Análise: sem perfil de vice decorativo, Mourão assume papel corretivo

General atua mais uma vez para "interpretar" e amenizar efeitos negativos das declarações controversas de Bolsonaro

atualizado 08/03/2019 7:05

Tornou-se rotina: o presidente Jair Bolsonaro (PSL) fala alguma frase controversa e, na sequência, o seu vice, Hamilton Mourão, sai a campo para tentar explicar o que o titular quis dizer. Nesse jogo de interpretação de texto, os brasileiros aprendem a conhecer o papel dos seus governantes.

A última intervenção de Mourão na oratória de Bolsonaro envolve o papel das Forças Armadas na democracia. Nessa quinta-feira (7/3), em discurso feito na comemoração pelo 211º aniversário do Corpo de Fuzileiros Navais, o presidente voltou a gerar dúvidas sobre o conteúdo de suas mensagens.

Aos militares perfilados para ouvi-lo, Bolsonaro disse que cumprirá sua missão no governo “ao lado de pessoas de bem”, “daqueles que amam a pátria”, “respeitam a família”, “querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa” e “daqueles que amam a democracia”. Em seguida, arrematou: “E isso, democracia e liberdade, só existe quando a sua respectiva Força Armada assim o quer”.

Em princípio, a fala do presidente repete bordões de campanha sem grande repercussão na vida das pessoas. Mas, ao abordar a função dos militares, ele entrou em terreno sensível, onde não se deve pairar margem de dúvidas sobre o conteúdo da mensagem.

A frase de Bolsonaro causou turbulência por passar a impressão de que a democracia e a liberdade seriam concessões das Forças Armadas. Implicitamente, passa a ideia de que os militares têm a tutela da nação.

Na verdade, a história recente do Brasil mostra o contrário. Democracia e liberdade são valores conquistados pelo povo brasileiro contra a ditadura imposta pelos militares entre 1964 e 1985.

Para contextualizar, lembremo-nos de que o artigo 142 da Constituição de 1988, marco da redemocratização do país, estabeleceu que as Forças Armadas destinam-se a defender a pátria, garantir os poderes e, somente por iniciativa delas, assegurar a lei e a ordem.

Acima da Marinha, do Exército e da Aeronáutica estão o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Logo, zelar pela democracia não é vontade das FAs, como ficou implícito na frase de Bolsonaro. É obrigação constitucional.

Diante da repercussão negativa do discurso, como de praxe, o general Mourão deu uma versão mais palatável para o público. Segundo a explicação do vice, o presidente foi “mal interpretado”. Para exemplificar, recorreu à conturbada vizinha Venezuela.

“Onde as Forças Armadas não estão comprometidas com democracia e liberdade, esses valores morrem”, afirmou Mourão. “É o que acontece na Venezuela. Lá, infelizmente, as Forças Armadas venezuelanas rasgaram isso aí”.

Foi a segunda vez, em menos de uma semana, que o vice agiu para lapidar os termos usados pelo presidente. Na sexta-feira (1º), Mourão disse que Bolsonaro foi “mal interpretado” durante café da manhã com jornalistas. Na ocasião, ao comentar a reforma da Previdência, o chefe do Executivo admitiu a possibilidade de rebaixar de 62 anos para 60 a idade mínima prevista para a aposentadoria das mulheres.

A afirmação do capitão repercutiu muito mal, principalmente entre integrantes da equipe econômica, por enfraquecer o governo nas negociações com o Congresso. Mourão, então, interpretou: “O presidente mostrou que tem coisas que o Congresso poderá mudar ou negociar, não que ele concorde com isso”.

China e Israel
Nas palavras do general, as ideias do titular do Palácio do Planalto ficam mais amenas. O mesmo se deu quando o vice interveio para “interpretar” declarações do presidente sobre as relações do Brasil com a China e a transferência da embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém.

Desses episódios, fica a constatação de que Bolsonaro deveria tomar mais cuidado com suas falas, sobretudo, nos discursos de improviso. Na posição que ocupa, as palavras importam quase tanto quanto os atos. Por isso, precisam ser manejadas com maestria.

A quem se comunica com o público, antes de mais nada, recomenda-se clareza e precisão no uso do vocabulário. Caso contrário, provoca turbulências desnecessárias, tecnicamente chamadas de “ruídos de comunicação”.

Quando não se tomam esses cuidados, resta ao emissor correr atrás dos receptores para explicar o significado da mensagem. É isso que o general Mourão tem feito. Longe de ser um vice decorativo, ele exerce um papel corretivo do que diz o presidente.

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