Atrasos diários nos dados causam “apagão” e atrapalham resposta à Covid-19

Ministério da Saúde tem registrado atrasos de até três horas para atualizar informações de mortes e infectados pelo novo coronavírus no país

Presidente bolsonaro mascara coronavírusIgo Estrela/Metrópoles

atualizado 05/06/2020 15:26

Os atrasos diários do Ministério da Saúde na divulgação do número de mortos e de infectados pela Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, geraram uma forte reação de entidades de imprensa e especialistas, que temem um “apagão” dos dados. Na última semana, a atualização tem registrado atrasos que ultrapassam três horas. Ao mesmo tempo, o país tem registrado recordes de óbitos e adoecimentos.

O Metrópoles apurou com uma fonte da Secretaria-Executiva do Ministério da Saúde que as informações das secretarias estaduais de Saúde são concatenadas até às 19h, quando as planilhas de casos e mortos são finalizadas. O processo começa por volta das 16h. A pasta conta ainda com um sistema on-line para a inserção dos casos pelos gestores locais.

Pela regra, a notificação dos casos deve ser inserida no e-SUS Vigilância Epidemiológica (e-SUS VE), a ferramenta de registro de casos suspeitos e confirmados do novo coronavírus.

A principal crítica é que as informações tem sido divulgadas após às 22 horas. Isso impacta na publicidade do panorama. Neste horário, os principais telejornais já foram exibidos pelas emissoras de TV e o fechamento dos jornais impressos já estão em finalização.

Oficialmente, o Ministério da Saúde não explica a situação. O único posicionamento é que a pasta tem enfrentado “problemas técnicos”. Nos bastidores, especula-se que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) — foto em destaque — recomendou a mudança de rumo.

À época da gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, a divulgação ocorria às 17h diariamente com a participação do chefe da pasta. Depois, sob o comando do oncologista Nelson Teich, a atualização passou a ocorrer às 19h e as entrevistas deixaram de ser diárias.

O atual ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, até o momento, ainda não participou de nenhuma entrevista desse tipo.

O Palácio do Planalto e o Ministério da Saúde não justificam as mudanças e se houve interferência de Bolsonaro ou do chefe da pasta. O espaço continua aberto a esclarecimentos.

Críticas

O presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Paulo Jerônimo, critica a forma como o ministério tem tratado os dados. “Falta transparência do governo. Isso é extremamente prejudicial e está sendo feito propositalmente. A tentativa de esconder o tamanho da epidemia é um crime contra a população”, criticou.

Paulo cita que a mudança deixa claro o reposicionamento do governo no enfrentamento da pandemia. “O presidente é contra o isolamento social, única medida que consegue impedir a propagação do vírus, e sempre minimizou a doença. A imprensa, neste momento, é o principal meio para sensibilizar as pessoas”, conclui.

A presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Maria José Braga, defende a liberdade de informação. Para ela, o governo tem prejudicado o processo informativo.

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“Minimizar os números faz parecer que a situação não é tão grave e que medidas, como o isolamento, podem ser aliviadas. Ao meu ver, é obrigação do ministério fazer essa divulgação. Não há explicação plausível para a retardação. Parece uma adequação intencional do ministério sobre o assunto. Torço para que não seja uma política deliberada de  retardar a divulgação para diminuir o impacto, mas sim, uma questão técnica e que seja resolvida rapidamente”, adverte.

O presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Marcelo Träsel, repudiou a conduta. “A mudança no horário de divulgação dos dados é mais uma tentativa de impor obstáculos ao trabalho dos jornalistas e assim evitar a devida prestação de contas à sociedade”, aponta.

Ele ainda cita outras falhas. “O atual governo federal já vinha adotando medidas reprováveis neste sentido, como mudar o tamanho das letras no painel de dados para dar mais destaque aos recuperados do que aos mortos, excluir qualquer menção ao número de mortos no material produzido pela Secretaria de Comunicação, ou mudar o formato dos arquivos de dados para criar empecilhos a comparações entre diferentes momentos da pandemia”, conclui.

O biólogo e divulgador científico Atila Iamarino, doutor em virologia pela Universidade de São Paulo (USP), um dos principais nomes ligados aos estudos do vírus no país, criticou os atrasos. “Se começarem a não publicar os números, perderemos o controle completo. Espero, espero de verdade, que seja uma exceção”, reclama.

Ele afirma que é “antidemocrático” cercear o acesso aos números. “Enquanto o atraso “só” boicotar os jornais, menos mal. Horrível e antidemocrático, mas ainda funcional. Se não tivermos esse número atualizado, não é mais democracia”, pondera.

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Medes usou o Twitter para reforçar a necessidade de transparência dos dados. “Na pandemia, a divulgação de dados oficiais envolve, além do dever de prestar contas, uma questão de saúde pública. Dados do Ministério da Saúde são fundamentais às respostas à Covid-19 e devem estar abertos ao público, aos gestores e, portanto, à imprensa de forma consistente e ordenada”, escreveu.

Notificar é regra 

Desde o início da pandemia, o registro no sistema é obrigatório. A determinação é do próprio Ministério da Saúde, que editou uma nota técnica orientando as secretarias de Saúde estaduais e municipais.

Segundo a pasta, as equipes de saúde da atenção primária devem informar as ocorrências de maneira ágil, “auxiliando a gestão no monitoramento e na análise da situação epidemiológica da transmissão da Covid-19.

“Os dados vão auxiliar na tomada de decisão acerca das medidas locais de isolamento social e nas ações de suporte da capacidade hospitalar instalada no município e nos serviços de referência da rede. Além disso, os órgãos de controle utilizarão as notificações do e-SUS-VE para verificar o uso correto dos testes sorológicos distribuídos pelo governo federal aos municípios”, ressalta a nota técnica.

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