Os desdobramentos da Operação Lava Jato tiraram do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a liberdade e imóveis que supostamente usava em momentos de lazer, como o triplex do Guarujá e o sítio de Atibaia (ambos em São Paulo). Com mais de 70 anos de idade e somando condenações que chegam a 25 anos de reclusão, o líder do Partido dos Trabalhadores (PT) também acumula perdas de entes queridos antes e depois do encarceramento.

O primeiro grande baque veio com a morte de dona Marisa Letícia, ex-primeira-dama do país. Recentemente, ocorreram os falecimentos do amigo Sigmaringa Seixas e do irmão mais velho do ex-presidente, o Vavá. Agora, Lula pôde sair da carceragem da Polícia Federal em Curitiba (PR) pela segunda vez desde sua reclusão, em abril de 2018, mas, para a triste missão de neste sábado (2/3) velar e sepultar o neto, morto na véspera, em decorrência de meningite. O menino chegou a visitar o avô no cárcere.

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O pequeno Arthur Araújo Lula da Silva, 7 anos, deu entrada nessa sexta (1º) debilitado e com febre alta no Hospital Bartira, da Rede D’Or, em Santo André. Porém, seu quadro clínico se agravou e ele não resistiu. Foi Sandro Lula da Silva, pai de Arthur, quem obteve autorização da Polícia Federal para telefonar ao próprio pai e dar a notícia da morte do neto. 

A partir daí começou o trâmite da defesa do ex-presidente a fim de garantir sua liberação para se despedir da criança, o que foi garantido após acordo entre os advogados de Lula, a PF e a Justiça. O combinado foi não haver divulgação de trajetos e detalhes da viagem para não resultar em tumultos: apoiadores do ex-presidente poderiam intensificar os protestos por sua liberdade

O acordo foi fundamental para viabilizar a participação de Lula no adeus ao neto. Do contrário, a missão poderia ser malsucedida. Afinal, no Natal do ano passado, o Judiciário já havia negado a saída do detento para o enterro do amigo, advogado e ex-deputado federal constituinte Sigmaringa Seixas. Há pouco mais de um mês, nova derrota. Embora a Lei de Execução Penal garanta a liberação de presos para sepultamentos de parentes próximos, Lula não conseguiu participar das cerimônias fúnebres de seu irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá, morto em 29 de janeiro.

Após negativa da Justiça comum, recurso da defesa do ex-presidente chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). A alegação do Judiciário para não permitir o comparecimento de Lula ao enterro do irmão, inicialmente, foi a dificuldade logística para garantir a segurança do político durante os deslocamentos, de Curitiba a São Paulo e vice-versa. Quando o presidente do Supremo, ministro Dias Toffoli, decidiu liberar Lula para ver o corpo, Vavá já havia sido enterrado.

Poucos dias depois da morte do irmão de Lula, no dia 6 de fevereiro, a juíza Gabriela Hardt, da Justiça Federal de Curitiba, condenou o ex-presidente a 12 anos e 11 meses de prisão no processo sobre obras realizadas por empreiteiras no sítio de Atibaia (SP) – a primeira saída do ex-presidente da cadeia foi, justamente, para depor no caso.

Em relação à propriedade no interior paulista, Lula responde pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. São os mesmos delitos a ele imputados no caso do triplex do Guarujá, que lhe renderam o aprisionamento na carceragem da PF após condenação em segunda instância. 

Morte de Marisa Letícia
Pouco mais de um ano antes de ser privado da liberdade, Lula enfrentou a morte da ex-primeira dama Marisa Letícia, aos 66 anos, em fevereiro de 2017, com quem foi casado por mais de quatro décadas. Quando dona Marisa morreu, ela e o marido já estavam na mira dos investigadores da Operação Lava Jato.

 

Luiz Inácio Lula da Silva sorri ao lado da esposa, Marisa Letícia Lula da Silva: 15/11/1989

 

A ex-primeira-dama era uma das rés no processo do triplex do Guarujá, respondendo pelo crime de lavagem de dinheiro. De acordo com a força-tarefa da Lava Jato, ela comprou, com Lula, a cota da Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo (Bancoop) que, segundo o Ministério Público Federal, se tornou a cobertura triplex alvo da operação.

Em 12 julho de 2017, houve a primeira condenação de Lula no caso, a mais de 9 anos de reclusão, pelo então juiz federal Sergio Moro, hoje ministro da Justiça e da Segurança Pública do governo de Jair Bolsonaro (PSL). Em 24 de janeiro de 2018, o Tribunal Regional da 4ª Região (TRF-4) confirmou a condenação e aumentou a pena para 12 anos e 1 mês de reclusão.

Os processos do triplex e do sítio foram os primeiros pelos quais o ex-presidente deverá cumprir pena. No entanto, podem não ser os últimos. O petista foi denunciado ou virou réu em outros sete casos que tramitam no Supremo e na Justiça Federal (no Paraná e no Distrito Federal). Como ainda não foram proferidas sentenças nesses processos, é possível que novas perdas ainda venham a ser acumuladas pelo ex-chefe do Executivo brasileiro na esfera jurídica.