Bolsonaristas justificam aliança com mensaleiro Roberto Jefferson

Para militantes do presidente, apenas alguém que conhece as entranhas da corrupção política, como o presidente do PTB, pode desmascará-las

atualizado 22/04/2020 8:18

Não é simples associar o combate à velha política a uma aliança estratégica com um símbolo do fisiologismo, como o ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB), mas a militância bolsonarista tem se esforçado para fazer isso.

Seguindo a lógica de que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”, o grupo político de Jair Bolsonaro justifica a convivência com um condenado no processo do Mensalão mirando no que considera um mal maior, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Por trás do que já virou uma guerra nas redes sociais, está o acordo que o presidente da República busca com partidos do Centrão para minar a influência de Maia.

Enquanto o governo já oferece reservadamente cargos de segundo escalão (presidências e direções de órgãos e bancos públicos) para representantes de partidos como o próprio PTB presidido por Jefferson e outras legendas do Centrão, como Republicanos, PL, PSD, PP e Solidariedade, a disputa pública se dá em torno de Jefferson.

Célebre por ter delatado o Mensalão petista, apesar de fazer parte do esquema e ter sido condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2012 a sete anos de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, Jefferson voltou ao centro do picadeiro político ao denunciar uma suposta negociação de bastidores para tirar Bolsonaro do cargo.

Segundo ele, há um grande acordo nacional envolvendo Maia, governadores e os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e do STF, Dias Toffoli, para golpear Bolsonaro, tendo como “desculpa” a crise do coronavírus.

A teoria foi divulgada pelo ex-mensaleiro em entrevista a um influenciador digital bolsonarista no último domingo (19/04). O próprio Bolsonaro propagandeou a entrevista e fez uma transmissão mostrando que a assistiu.

Desde então, críticos do bolsonarismo, sobretudo os ex-aliados que ficaram pelo caminho, como os deputados federais Alexandre Frota (PSDB-SP) e Joice Hasselmann (PSL-SP), começaram a tripudiar da aliança. Veja um exemplo com o deputado estadual por São Paulo Arthur do Val, que também responde por Arthur Mamãe Falei:

O discurso de defesa dos bolsonaristas está unificado, como mostra postagem da advogada Karina Kufa, uma das responsáveis pela crianção do novo partido de Bolsonaro, a Aliança pelo Brasil: “Quem pode denunciar um esquema de corrupção? Ora, quem faz ou fez parte dele! Quem não estava lá, não tem como saber o que aconteceu. Por que desacreditar o Roberto Jefferson?”, questionou ela na última terça-feira (21/04).

Articulista do jornal virtual Brasil sem Medo, que é altamente alinhado a Bolsonaro, o influenciador Bernardo Küster foi na mesma linha. Veja:

Os cargos em jogo
Fora da internet, o governo está oferecendo ao Centrão cargos como diretorias do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e vice-presidências da Caixa Econômica Federal.

Os deputados dos partidos envolvidos negociam segundo a lógica de que já votam com o governo na maioria das sessões, então não faz mal ter cargos, mas desconfiam do governo, afinal o discurso público de Bolsonaro é diferente do que se diz nos bastidores.

Para avançar nessa negociação, os partidos estão pressionando por cargos mais estratégicos, como diretorias regionais do Departamento Nacional de Estradas e Rodagem (DNIT) e a presidência da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf).

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