Lula: “Bolsonaro não foi eleito para governar para milicianos”

Ex-presidente chamou Moro de "canalha", criticou plano econômico de Paulo Guedes e exigiu solução do assassinato de Marielle Franco

Pedro Vilela/Getty ImagesPedro Vilela/Getty Images

atualizado 10/11/2019 11:41

São Bernardo do Campo (SP) –  Um dia após ser solto, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou novamente a militantes do Partido dos Trabalhadores (PT) e simpatizantes do movimento “Lula Livre”. Do alto de um carro de som no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP), discursou por 44 minutos, na tarde deste sábado (09/11/2019). “Livre como um passarinho”, como ele mesmo disse, atacou o presidente Jair Bolsonaro, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, a quem chamou de “canalha”, e o ministro da Economia, Paulo Guedes, “demolidor de sonhos e destruidor de empregos”.

Lula disse duvidar que Bolsonaro, Moro e o procurador Deltan Dallagnol “durmam com a consciência limpa”. “Democraticamente aceitamos o resultado da eleição. Esse cara tem um mandato de quatro anos. Mas foi eleito para governar o povo brasileiro e não para os milicianos do Rio de Janeiro”, disparou o petista.

“Ele tem que explicar onde está o Queiroz (Fabrício, ex-assessor parlamentar de Flávio Bolsonaro). Como construiu patrimônio de 17 casas. Ele nunca fez discurso que preste. Tem que explicar por que apresentar um projeto econômico que vai empobrecer a população brasileira”, continuou o petista. O ex-presidente adiantou que pretende fazer outro pronunciamento em 20 dias.

“Anteontem vi os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O povo ficou mais pobre”, afirmou. “Não tem ninguém que conserte esse país se vocês (povo) não quiserem consertar. Não adianta ficar preocupado com ameaças, que vai ter AI-5 outra vez. Temos que ter a decisão de que esse país tem 210 milhões de habitantes e não podemos permitir que milicianos acabem com esse país que construímos. Eu não posso mais ver jovens inocentes sendo mortos pela polícia. Precisamos saber definitivamente quem foi que matou nossa guerra chamada Marielle (Franco), a grande vereadora do Rio de Janeiro”.

Mesmo enumerando fortes críticas a Bolsonaro, dizendo que “esse país não merece o governo que tem”, Lula advertiu o público para não xingar o presidente. “Não merece um governo que manda os filhos mentirem. A gente não tem que falar palavrão para o Bolsonaro. Ele já é o palavrão. Temos que dizer em alto e bom som que não vamos permitir que destruam o Brasil. Se trabalhar direitinho, a esquerda que o Bolsonaro tem medo vai derrotá-lo em 2022. Ele convoca as organizações e a juventude para ir às ruas. Esse jovem (de tesão de 20) vai estar nas ruas com vocês”, avisou.

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“Contra a distribuição de armas do Bolsonaro, vamos distribuir livros. Se as pessoas tiverem onde trabalhar, salário, onde estudar, acesso à cultura, a violência vai cair. É esse país que queremos construir. Eu estou disposto a voltar a percorrer este país. Quero construir esse país com a mesma alegria de antes. Lutar para que o trabalhador possa ir ao cinema, restaurante, ter carro, celular. Se reunir todo final de semana, fazer um puta churrasco. Não é possível que a gente viva neste país de rico ficando mais rico e pobre mais pobre”, disse Lula.

“Muitos de vocês não queriam que eu fosse preso em abril do ano passado”, falou Lula, lembrando de quando se entregou à PF, em abril de 2018. “Quando um ser humano, um homem, uma mulher, tem clareza do que ele quer na vida, tem clareza do que representa, tem clareza de que seus autores, seus algozes, seus acusadores estão mentindo. Tomei a decisão de ir lá para a Polícia Federal. Poderia ter ido a uma embaixada, a um outro país. Mas eu tomei a decisão de ir para lá. Porque eu preciso provar que o juiz Moro não era juiz, era um canalha que estava me julgando”, assinalou.

Lula finalizou o discurso chamando a militância de esquerda para se unir contra o governo. “Não sei qual a confusão que vão arrumar, mas estou com tesão para brigar por este país. Nossos deputados vão ter que virar leão naquele congresso. É atacar e não apenas se defender. Podem contar comigo. A única coisa que não vou fazer na vida é trair a confiança que vocês têm por mim”, encerrou o ex-presidente.

América Latina

Lula se mostrou informado sobre o que vem acontecendo na América Latina. “Nós vemos o que está acontecendo no Chile. É um modelo de país que o Guedes quer construir, fazendo com que pessoas velhas morram porque não têm salário. Governo que é eleito não é eleito para destruir, é eleito para governar”, discursou.

“Na Argentina, Alberto Fernández e Cristina Kirchner derrotaram Macri e ganharam e eleição. Vocês viram o que está acontecendo na Bolívia. Evo Morales é o companheiro que fez o melhor governo da Bolívia desde que foi criada. Está crescendo 5% ao mês. O Evo Morales criou política social para cuidar das mulheres. Nós temos que ser solidário ao povo da Bolívia, do Chile, da Argentina. Trump que resolva os problemas dos americanos e esqueça os latino-americanos”, falou.

Crítica à mídia

Ao falar sobre a Globo, Lula apontou para o alto. “Lá em cima está um helicóptero da Rede Globo de televisão. Para falar merda outra vez, sobre Lula e sobre nós”, atacou. Na cadeia, segundo o petista, só dava para assistir a canais abertos de TV.

“A TV do Silvio Santos está uma vergonha. A Record está uma vergonha. A Globo continua a mesma vergonha. Não colocou uma matéria do Intercept (a Vaza Jato). A única matéria que ela fez foi para defender o Faustão”, disse.

Em nota, a emissora carioca rebateu as críticas do petista. “A Globo repudia os ataques do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A prova de isenção da emissora é a transmissão do discurso que o ex-presidente fez ontem e hoje. Também é prova de sua isenção ser alvo de ataques dos extremos do espectro político hoje, tão radicalizado. A Globo faz jornalismo sério e continuará a fazer. Sem se intimidar e sem jamais perder a serenidade.”

Movimentação

Personalidades de esquerda como Gleisi Hoffmann (PT-PR), deputada federal e presidente do PT, Fernando Haddad (PT), candidato à presidência da República nas eleições 2018, Guilherme Boulos, presidenciável em 2018 pelo PSol, e o deputado federal Marcelo Freixo (PSol-RJ) acompanharam a movimentação em São Bernardo do Campo.

Caravanas de diversos regiões do país estiveram em São Bernardo do Campo. Militantes se reuniram desde a madrugada à espera de Lula, solto no fim da tarde dessa sexta (08/11/2019) da carceragem da Polícia Federal, em Curitiba.

Após ganhar liberdade, o petista discursou por cerca de 15 minutos. Fez críticas ao presidente Jair Bolsonaro, ao Ministério Público e à Polícia Federal.

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