“Acabou matéria do JN”, diz Bolsonaro sobre horário do boletim da Covid-19

Desde quarta (03/06), o Ministério da Saúde passou a divulgar o boletim com os dados do coronavírus no Brasil apenas às 22h

Presidente Jair Messias Bolsonaro cumprimenta apoiadores e fala com a imprensaRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 05/06/2020 23:12

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) comentou nesta sexta-feira (05/06) sobre o novo horário de divulgação dos números sobre a pandemia de coronavírus no Brasil. Desde quarta (03/06), o Ministério da Saúde passou a divulgar o boletim apenas às 22h. Sobre o assunto, o presidente disse: “Acabou matéria do Jornal Nacional”.

“É para pegar o dado mais consolidado. E tem que divulgar os mortos no dia. Por exemplo, ontem, praticamente dois terços dos mortos eram de dias anteriores. Tem que divulgar o do dia. O resto, consolida para trás. Se quiser fazer um programa do Fantástico todinho sobre mortos nas últimas semanas, tudo bem. Se bem que o que falta ainda, o mais difícil, é quem perdeu a vida por causa do Covid, ou com o Covid. Às vezes a pessoa tem dez comorbidades, tá com 94 anos, e pegou o vírus, potencializa. Parece que esse pessoal que faz, o Globo, Jornal Nacional, gosta de dizer que o Brasil é recordista em mortes. Agora, falta, inclusive, seriedade”, disse no Palácio da Alvorada.

Questionado sobre se a ordem para postergar a divulgação do boletim, Bolsonaro respondeu: “Não interessa de quem partiu. Eu acho que é justo sair o dado consolidado. Não tem que ninguém correr para atender a Globo”.

Questionado pelo Metrópoles, na noite desta sexta, o Ministério da Saúde negou que esteja dificultando o acesso ao boletim. A pasta culpou os estados pela demora na atualização do panorama.

Na última semana, a informação dos novos números tem registrado atrasos que ultrapassam três horas. Ao mesmo tempo, o país tem registrado recordes de óbitos e adoecimentos.

A principal crítica é que as informações têm sido divulgadas após 22h. Isso impacta na publicidade do panorama. Neste horário, os principais telejornais já foram exibidos pelas emissoras de TV e o fechamento dos jornais impressos já estão em finalização. Seria uma espécie de “boicote”.

Em nota, o Ministério da Saúde informou que “os dados de casos e óbitos são informados pelas secretarias estaduais e municipais de saúde, que também possuem sistemas próprios de divulgação destas informações, em plataformas públicas”.

“A pasta analisa e consolida os dados, sendo que em alguns casos há necessidade de checagem junto aos gestores locais. Desta forma, o Ministério da Saúde tem buscado ajustar o horário de divulgação dos dados, que são publicados diariamente”, frisa o texto.

Metrópoles apurou com uma fonte da Secretaria-Executiva do Ministério da Saúde que as informações das secretarias estaduais de Saúde são concatenadas até 19h, quando as planilhas de casos e mortos são finalizadas. O processo começa por volta das 16h. A pasta conta ainda com um sistema on-line para a inserção dos casos pelos gestores locais.

Pela regra, a notificação dos casos deve ser inserida no e-SUS Vigilância Epidemiológica (e-SUS VE), a ferramenta de registro de casos suspeitos e confirmados do novo coronavírus.

Os atrasos diários nos dados causam “apagão” e atrapalham resposta à Covid-19, dizem especialistas. A forma como as informações estão sendo tratadas desencadeou reações da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e até de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Nos bastidores, especula-se que Bolsonaro recomendou a mudança de rumo para evitar a divulgação dos dados nos telejornais noturnos — os de maior audiência na TV brasileira.

À época da gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, a divulgação ocorria às 17h diariamente, com a participação do chefe da pasta. Depois, sob o comando do oncologista Nelson Teich, a atualização passou a ocorrer às 19h e as entrevistas deixaram de ser diárias.

O atual ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, até o momento não participou de nenhuma entrevista desse tipo. Segundo a pasta, desde o início da pandemia fontes do ministério já participaram de mais de 300 horas em coletivas de imprensa.

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