“Não haverá vacina em 1 ano”, diz única brasileira pesquisando Covid na OMS

Cristiana Toscano conversou exclusivamente com o Metrópoles. Nesta sexta (05/06), comitê internacional começa a avaliar 121 estudos em curso

atualizado 05/06/2020 10:22

Cristiana Toscano é a única brasileira em grupo da OMS que avaliará estudas para um vacina contra o coronavírusColin Poitras/Yale University

Um dia antes do Grupo Estratégico Internacional de Experts em Vacinas da Organização Mundial da Saúde (OMS) começar a avaliar os primeiros resultados dos 121 estudos em curso, a única brasileira que faz parte do comitê (e também a única representante da América do Sul) pausou a agenda e adiantou as mais recentes informações sobre a busca pelo imunobiológico. Ela é categórica: em menos de 12 meses, não há expectativas de que a vacina contra o novo coronavírus, causador da Covid-19, fique pronta e disponível para uso em larga escala.

A infectologista Cristiana Toscano, professora do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da Universidade Federal de Goiás (UFG) e representante da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIM), conversou com exclusividade com o Metrópoles no início da noite dessa quinta-feira (04/06). A especialista reafirma que toda a ciência está debruçada sobre a pesquisa para descobrir a fórmula, ou substância, que irá frear o novo coronavírus. Até lá, ela prega, o melhor caminho é o isolamento social.

Cristiana faz parte do grupo de cerca de 15 especialistas do México, Estados Unidos, Canadá, Europa e países da Ásia que irão ajudar a encontrar a principal demanda de saúde pública do século: a vacina contra o novo coronavírus. Atualmente, 10 estudos clínicos estão mais adiantados, entre eles, o do Reino Unido que terá testes no Brasil, começando por São Paulo.

“De forma realista e considerando um cenário otimista, se em todas essas etapas as vacinas que se iniciaram forem galgando garantias científicas, a gente espera ter a vacina final em até 12 meses. Menos que isso é muito difícil”, pondera.

Ela explica a necessidade desse tempo. “Esse ano provavelmente, embora tenhamos um grande avanço, não teremos a vacina. Para isso, são necessários uma serie de etapas clínicas que devem ser feitas com tempo para garantir segurança e eficácia. Depois, há testes com grande número de pessoas”, explica.

Quando a vacina estiver formulada, outra etapa terá de ser orquestrada: a produção. “Com os estudos, alguma ou algumas apostas vão sendo aprovadas. Mas ainda tem a fase de aumentar a capacidade industrial, sobretudo para responder à demanda global. Existem tecnologias diferentes para produção de vacina e cada uma pressupõem uma tecnologia de produção específica. Por isso, não podemos nos adiantar e projetar plantas de produção agora”, salienta.

O Brasil nas pesquisas

Nesta sexta-feira (05/06), o grupo da OMS começará a avaliar os resultados iniciais produzidos nas bancadas de laboratórios ao redor do mundo. “Existem algumas mais avançadas em termos de fases clínicas, estudos que estão na fase 2. Dentre essas, a do Reino Unido, que será testada no Brasil”, adianta.

O esforço do comitê é identificar lacunas de conhecimento, sugerir estudos adicionais e articular a coalização internacional. Na prática, o grupo vai operacionalizar a vacinação contra o coronavírus para que chegue às pessoas. “Vamos avaliar as evidências e, a partir disso, elaborar orientações para políticas públicas e estratégias de vacinação, como dose e esquema vacinal”, acrescenta.

Cristiana destaca que o Brasil tem duas vacinas em estudo e que possui a capacidade técnica de pesquisa e de produção para se posicionar junto aos países mais avançados. “O país tem instituições de pesquisa com capacidade muito importante globalmente”, elogia.

Acesso igualitário

Uma das preocupações dos cientistas, conta Cristina Toscano, é fazer com que a vacina seja acessível aos países mais pobres e emergentes, como o Brasil. “O acesso igualitário tem sido trabalhado de maneira muito intensa e com o empenho de organizações internacionais. Foi lançada no final de abril uma iniciativa que prevê o acesso equitativo às tecnologias relacionadas à Covid-19”, destaca.

Historicamente, foi observada uma demora entre a introdução de vacinas nos países desenvolvidos e a sua chegada aos mais pobres. Cristiana, porém, acredita que com a pandemia de Covid-19 terá outra dinâmica.

“A humanidade aprende com o tempo. Apesar das crises que estamos vivendo, temos a certeza que é trabalhando em colaboração, de forma articulada, que chegaremos mais longe. Temos que avaliar o que desenvolvemos entre o início da pandemia, na China, e os últimos seis meses”, lembra. Um dos exemplos que ela destacou foi o sequenciamento genético do vírus, o que é determinante no desenvolvimento de vacinas e tratamento.

Um vírus que veio para ficar

Uma das questões que devem ser respondidas nos próximos meses por infectologistas, virologistas e pesquisadores é a proporção da população que deve estar imunizada para frear o coronavírus. “Ainda temos lacunas de conhecimento. O percentual da população imunizada é calculado de acordo com a dinâmica da transmissão e das pessoas suscetíveis. Isso depende do que chamamos de ‘R’, que é o número reprodutivo efetivo da doença. Inicialmente, o R da Covid-19 chega a três [uma pessoa doente contamina outras três].  Com essa estimativa, apostamos que em torno de 60% da população deve estar protegida, seja pela vacina, ou por já ter contraído a doença, para frear o seu avanço”, avalia.

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Cristiana participa de trocas de experiências com pesquisadores de diversos setores. Perguntada se o novo coronavírus irá perdurar no cotidiano mundial, assim como o vírus da Aids, ela responde que, até o momento, tudo indica que sim.

“Nas conversas que estamos tendo no ambiente acadêmico,  tudo indica que ele veio para ficar. De fato, nos parece que uma vacina e o tratamento serão o caminho para controlá-lo”, conclui.

Isolamento e crise política

A especialista elogia o trabalho executado pelos estados ao longo da pandemia e reforça que a reação foi essencial para não chegarmos a um cenário ainda mais problemático no país. “Cada estado tem seu momento epidemiológico. Isso influencia a implementação das respostas. Cada estado deve avaliar a si para traçar suas políticas. Os estados foram rápidos e resultaram positivo no achatamento da curva”, pondera.

A OMS tem tratado a América Latina e o Brasil com atenção especial. Agora, a região é considerada o epicentro da doença. “Estamos no olho do furacão. Nossa preocupação é que haja uma flexibilização rápida que pode não ser adequada para o momento que estamos vivendo. Se ocorrer de forma abrupta, resultará em recrudescência dos casos”, alerta.

Discreta, Cristiana comentou sutilmente a crise entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e governadores, que se dividiram em lados antagônicos. “Eu acho que em qualquer situação de crise, sobretudo quando pensamos na pandemia, os posicionamentos políticos ajudam ou atrapalham. Tudo deve ser decidido com embasamento científico”, critica.

Ela cita como exemplo o isolamento social. “Ainda temos muitas perguntas no ponto de vista da ciência. Contudo, não há não dúvidas que o isolamento é fundamental. É a única medida que se tem para diminuir o pico e postergar ao longo do tempo o número de casos, além de diminuir e não sobrecarregar o sistema se saúde”, avalia.

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