticas do mundo. Lindinhas é alvo de petições pedindo sua retirada em todo o mundo, nas principais plataformas de abaixo-assinado.

Parte da polêmica deve-se à repercussão negativa que o pôster de divulgação da estreia teve. Nele, o grupo de meninas de 11 anos aparece usando roupas curtas e fazendo poses apontadas como sensuais. O cartaz motivou um pedido de desculpas pela plataforma.

“Lamentamos profundamente a arte inadequada que usamos para ‘Mignonnes/Cuties’. Não estava o.k., nem representava esse filme francês que ganhou um prêmio no Festival de Sundance. Agora atualizamos as fotos e a descrição”, publicou a Netflix em sua conta no Twitter na última quinta-feira (20/9).

Damares movimentou o ministério que dirige para retirar o filme da Netflix do ar. A própria ministra fez várias postagens em sua conta no Twitter contra o longa. Sua pasta, por meio da Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, pediu à Comissão Permanente da Infância e Juventude que entrasse com medidas judiciais a fim de suspender a exibição no Brasil. Além disso, o ministério quer apuração da “oferta e distribuição de conteúdo pornográfico envolvendo crianças”.

A pasta sustenta que o filme apresenta cenas de pornografia infantil, entendida como: “qualquer situação que envolva criança ou adolescente em atividades sexuais implícitas ou explícitas, reais ou simuladas, ou exibição de órgãos genitais de uma criança ou adolescente para fins primordialmente sexuais”, diz o texto, citando o artigo 241 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

O ofício do MMFDH faz críticas diretas e indiretas a algumas das cenas do longa. “São múltiplas as cenas com close-ups das partes íntimas das meninas, enquanto estas reproduzem movimentos eróticos durante a dança, se contorcem e simulam práticas sexuais; tudo levando à normalização da hipersexualidade das crianças”, diz o ofício, e completa: “Há uma cena, aos 68 minutos de filme, que sugestiona, inclusive, a ‘oferta de sexo pela menina’ a um homem adulto, em troca de um aparelho celular, fato que, obviamente, excede o limite da liberdade de expressão para incitar a pedofilia e a exploração sexual de crianças”.

A diretora do longa, Maïmouna Doucouré, disse em um painel do Festival de Cinema de Toronto que o filme é “ousado e feminista”. Ela defende que a intenção é exatamente o oposto do motivo pelo qual vem sendo criticado. “Eu espero que essas pessoas possam ver o filme que agora foi lançado. Estou ansiosa para ver suas reações quando eles perceberem que estamos do mesmo lado na luta contra a hipersexualização de crianças”, enfatizou a diretora.

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