“Indicação de Eduardo é grande bobagem de Bolsonaro”, diz embaixador

Lotado na Divisão do Arquivo do Itamaraty, Paulo Roberto de Almeida diz que filho do presidente demonstra "adesão sabuja" aos EUA

Foto: Igo EstrelaFoto: Igo Estrela

atualizado 18/07/2019 7:08

O embaixador Paulo Roberto de Almeida, de 69 anos, tornou-se personagem de um dos episódios mais simbólicos das mudanças implantadas no Itamaraty pelo governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Em pleno Carnaval, ele recebeu a notícia de que estava demitido da presidência do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI).

Ainda na ativa, mas indesejado pelo governo, Almeida está agora lotado na Divisão do Arquivo do Itamaraty, onde tem tempo para se dedicar à produção intelectual. Entre os diplomatas, o embaixador se destaca por ser um dos poucos profissionais que faz críticas públicas na área em que atua.

Em entrevista ao Metrópoles, o embaixador deu opiniões fortes, por exemplo, sobre a indicação de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, para embaixador do Brasil no Estados Unidos.  

“A indicação de Eduardo é uma grande bobagem de Bolsonaro”, disse o embaixador. “Esse filho do presidente não está qualificado para o cargo e, no plano das relações políticas e diplomáticas Brasil-Estados Unidos, já demonstrou uma adesão sabuja ao Trump”, acrescentou. 

Como exemplo, ele lembra as duas vezes que Eduardo passeou nos EUA com um boné de campanha pela reeleição do presidente Donald Trump em 2020. Ao interferir na política interna de outro país, lembra Almeida, Eduardo contraria a Constituição brasileira.

A razão da perda do cargo no IPRI foram artigos que ele publicou com questionamentos sobre política externa brasileira implementada pelo chanceler Ernesto Araújo. Um dos textos era de autoria do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Crítico contumaz dos governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff – chamados por ele de lulo-petistas -, Almeida entrou em choque direto também com as ideias e as práticas de Araújo, a quem conheceu ainda na década de 1990.  

Em consequência das novas diretrizes, aponta o diplomata, o Brasil abandonou a tradição de dar prioridade aos organismos multilaterais, desprezados pelas diretrizes atuais. Almeida também discorda da pregação do atual governo de que atua sem ideologia.  

“O que mais tem nesse governo é ideologia. Uma ideologia de direita, uma ideologia conservadora, ou até uma grande confusão mental sobre o que significa ser de direita, conservador ou antimarxista”, afirma.

As impressões do embaixador sobre as mudanças ocorridas no Itamaraty nos últimos anos estão registradas no livro Miséria da Diplomacia: a destruição da inteligência do Itamaraty, edição de autor, lançado agora em plataforma digital. 

Trata-se de uma obra de grande relevância para se entender o que se passa no Ministério das Relações Exteriores (MRE) no governo atual. Para o embaixador, o Itamaraty vive uma “revolução cultural” em decorrência da agenda defendida por Araújo, com base no pensamento do escritor Olavo de Carvalho, a quem chama de “sofista da Virgínia”.

Assista a entrevista completa:

Ao Metrópoles, o embaixador também avaliou a importância do acordo fechado entre o Mercosul e a União Europeia. Na sua opinião, Bolsonaro e Araújo nada têm a ver com esse feito, mas sim com o ministro da Economia, Paulo Guedes, e sua equipe.

Por fim, Almeida fala sobre o impacto das mudanças implantadas pelo governo Bolsonaro no MRE. “Há um retrocesso mental muito penoso para diplomatas”, disse. “ Eu me expresso livremente. A maior parte dos diplomatas considera deploráveis as posições adotadas atualmente, mas eles não ousam se pronunciar porque todos eles dependem um pouco do gabinete para a sua promoção, para a sua remoção para postos de prestígio ou para a assunção para cargos de chefia no Itamaraty.”.

Últimas notícias